Geral
Projeto: felicidade


Como muitos de nós, Gretchen Rubin não se sentia exatamente infeliz com a vida. Dona de uma carreira decente como advogada e escritora, de bem com o casamento, mãe de uma garotinha fofa, ela levava uma vida legal em Nova York, sem grandes problemas nem dramas.
Mas, como muitos de nós, ela também guardava um tanto daquele sentimento de ausência ansiosa. De que está faltando alguma coisa, de que estamos perdendo alguma parte – embora a gente não saiba exatamente qual.
Então um dia, no ônibus, ela se perguntou: “O que eu quero da vida, afinal?”. E a resposta em que pensou foi bem simples: “Eu quero ser feliz”. Ou, pelo menos, mais feliz.
Daí, no segundo seguinte, Gretchen deu conta: mesmo considerando a felicidade seu maior objetivo, ela nunca havia gastado muito tempo pensando em como chegar lá.
E achou que, do mesmo modo como perseguimos objetivos práticos, como emagrecer, construir uma carreira ou fazer uma viagem, a felicidade também merecia ser levada a sério. Como um plano. Como um projeto: o Projeto Felicidade.
Durante um ano inteiro, Gretchen reuniu todos os livros que pôde descobrir sobre felicidade. E também as pesquisas científicas mais recentes, os conselhos da sabedoria popular, as resoluções religiosas, os mantras de gurus de autoajuda, os pensamentos dos grandes filósofos, as questões levantadas pela história, pela arte, pela psicanálise, letras de música e dizeres pichados em portas de banheiro. Tudo que se disse sobre felicidade (e sobre como conquistá-la) ela leu, ouviu, refletiu sobre – e colocou em prática.
Dia após dia, Gretchen testou tudo o que se dizia que a ajudaria a alcançar a realização. Cumprimentar estranhos, comer chocolate, fazer exercícios, arrumar gavetas, cantar – qualquer coisa que lhe prometesse um pouco mais de alegria, ela experimentou. E compartilhou em um blog suas descobertas: o que funcionava, o que era inútil, o que saiu pela culatra. Na busca pela felicidade, acabou fazendo uma enorme jornada de autoconhecimento, compartilhada com milhares de pessoas na internet.
Em janeiro, o blog virou livro (Projeto Felicidade – Ou: porque passei um ano tentanto cantar pelas manhãs, arrumar os armários, brigar direito, ler Aristóteles e ter mais diversão em geral, numa tradução livre), que agora está entre os mais vendidos nos Estados Unidos. Gretchen se tornou uma celebridade na TV, e criou mais uma porção de projetos ao redor do tema ser feliz. Continua dividindo suas descobertas no blog, que ganhou ferramentas para ajudar os leitores a construir seus próprios projetos de felicidade.
Há muitas coisas bacanas sobre a Gretchen, como o fato dela ter transformado uma ideia despretensiosa em um projeto de vida. Mas o que mais gosto é que ela é uma pessoa real. Que não queria mudar radicalmente de vida, largar tudo e se reinventar (como faz a Elizabeth Gilbert, autora de Comer, Rezar, Amar, outro bestseller recente sobre a busca pela realização, que segue um caminho bem mais radical – e ok, mudar tudo às vezes é necessário, mas convenhamos: quase nunca é realista largar a vida e ir morar na Índia).
Bem mais prosaica, a Gretchen só queria tornar mais gostoso seu dia a dia – que, como o meu e o seu, inevitavelmente tem problemas, tédio e limitações das mais variadas. Nas suas experiências e descobertas, ela assume as falhas e frustrações com bom humor, e não promete fórmulas infalíveis nem respostas definitivas, entendendo o processo de encontrar felicidade como algo absolutamente pessoal e intransferível.
No fim, o que ela define como útil de fato nessa busca é bem simples – coisas que provavelmente já ouvimos ou pensamos, mas que são fáceis de esquecer na correria. Ela fala sobre fazer um pouquinho por nós todos os dias (“O que fazemos diariamente conta mais do que o que fazemos uma vez em nunca”, escreve) e muito sobre compartilhar, porque a felicidade depende do grupo em que estamos (“Uma das melhores maneiras de me fazer feliz é fazer as outras pessoas felizes. Uma das melhores maneiras de fazer as pessoas felizes é eu mesma estar feliz”, diz).
Gretchen recomenda que se faça listas (de sonhos, prazeres, planos) e que se mantenha um diário simples (de uma frase só, de preferência). Que se tome resoluções, como as de Ano Novo, para se realizar sozinho e também em grupo. Que se eleja os valores que regem a vida, como se você fosse seu próprio guia espiritual. E que se acumule todos os aprendizados, que ela chama de “Segredos da Vida Adulta”, como se você estivesse criando seus próprios ditados para repassar ou relembrar em horas difíceis lá na frente.
E assim, contando suas ideias, ela vai fazendo a gente pensar na nossa própria versão de felicidade. Que bem pode não ter nada a ver com a dela. Mas não deixa de ser inspirador assistir a uma busca possível – e com final feliz.
Escrito às 12h13 do dia 27 de abril de 2010

















































