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Minha vida com Boris

Aos 4 anos de idade, Thays Martinez perdeu a visão. Teve uma rara complicação com o vírus causador da caxumba e precisou se adaptar ao mundo. Cresceu sonhando com um companheiro que pudesse levá-la aos mais diversos lugares. Mas esse pedido foi negado diversas vezes. Até que no ano de 2000, aos 26 anos de idade, finalmente a sorte bateu na sua porta. Thays poderia ter seu tão sonhado parceiro: um cão-guia.
Essa é a história que conta o livro "Minha vida com Boris" (Editora Globo), publicado em agosto. Thays, que mora em São Paulo, descreve com beleza a amizade com seu primeiro cão-guia e a luta que teve que enfrentar, durante seis anos, para permitir que cães-guia pudessem ser aceitos em qualquer lugar.

Thays Martinez ao lado do seu primeiro cão-guia, Boris
Confira a seguir a entrevista realizada para a Revista Sorria. E descubra um pouco mais sobre essa linda história de vida:
Cães-guia não eram muito conhecidos no Brasil, na época em que você trouxe o Boris. Por conta disso, você sabia que ia enfrentar dificuldades por aqui?
Thays - Em 2000 eu e mais duas amigas começamos uma busca por escolas de cão-guia de todo o mundo que aceitassem estrangeiros. Recebi uma resposta da Leader Dogs, nos Estados Unidos. Eles haviam acabado de fechar uma parceria com o instrutor brasileiro Moisés Vieira e, depois de diversos testes, fui uma das 4 brasileiras selecionadas. Naquela época não havia escolas de cães-guia no Brasil. Antes de buscar o Boris na Leader Dogs, eu sabia o que enfrentaria por aqui. As pessoas não iriam se acostumar com um cão entrando no metrô, por exemplo, de um dia para o outro. Mas não achei que seria um grande problema.
Quando entrou no metrô pela primeira vez, você foi barrada. Depois de contar que seu cão não era um simples labrador, e sim um cão-guia, deixaram-na passar. Mas só até a plataforma, quando foi barrada novamente. Essa cena se repetiu várias vezes. Qual foi a sensação?
Thays - Passei por vários estágios: a primeira vez que eu fui barrada ao entrar com o Boris no metrô, achei normal. Afinal, era uma novidade cães-guia por aqui. Depois do quarto funcionário e do departamento jurídico me pararem, percebi que havia algo errado. A constituição federal garante por lei o direito de ir e vir de cada cidadão. Fiquei indignada! A forma como foi conduzido todo o processo se deu de uma maneira muito desrespeitosa, mas no final valeu a pena a luta!
Depois toda essa repercussão e muita luta, foi criada e aprovada uma lei para que cães-guia pudessem ter acesso a todo e qualquer lugar público e privado de uso coletivo. Você, ainda hoje, é barrada em algum lugar?
Thays - Hoje é bem raro, mas acontece de ser barrada ainda em alguns restaurantes, mas sempre acaba se resolvendo rápido. A lei facilitou muito essa parte e acredito que, em breve, não haverá mais resistências. A imprensa também teve papel fundamental para que obtivéssemos esse sucesso.
Na sua opinião, todos os deficientes visuais deveriam ter um cão-guia?
Thays - Todos deveriam ter a possibilidade de ter um cão-guia. Só porque foi bom pra mim, não quer dizer que sirva para outras pessoas.
Se eu quiser ter um cão-guia, como faço?
Thays - O interessado pode se inscreve pelo site do Instituto de Responsabilidade Social (IRIS). Depois de rigorosamente analisada a ficha, ele recebe um primeiro contato para serem realizadas entrevistas. Elas servem para saber se a pessoa está apta para ter um cão e se o cão tem o perfil de que o usuário necessita. Assim formamos os times (usuário e cão-guia).
Nos primeiros anos de vida, um cão-guia precisa ser socializado, antes de se tornar um guia para deficientes visuais. Quem faz isso é uma primeira família ou pessoa. Quais os requisitos para ocupar esse cargo?
Thays - A primeira família, ou pessoa, fica responsável por levar o filhote a todos os lugares possíveis, para que ele possa se adaptar ao movimento da cidade. A pessoa tem que, principalmente, ter disponibilidade de tempo e estar preparada para enfrentar certas barreiras. Entrar em lugares fechados - como restaurantes, shoppings, etc. - com um filhote ainda é um desafio, as pessoas ainda não entendem. Nesse caso, a lei não basta.
Porque você decidiu escrever o livro?
Thays - Sempre tive vontade de escrever um livro por dois motivos. Primeiro porque eu queria que fosse um meio de conversar com a sociedade. Segundo, porque foi a forma que encontrei para homenagear meu amigo.
O que o Boris te ensinou?
Thays - Além de toda a história de superação, de mudar aquilo que se critica, o Boris me mostrou o verdadeiro sentido da palavra amizade, de ser parceiro, de trabalhar em equipe. De levar a vida com mais leveza. Me ensinou a ir além.
Você espera que seu livro possa inspirar outras pessoas?
Thays - Gosto de acreditar que ele possa mostrar não só essa questão da deficiência, mas também a cidadania. Quando algo desse tipo dá certo, renovam-se as esperanças de que a gente pode fazer algo para transformar. Isso é cidadania, esse papel ativo de cada um adotar uma questão para si e lutar por ela. Espero que meu livro possa ser inspiração para muitas pessoas, para que elas não desistam daquilo que acreditam ser justo. Independente da história deles ser parecida ou não com a minha, se ela usar meu exemplo para ganhar forças e seguir lutando com a sua causa, já fico muito feliz.
Thays Martinez nasceu em janeiro de 1974. Formada em direito pela Universidade de São Paulo, com especialização em direito penal e interesses transindividuais, foi conselheira do Conselho Nacional de Assistência Social e mebro da comissÃo de Direito das Pessoas com Deficiência da OAB. Fundadora do Iris (Instituto de Responsabilidade Social), é palestrante na área de direito e autora do blog www.eueeles.com.br
Boris nasceu em Rochester, em Michigan, Estados Unidos. Labrador amarelo, passou boa parte de sua infância em uma escola infantil para humanos. O que viria justificar sua paixão por crianças, bem como certas excentricidades, como gostar de dormir coberto e com travesseiro. Estudou em escolas de primeira linha, como a tradicional Leader Dogs for the Blind (Cães-guia para o cego, em tradução livre), o que acabou lhe propiciando o convite para trabalhar no Brasil. Tinha por hobby tirar tampas de garrafas e gostava de correr e beber água de coco. Sua única superstição era, a cada refeição, deixar um único grão de ração em sua vasilha.
As biografias acima foram retiradas do livro "Minha Vida com Boris" (Editora Globo, 2011).
Escrito às 15h29 do dia 04 de novembro de 2011


















































