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Heroicas lições

Texto: Ana Luísa Vieira e Tissiane Vicentin, com a colaboração de Flávio Carneiro, Jéssica Martineli, Juliana Dias // Imagem: Julian Fong
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Na seção Amar da edição 19 da Sorria, coletamos depoimentos de pessoas que nos apresentaram seus heróis: ídolos que adquiriram esse posto após ensinar algo aparentemente simples, mas que se tornaram lições para a vida toda. Como prometido na revista, aqui você confere mais uma coleção de relatos. Tem heróis de todo tipo: familiares, amigos, desconhecidos e também gente famosa.

(Se você gostar, depois clique aqui e confira mais uma série de depoimentos no nosso especial!)

 

 

Eu morava em um sítio no interior de São Paulo, e a casa dos meus avós era bem próxima. Sempre passava lá após a escola. Certo dia pedi ao meu avô que me ensinasse a desenvolver uma das tarefas do cafezal. Não me recordo o que era, mas das palavras dele eu não esqueço: "Não preciso te explicar, o trabalho ensina. Basta ir e fazer." Fui e fiz. Tão importante quanto ensinar é encorajar.
Renato da Silva, 38 anos, Lins (SP).

 

 

Meu avô foi torturado pela ditadura militar, mas eu nunca o vi desistir dos seus valores. Ele me ensinou que na vida tudo é uma questão de escolhas, que não podemos ficar à margem da situação. Sempre é importante participar, se expor, criticar, perguntar. Aprendi que devemos ser justos e transparentes.
Marcelo Karam, 51 anos, Curitiba.

 

 

Quando a seleção saiu da última Copa do Mundo, a primeira coisa que eu e meu marido fizemos foi tirar a bandeirinha do Brasil que havíamos colocado no carro. Na mesma hora, a Júlia, nossa filha de 6 anos, disse: “Só porque perdemos o jogo deixamos de ser brasileiros?”. Voltei atrás e saímos esbanjando patriotismo pelas ruas.
Valéria Sitta, 35 anos, Londrina (PR).

 

 

Minha mãe me deixou na porta da escola, desci do carro e me despedi. Poucos metros à frente, ela abriu a porta do passageiro e uma senhora desconhecida entrou. Quando cheguei em casa, perguntei o que tinha acontecido. Minha mãe disse que a mulher havia sido atropelada por uma moto e tudo o que ela fez foi levar a senhora em um hospital público próximo e deixá-la na recepção. Hoje, quando passo por uma situação semelhante, lembro que ajudar alguém nem sempre é complicado.
Marcela Dantas, 20 anos, Natal.

 

 

Alguma coisa mudou enquanto eu descobria a história de amor vivida pela poetisa e cantora norte-americana Patti Smith e pelo artista Robert Mapplethorpe. Ao ler as memórias dela, no livro Garotos, entendi que se quiser realmente alcançar os sonhos, por mais impossíveis que pareçam, devemos perder o medo de arriscar. Patti me mostrou que é possível dar uma chance ao seu verdadeiro desejo, por mais difícil que pareça realizá-lo.
Sheyla Miranda, 24 anos, São Paulo.

 

 

Quando eu tinha meus 7 anos, ralava muito para estudar matemática. Meu pai, como um bom projetista, gostava de cálculos e passava a noite estudando comigo antes das provas. Numa dessas vezes, ele me disse: "Um grande problema nada mais é do que vários probleminhas juntos". Ele falava, claro, das equações matemáticas, mas eu levo este pensamento comigo sempre que enfrento qualquer dificuldade na vida.
Edna Fukushima, 33 anos, Campinas (SP).

 

 

Depois que li O escafandro e a borboleta, do Jean-Dominique Bauby, mudei meus conceitos em relação à eutanásia. O texto conta a história de um estilista de sucesso que sofre um acidente e fica em coma, mexendo apenas as pálpebras. Por conta disso, os médicos desenvolvem uma forma de se comunicar com ele. A história é escrita a partir do depoimento desse homem, cujo único desejo é o de não ver os aparelhos que o sustentam serem desligados. Depois dessa leitura, percebi que não há valor maior que a vida.
Carol Madruga, 22 anos, São Paulo.

