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Memória da pele

Gostou dos depoimentos sobre cicatrizes que publicamos na seção Amar da Sorria 15? São histórias sobre pessoas que gostam das marcas que carregam no corpo, porque lhes trazem boas lembranças, ou porque representam importantes lições de vida. Alguns dos relatos que apuramos não couberam na edição impressa da revista. Mas eles estão aqui no site. Confira!
Como sempre, o ônibus estava lotado. A luta por um lugar nos degraus acabou me fazendo viajar com o corpo para fora. Metros depois, senti uma pancada na cabeça: havia batido de raspão em um poste. A cicatriz ficou escondida sob o cabelo. Mas creio que, de certa forma, a experiência mudou a minha trajetória. Se a vida exigia correr riscos, que fosse por um motivo mais nobre do que evitar esperar a próxima condução. Larguei um emprego de cinco anos para cursar agronomia em outra cidade. Casei, me formei, fiz mestrado, tive dois filhos. Espero que, para eles, não seja preciso encontrar um poste pelo caminho. Que suas decisões sejam pautadas pelos valores que, pela nossa vivência, tentamos lhes transmitir.
João Batista Tolentino Rodrigues, 43 anos, Valinhos (SP).
Tenho uma cicatriz que me acompanha desde que eu nasci. Meu dedo anelar esquerdo nasceu grudado na palma da mão e no dedo do lado, e sem algumas articulações. Fiz duas cirurgias: uma com 45 dias de vida e outra com 5 anos. Quando era criança, usei alguns aparelhos ortopédicos para ver se melhorava, mas não fez nenhuma diferença.
Até hoje não tenho duas articulações desse dedo. Escrevo com essa mão, e muita gente demora anos para perceber o problema. Acham que é só um jeito estranho de segurar o lápis. Na verdade nunca me importei de verdade. Talvez porque meu pai sempre dizia que isso fazia de mim uma pessoa especial. Enfim, nem tem uma história muito engraçada nem uma grande lição de vida. Mas que eu achava legal usar aqueles aparatos ortopédicos, eu achava.
Bárbara Giacomet de Aguiar, 27 anos, São Paulo.
Foi por volta dos 6 anos que adquiri a cicatriz que tenho na testa. Eu e meus irmãos adorávamos ficar pulando na cama dos meus pais. Um dia, escorreguei e caí na cabeceira. Meu pai me levou de ônibus ao pronto-socorro, parecia muito preocupado. Nunca antes eu havia levado pontos, fui até muito corajosa. Segurei a mão do meu pai e nem chorei. Hoje, quando olho para essa cicatriz, recordo não da dor, do susto ou do medo, mas sim de como era bom brincar com meus irmãos!
Maria Augusta Oliveira de Amorim, 27 anos, Praia Grande (SP).
Sinto um arrepio só de pensar no ocorrido. Eu e meus amigos nos divertíamos brincando de esconde-esconde num local cheio de mato e ferragens agrícolas. De repente, ao dar um pulo em direção a um esconderijo, fui atingido no joelho pela ponta afiada de um arado. Desmaiei. Levei 12 pontos, doeu muito. Até hoje carrego a cicatriz dessa peraltice.
Luiz dos Santos Duch Junior, 56 anos, Sorocaba (SP).
Era dia 15 de novembro de 1989, feriado do centenário da proclamação da república. O fim de tarde na chácara estava uma gritaria só. Minha irmã mais velha, a Dani, era perseguida pela do meio, a Helena, que corria com uma vassoura na mão. Depois era a Dani que passava com a mesma vassoura atrás da Helena. Eu, a mais nova, aos 10 anos, decidi tomar partido. Agora eram duas no encalço da primogênita. Em desvantagem, a Dani correu para o quartinho da bagunça, no fundo do quintal. Eu e a Helena a empurramos com a porta, contra a parede. Uma hora, o vidro que eu estava pressionando quebrou, ferindo profundamente meu pulso. Minha sorte foi que o corte fez uma curva, passando a menos de meio centímetro da artéria. Nunca tinha visto sangue, muito menos ossos tão branquinhos! Levei 18 pontos, que até hoje me lembram como nós três nos divertíamos juntas.
Maria Glória Sachi do Amaral, 31 anos, Araras (SP).
Eu era pequeno e estava com vontade de ir ao banheiro. Minha mãe me levou. Só que ela estava de salto, e foi correndo, então tropeçou. Eu escapei do braço dela e bati em uma porta, o que me rendeu essa cicatriz que tenho na sobrancelha. Mas eu gosto: as meninas acham atraente.
Marcelo Cabrera, 22 anos, São Paulo.
Essa história começou um dia em que eu estava saindo do cinema e de repente senti uma coceira pelo corpo inteiro. Minha mãe me levou na médica. Ela disse que era catapora, mas minha mãe falou que era impossível, porque eu tinha sido vacinado. Mas, chegando em casa, vimos que minha mãe tinha confundido os filhos... Realmente, eu não tinha tomado a vacina. Era catapora mesmo. Para me tratar, tive que tomar banho numa água roxa esquisita. A maior ferida ficou no peito. Ainda tem uma marca. Por isso meus amigos ficam zoando, dizendo que eu tenho três mamilos!
Eduardo Pompeu Lavoura, 13 anos, Piracicaba (SP).
Sempre gostei de cicatrizes. Acho que não existe marca mais bonita que essa. Tem as de nascença, mas não vejo muita graça – você já nasce com elas. As cicatrizes, você conquista. Aos 18 anos, decidi fazer minha primeira scarification, ou seja, uma cicatriz feita por querer, para ficar tipo uma tatuagem. Ela é desenhada com um bisturi e, dependendo do tipo de corte, dá pra deixar mais grossa ou mais fina. Fiz um cubo no braço esquerdo. Com anestesia, claro. E ficou lindo!
Laura Sobenes, 23 anos, São Paulo.
Escrito às 16h55 do dia 20 de agosto de 2010
















































