amar
A criança em você

O que você ainda SE lembra de seus tempos de criança? Não é um mistério que, de todos os momentos reveladores, ou alegres, ou difíceis que passamos antes dos 10 anos, a imensa maioria desapareça, varridos da memória? É curioso, mas há outros, por vezes banais, de que guardamos cada detalhe, dos cheiros tentadores às mãos suadas de ansiedade. Quando eu era pequena, eu falava com ETs. Tinha uma língua própria e gesticulava os dedinhos como se tocasse um piano imaginário. Adorava roubar as balas Soft do pote de vidro do meu avô, proibidíssimas por minha mãe – engasguei de monte com elas. As memórias são minhas e, ao mesmo tempo, tão genéricas quanto pereba ou caca de nariz. E elas marcam. Algumas podem dizer muito do que somos hoje. Outras nos lembram do que éramos na essência. Desperte suas memórias de infância, com histórias de quem já foi bem parecido com você.
O doce de abóbora
Sofia Karim, 84 anos, São Paulo, SP
Sofia tinha menos de 10 anos e já ajudava a mãe a costurar gravatas para vendê-las. Nunca teve regalias. Mas acordava todo dia pensando em comprar o doce de abóbora da vendinha do seu Miguel. De tanto observar o turco, bolou um plano genial. Pegaria as garrafas compradas por ele – deixadas nos fundos do bar – e as venderia a ele mesmo. Com o dinheiro, o sonhado doce seria seu. Deu certo, e ela não parou na primeira – o troco miúdo precisava ser multiplicado para chegar ao valor do doce. Até que, desconfiado das garrafas que não paravam de chegar, o velho foi atrás da menina e a pegou com a boca na botija. “Vou contar a seus pais, você vai ver”, gritou. Sofia correu como nunca, pulando muros e quintais. E foi obrigada pelos pais a devolver o dinheiro, claro. Não conseguiu mais comprar o doce. Talvez por isso hoje ela seja especialista em salgados. Das festinhas dos bisnetos à turma da terceira idade, todos sonham com suas esfihas macias.
Ei, quantos anos você tem?
Shlomo Dayan, 61 ou 62 anos, cidade de Alepo, Síria
Era um costume em Alepo, a segunda maior cidade da Síria, anotar o nome e a data de nascimento de todos os homens da família atrás da porta de um dos armários da casa. Shlomo não foi exceção. Mas, expulsa do país, a família Dayan teve de carregar seus pertences até o Líbano. E depois mais um pouco, até Israel – claro, o armário foi sempre junto. Até que, novo êxodo, se refugiaram no Brasil, em 1970. Dessa vez sem o armário nem a data de nascimento de Shlomo, que comemora seu aniversário todo dia 5 de setembro, mas não tem certeza se nasceu em 1946 ou 1947. Seus documentos dizem que ele tem 62 anos, mas ele aposta nos 61. Esse tem desculpa pra não contar a idade.
Dou-lhe um coice...
Carolina Costa, 30 anos, São Paulo, SP
Carolina foi parar na diretoria porque deu um coice no colega da escola. Levou advertência. Ela achou um exagero – só porque ela queria ser um cavalo... Para chegar ao objetivo, fez sociedade com uma amiguinha, não por acaso, filha de um fazendeiro e que sabia o nome de todas as raças de cor. Na invenção da “nova criatura”, Carol entrava encarnando o cavalo e a amiga, fornecendo os “dados fidedignos”. A menina passou todos os intervalos da terceira série relinchando no pátio da escola. Um dia, um garoto mais velho quis prendê-la no poste da quadra. “Cavalo não pode andar solto por aí”, ele disse. Coice nele. E diretoria. Acabou-se aí sua vida de eqüino. Mas não sua paixão. Carol, que sempre teve pôneis de plástico em vez de bonecas, hoje faz aulas de equitação todas as segundas de manhã, antes do trabalho. Mas tem evitado os coices.
