Geral
Romance antigo


Moro a mais de mil quilômetros da minha cidade natal, onde meus pais ainda vivem. Vou lá no máximo duas vezes por ano. Numa dessas viagens, tive a ideia de pegar uma muda da costela-de-adão que minha mãe tem desde que eu me conheço por gente. Transportei-a com cuidado numa garrafa plástica e, chegando em casa, tratei de lhe arranjar um pouso digno. Comprei um vaso grande, a transpus com cautela e cravei ao lado de seu pequeno caule um longo pedaço de madeira para guiar seu crescimento. Posicionei o vaso num canto da sala, ao lado da janela, onde a luz chega forte, mas oportunamente de forma indireta. Tudo igualzinho ao lugar durante décadas a “mãe” dela floresceu, na sala da casa onde eu cresci. Tenho acompanhado com muita alegria o nascimento das suas folhas, que surgem clarinhas, finas e enroladas, e logo se abrem como a palma da mão de um gigante, com o belo desenho das típicas reentrâncias que inspiraram seu nome. Antes de cada folha brotar, nasce uma raiz, pendendo do caule em direção à terra. E eu sempre lembro do dia em que estava estudando os tipos de plantas para uma prova de ciências e minha mãe disse: “isso aqui é um exemplo de raiz aérea”. Tudo fez sentido. Mas a melhor lembrança eu já tinha esquecido. Um dia desses, contando à minha mãe, ao telefone, sobre como a planta estava bonita, ela me falou que, quando bebê, tinha uma receita infalível para me fazer parar de chorar: colocava meu carrinho do lado da costela-de-adão e, ao enxergar seu verde exuberante, eu automaticamente começava a sorrir.
Escrito às 14h16 do dia 30 de julho de 2009

















































