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Olimpíadas lamacentas

Encharcado pela chuva, o campo dos jogadores da cidade de Navegantes (SC) mais parecia uma plantação de arroz. "Tá bom de fazer uma partida nessa lama aí", sugeriu Nilton Motagna, plantador de arroz como a maioria do grupo reunido naquele sábado de junho de 2009. "Vamos marcar, mas vamos assar uma costela também", propôs Hélio Dias, amigo de infância e de peladas de Nilton.
Menos de um mês depois, em vez das 60 pessoas convidadas, apareceram 800 para o primeiro Futlama. A prefeitura garantiu o aluguel de uma tenda e os organizadores encomendaram meio boi para o churrasco. Mas, na hora, outra tenda precisou ser providenciada e foram para a grelha um boi e um porco inteiros. Falou carne, mas sobrou risada. "A gente se sujou um monte. Mas se divertiu muito também", conta Hélio.
Para construir o campo embarrado, foi utilizada a mesma técnica com a qual se prepara a terra para o plantio de arroz, usando um trator de mais de 2 toneladas. Mas a camada de lama acabou muito alta: 40 centímetros. "Quase nem conseguíamos nos mexer", diz Hélio. "Era muito difícil desatolar o pé para chutar, cansava muito." Esse ano, na terceira edição, realizada no segundo fim de semana de abril, a camada já tinha baixado para algo entre 10 e 15 centímetros. No ano que vem, deve chegar a 7. "A intenção é que as pessoas escorreguem mais. É mais engraçado", diz.
Além do futebol, outras modalidades foram acrescentadas no ano passado. Veio o surfe na lama e três tipos de corrida: a de trator, a de obstáculos e a de marreca – nessa última, o objetivo é pegar uma ave solta no barro. Desde o início, só homens, entre 30 e 50 anos, e crianças podem participar das provas. É uma precaução para manter o compostura do Futlama. "Sabe como é homem depois que bebe. Como as mulheres iriam para a lama, às vezes com uma blusa suja ou transparente, poderia haver falta de respeito", explica Nilton. A quarta edição está marcada para abril de 2012.

30 metros com peixinho
Um dos competidores neste ano foi o estudante Roger Ferreira, de 13 anos. Ele participou da corrida com obstáculos. Em vez da pista convencional, claro, o que havia era um lamaçal. E, no lugar das barreiras, toras de madeira, apoiadas a poucos centímetros do chão. Para ultrapassá-las, nada de saltos certinhos como o dos atletas profissionais. Roger escorrega, dá peixinhos e acaba com lama até os dentes. "Fiquei em quarto, quem sabe no ano que vem eu não ganho?", sonha o menino.
Para completar os 30 metros de distância é preciso coragem. Em duplas, os atletas do barro correm e se jogam entre as toras e o solo, com muita rapidez. Entra lama na boca, nos olhos, entre o cabelo. No fim, apenas quem consegue o menor tempo vence a prova. Roger, que começou entre os últimos, pulou para os cinco melhores.
É que o garoto aprendeu a treinar. Sempre que chove, Roger aproveita e se esbalda com o lamaçal. Desde os 9 anos, o menino aperfeiçoa as quedas controladas enquanto joga bola em um campinho montado por ele e sete amigos em um pasto próximo à sua casa. “Ninguém consegue jogar futebol depois da chuva. Mas a gente vai lá pela bagunça. É cada tombo que a galera leva... damos muitas risadas”, diz. No início, os amigos rejeitavam a sujeira. "Só o meu primo falava, 'vamos, gente, é massa!' Ninguém queria sujar a roupa." Mas, depois que começaram, renderam-se à diversão.
As únicas pessoas que ainda não se divertem tanto com o esporte são as mães dos garotos. “A minha reclama muito. Sempre diz que eu vou ter de limpar a minha roupa, mas ela acaba lavando”, diz Roger. E ele também enfrenta a fiscalização do banho. “Se minha mãe vê que mesmo depois da ducha eu continuo com alguma sujeira, me toca de volta para o chuveiro”, conta.
Mas isso não é suficiente para que o menino pense em deixar sua diversão pós-chuva de lado. Em vez disso, quer se aperfeiçoar para competir em todas as modalidades do Futlama. “Ano que vem, quero jogar futebol, surfar com o trator e até correr atrás da marreca!”.
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Escrito às 11h42 do dia 06 de junho de 2011

















