 

 

Minha avó, Kika, me ensinou um valor que, muitas vezes, nem nos damos conta: a empatia, capacidade de saber se colocar no lugar do outro. Durante as visitas que eu fazia à sua casa, ela ficava na cadeira de balanço, de braços abertos para um abraço, e depois segurava nossas mãos, oferecendo-nos um sorriso de criança. Foi exemplo de amizade e de simplicidade. E acho que empatia é isso: oferecer calor humano, mesmo quando não se está mais aqui.
Juliana Dias, 22 anos, São Paulo.

 

 

Sempre gostei de música e, logo cedo, quis aprender piano. Tive duas professoras. Por coincidência, as duas tinham o mesmo nome, Célia. Eram bastante exigentes e, ao mesmo tempo, super amorosas. Hoje, quando dou aulas de piano, tento repetir esse modelo: ser rigoroso quanto à qualidade técnica, mas, ao mesmo tempo, estimular o aluno a se apaixonar pelo que toca.
Yvan Sinico, 46 anos, Mogi Guaçu (SP).

 

 

Voltava para casa depois de um dia cansativo quando dei de cara com um funcionário de uma empresa funerária. Ele usava um chapéu preto, esquisito, parecia um coco cortado ao meio! Não resisti e caí na gargalhada. A reação dele? Abriu um esplendoroso sorriso, como se quisesse exibir melhor o curioso adereço. Aquele sorriso me tocou. Voltei pra casa mais leve, encarando tudo com outras cores. Aprendi que eu também poderia fazer o dia de outra pessoa melhor com um gesto simples assim.
Simoni Nishimura, 26 anos, São Paulo.

 

 

Um dia, encontrei o livro Pequenas Epifanias, do Caio Fernando Abreu, na caixinha do correio de casa. Uma amiga tinha emprestado o título da biblioteca da faculdade e o deixou lá para mim, com um bilhete dizendo que eu tinha de ler ­–  e depois devolver. Logo nas primeiras linhas, senti um jorro de luz e delicadeza em minha percepção. Um novo universo se abriu, cheio de pequenas e belas coisas que eu nunca tinha visto. Devolvi o livro duas semanas depois, sabendo que eu estava diferente.
Rita Loiola, 29 anos, São Paulo.

 

 

Em 1992, Israel (que viria a ser meu melhor amigo) e seus pais, Sandra e Sérgio, vieram morar na minha rua, abrindo um armazém. Eu estudava de manhã e, à tarde, ficava conversando com o casal. Sérgio chamava Sandra de mãe, carinhosamente – até porque é seis anos mais novo do que a esposa. Eu, que mal os conhecia, realmente acreditava que Sandra era mãe dele. Detalhe: Sérgio é branco e Sandra é negra. A lição que tiro dessa história é sobre o racismo, mal que a sociedade incute nas pessoas à medida que elas crescem. A criança, pela sua pureza, não cultiva esse tipo de preconceito.
Erivaldo Júnior, 25 anos, Canoas (RS).

 

 

Fui assaltada em frente ao meu trabalho. O ladrão levou minha bolsa com todo o vale-transporte que eu tinha para o mês inteiro. Ao chegar na faculdade, contei para os meus colegas. A menina que menos me conhecia na classe tirou os vales dela da bolsa e me deu, afirmando que viria para a escola de carona. Foi um lindo gesto. Nos tornarmos grandes amigas.
Cláudia de Cássia Rosa, 34 anos, São José dos Campos (SP).

 

 

Minha mãe era professora de português e sempre teve a carga horária completa (geralmente dava aulas no período da tarde e da noite). Apesar do nosso relacionamento cheio de carinho e confiança, com muita proximidade aos finais de semana, adoraria que ela tivesse passado mais tempo comigo. Foi baseada no exemplo de ausência da minha mãe que assumi integralmente a educação do meu filho único, Gabriel, nascido em 2006, cinco anos depois dela falecer. Sua partida fortaleceu em mim a ideia de que tudo é passageiro e que aquilo que tem mais valor está muito perto da gente.
Elaine Cristina Wada Lopes, 35 anos, Ribeirão Preto (SP).

 

 

Tinha 16 anos quando vi, pela primeira vez, um trabalho da artista plástica Regina Silveira, chamada O Paradoxo do Santo. Era uma escultura simples, de um homem montado em um cavalo branco. Poderia ter passado despercebida se não fosse a enorme sombra que saía da peça. Ao olhar com atenção, notei que a projeção não era exatamente a do homenzinho sobre o cavalo, mas sim o contorno de uma outra escultura: a estátua de Duque de Caxias, de Victor Brecheret, que está na Praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo. Após o encontro com essa obra, aprendi que precisamos ver o mundo com mais atenção, afinal, como o ditado diz: nem sempre o que se vê é o que parece.
Karina Sergio Gomes, 24 anos, São Paulo.

