Geral
Testemunha de mudanças

Um dia cheguei em casa e tinha um vasinho na porta do meu apartamento. A vizinha havia tomado a iniciativa de deixar para mim uma pequena mudinha de sua samambaia amazônica, que eu elogiara na semana anterior. Foi como encontrar um filhote indefeso: percebi a responsabilidade de topar com o imprevisto no caminho e me propus a fazer desabrochar aquela nova vida. Levei a pequena para dentro e cuidei – com sopa de água em que se lavou batata, farofa de casca de ovo, camadas de terra boa, sombra, sol e água fresca. E ela foi se abrindo: para festas, convidados, conversas animadas, filmes de Woody Allen, músicas de Baden Powell, discussões, dias de choro, os de gargalhadas mil. E nós duas fomos aprimorando nosso diálogo imaginário em voz alta e observando a mudança uma da outra. Quando fui embora, deixei a robusta samambaia para trás. Como um pedaço de mim, para me fazer ser lembrada. Dois dias depois, voltei para pegá-la. Aí sim minha partida se tornou definitiva. Agora ela vai continuar a jornada comigo, em outra intensidade de sol, em um novo endereço e com outros personagens por perto.
Escrito às 10h03 do dia 01 de agosto de 2009

















































