Geral
Amigo primeiro

Só sei que desde que tenho memória da minha existência, a Luiza estava do meu lado. Antes dela teve a amiga da rua, mas a Lú foi a primeira escolhida por mim – e eu, por ela – no meio do monte de crianças que iam à mesma sala do jardim de infância. A gente se conheceu antes ainda da pré-escola, tinha uns quatro aninhos e não imagino como surgiu nossa empatia. Até hoje não acabou.
Durante uns dez anos fomos inseparáveis, inventando nossas brincadeiras cheias de narrativas e reviravoltas. Vivíamos personagens, criávamos mundos paralelos que tinham aventuras, missões incríveis, muita meleca – além de um roteiro elaborado, embora com grande espaço para o improviso. A gente se imaginava salvando pessoas, vivendo como peixes, inventava como o mundo funcionava e brincava com o Panque, um basset calmão de longos pelos cor de mel, que era dela. Queríamos ser irmãs e tínhamos certeza de que nascer em famílias separadas tinha sido só um erro de cálculo do universo – que consertávamos usando roupas iguais e dizendo aos desconhecidos que éramos mesmo.
Crescemos juntas, descobrimos o mundo, nós mesmas, as outras pessoas, os meninos. Dividimos medos, a angústia de crescer, a delícia de ser irresponsável e a segurança de achar que entender o mundo é fácil. Vimos que não dava, mas nos jogamos nele. Deixamos de ser aquelas amigas com um mundo particular, uma vida comunitária, fomos montando as nossas trajetórias e elas se distanciaram. Daquela amizade ficou boa parte do que sou hoje e o sentimento que nos faz próximas mais de 20 anos depois, mesmo com vidas tão diferentes e desencontradas. A Lú me ensinou que amigo é uma delícia e fica.
Escrito às 20h10 do dia 18 de julho de 2009

















































