Geral
Sonhos de uma noite de inverno

Desde que assisti a uma reportagem sobre o sul brasileiro, isso quando ainda muito menino, tive vontade de conhecer seus estados e provar o tal chimarrão. O tempo foi passando e eu acabei desistindo da ideia até que em abril deste ano conheci um pessoal de lá que serviu como desculpa para eu enfrentar as 12 horas de viagem. Durante o trajeto me ocorreu de sonhar que a divisão dos nossos estados ia além do norte, sul, sudeste e centro-oeste ensinados nas aulas de geografia. A nova proposta era feita por estações do ano e eu estava no meu caminho para o inverno.
Chegando na rodoviária de Florianópolis, avistei uma menina que, literalmente, portava mala e cuia. Ela caminhava impaciente entre os corredores e provavelmente estava esperando seu ônibus chegar. Nesse instante pensei em pedir um gole do mate para a guria, afinal eu já sabia da aura de coletividade que está ligada à sua apreciação, mas não tive cara de ir até ela, culpa da timidez que me é particular. No final das contas, amadureci tanto a ideia que acabei por deixar a chance escapar. Ela tinha embarcado e provavelmente já estava se aconchegando na poltrona para sonhar com o outono, o verão ou a primavera.
Não era a missão da viagem, mas a cena da rodoviária e o conforto que a menina passava a cada vez que sugava a bomba em busca do mate fez com que eu mudasse o projeto inicial e fosse direto para o mercado público municipal a fim de adquirir uma boa cuia. Fui recebido muito bem e um gaúcho, dono de uma das vendas, foi logo me explicando o passo a passo da preparação do chimarrão. ‘Você joga a erva até aqui, inclina um pouco, coloca a água quente deste lado, encaixa a bomba segurando o bocal com o dedo para o ar não entrar e tá pronto’, dizia o vendedor, me passando o mate depois de ter cuspido seu gole no chão. ‘A primeira não presta’, explicou. Confesso que na hora eu não achei grande coisa, talvez pela alta expectativa criada, mas mesmo assim levei para casa a cuia e dois pacotes da tal illex paraguaienses.
‘Ótima escolha’, penso comigo hoje, nesses dias frios que São Paulo vem fazendo. Enquanto tomo meu chimarrão e me preparo para novamente sonhar com o inverno, olho pela janela e relembro da viagem a Santa Catarina com a clara imagem de que nem no meu sonho o tal inverno seria tão peculiar sem o amargo do mate e o doce sabor da lembrança.
Escrito às 13h40 do dia 05 de junho de 2009

















