 

 

Uma vez, quando eu era bem criança, fui à uma lanchonete acompanhada pela minha mãe. Pedi uma coxinha e ela, um bolo. Mamãe foi logo me oferecendo umas garfadas do bolo de chocolate, que prontamente aceitei. Como continuava a comer minha coxinha sem repetir o gesto, ela perguntou, sorrindo e cheia de doçura: "Dá um pedacinho pra mamãe?". Ao que eu, gulosa, neguei. Ao ver seu desapontamento, fiquei arrependida. Ofereci, depois, um pedaço da coxinha, mas aí ela já não queria mais. Foi uma lição sobre a importância de dividir o que se tem.
Rayanne Azevedo, 22 anos, Natal.

 

 

Quando estava na quinta série, conheci uma menina chamada Renata, muito curiosa e inteligente. Ela usava óculos pesados e era muito humilde. Os alunos implicavam demais com ela, a maltratavam mesmo. Eu era a única garota que andava com a Renata, porque, desde pequena, ouvia meu coração: "Não faça aos outros o que não quer para si". Essa menina me ensinou a ter ainda mais respeito pelo ser humano, não importando aparências ou escolhas.
Andréa Cezário Morales, 31 anos, São Paulo.

 

 

Eu devia ter uns 13 anos quando passei pela experiência marcante de assistir, numa noite qualquer na TV aberta, ao filme Era uma Vez na América, de Sergio Leone. Nenhum espectador passa indiferente por esse filme, que conta, da infância à idade adulta, o nascimento da máfia judaica em Nova York. Foi o primeiro longa que me deu a real dimensão épica do cinema, capturando a minha atenção de uma forma que, até então, eu não imaginava possível: do início ao fim, em quatro horas de projeção, quase sem piscar.
Fábio Fujita, 32 anos, São Paulo (SP).

 

 

Desde minha separação, há 10 anos, eu e meu ex-marido não nos entendíamos. Ficamos mais de ano sem nos falar. Recentemente, em uma conversa com meu filho mais novo, sobre algo que eu discordava do pai, ele me disse: "Mãe, mas foi você quem o escolheu para mim". Depois desse dia, a ficha caiu. Passei a respeitar as nossas diferenças e admirar as qualidades que, claro, o pai deles tem – além de poupar meus filhos da minha opinião pessoal sobre ele.
Patricia Casagrande, 36 anos, Rio Claro (SP).

 

 

Minha mãe me criou ensinando-me a ter medo do meu pai, a esconder situações dele. Com ajuda do meu marido e de uma psicóloga competente, passei a enxergar e entender isso e aprendi que a mentira não nos leva a nada – e que a verdade liberta, mesmo! Hoje sou mãe de gêmeos de 3 anos e sempre lhes digo a verdade. Dessa forma, ganhei a confiança deles e sinto que são crianças seguras. Sei que estou ajudando-os a se tornarem pessoas verdadeiras, honestas e, certamente, mais felizes.
Alessandra Kleine, 34 anos, Atibaia (SP).

 

 

Um dia eu estava sentada numa lanchonete e entornaram suco em mim pelas costas. Levantei furiosa, com muita raiva mesmo, pronta para xingar. Quando me virei, a mulher que havia derrubado o suco pediu desculpas e se ofereceu para ajudar a secar. Fiquei com muita vergonha de ter pensado em ofendê-la!
Irene dos Santos Nunes Ferreira, 19 anos, Belo Horizonte.

 

 

Minha mãe me ensinou através do exemplo que, por maiores que sejam (ou aparentem ser) nossos problemas do dia a dia, não vale a pena fechar a cara e lamentar. Cresci assim: vendo ela sempre cantando, espantando qualquer mal humor com uma bela canção. E até hoje é desta forma. Quando estou chateada, me ponho a cantarolar e, como que por encanto, a mente se distrai, as preocupações desaparecem, o coração sossega, enfim, me sinto tranquila e feliz!
Luciane Mari Palmeira Kussuki, 32 anos, São Paulo.

 

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Escrito às 10h50 do dia 18 de abril de 2011

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