Milagre de Natal
Marcelo Cordeiro, 24 anos, Rio de Janeiro, RJ
Quando Marcelo tinha 6 anos, tudo o que ele queria na vida era uma régua-pulseira colorida, daquelas que você batia no pulso e ela se enrolava toda. Eram milhares de modelos, cores, desenhos. Toda criança tinha. Menos Marcelo. Mas era Natal e ele tinha esperança de ter a sua. Com 3 reais no bolso – dinheiro seu, como a mãe havia exigido –, saiu determinado. Parou em uma rua de camelôs em Copacabana e fez a sabatina, passando de barraca em barraca pesquisando o preço. Para seu desespero, elas custavam pelo menos 5 reais. E não adiantava pechinchar. Andou, andou e, pouco antes de desistir, encontrou-a, por 3 reais, numa das últimas barraquinhas da feira. Olhou abismado para o vendedor, que dizia: “Só 3 reais mesmo”. Era um velhinho de barbas brancas e bochecha rosada. E Marcelo, que já tinha idade para saber que Papai Noel não existe, até hoje fala disso com um sorriso doce, crente que aquele foi seu milagre de Natal. (Depois de dar esta entrevista, a mãe de Marcelo corrigiu a história: disse que era uma arminha de brinquedo, e não pulseira, que ele queria. E que, agradecida pela boa ação, ela voltou à feira para comprar outras. Achou todos os camelôs... menos o “Noel”.)
Eu só quero chocolate
Paula Ripari, 29 anos, Bebedouro, SP
Na casa de Paula, de 8 anos, só tinha Prestígio. Esse mesmo, com p maiúsculo, o chocolate. A toda compra do mês ela ia ansiosa às sacolas e... lá estava ele. Custava comprar um tipo diferente? Certa vez, comeu um caldo Knorr, em seu delírio por saborear outro chocolate. O Charge acabara de ser anunciado na TV e tinha uma propaganda de babar litros – queria esse! Até que, em um fim de semana glorioso, ela ficou encarregada de correr até a venda e comprar quitutes para as visitas da mãe. Foi lá e deu de cara com o Charge. Comprou um e comeu tudo lá mesmo. Hipnotizada, Paula voltou para casa e, aproveitando-se da distração da família, pegou mais dinheiro e voltou à venda, mais oito vezes, até escurecer. Já estava orgulhosa pela traquinagem não descoberta quando começou a sofrer com uma dor de barriga daquelas. Paula teve uma reação alérgica e foi parar no hospital. Depois dessa, nunca mais comeu Charge. Mas devora um chocolate todos os dias, ajuizadamente, para alimentar seu vício. E hoje, quando é Páscoa, compra ovo Prestígio.
Tudo sob controle
Alexandre Inagaki, 35 anos, São Paulo, SP
Quando criança, Alexandre achava que as estrelas eram os olhos de Deus, que piscavam de vez em quando para avisar que Ele estava de olho nas traquinagens aqui. Sabe como é, todo mundo dizia que “Deus está olhando por nós”, e que ele era “o cara lá de cima”... Foi uma conclusão natural do menino. Por isso, travessuras ele só fazia de dia. O autocontrole o ajudou em outros campos também. Por exemplo, nunca imitava um gago por mais de cinco minutos. “Minha mãe dizia que se eu demorasse mais que isso, ficaria assim para sempre.” Para não correr o risco, brincava olhando no cronômetro e soltava a última pa-pa-pa-palavra depois de quatro minutos e cinqüenta e nove se-se-se-segundos.
Grãozinhos incompreendidos
Isabella Calia, 34 anos, São Paulo, SP
O pai de Isabella apreciava muito especiarias e temperos. Era ele quem fazia os lanchinhos que a filha levava para a escola. Enquanto todas as crianças da segunda série comiam cachorro-quente com guaraná Caçulinha da cantina, Isabella tinha sanduíches deliciosos de almôndegas ao sugo e outros requintes. Um dia, voltando do recreio, a garota encontrou seu lanche de pão francês com azeite e tomilho aberto, em exposição, sobre a mesa da professora. E na lousa estava escrito: “Isabella come pão com areia”.
A fantástica fábrica da vovó
Bianca Weingrill, 19 anos, Mairiporã, SP
Uma corda com um sino em cada ponta ligava as duas vizinhas, Bianca e sua avó Jadete. Quando ele tocava, era porque algo de bom vinha lá do outro lado, acreditava a menina de 7 anos. E ele tocou em uma tarde quente de novembro. A avó tinha alugado A Fantástica Fábrica de Chocolate e chamou a menina para assistir. Fascinada por tudo o que fosse doce, pulou do sofá na hora, atravessou o portão e passou para a casa da avó, já com fome. Logo perguntou o que havia para comer. Como não ouviu resposta nenhuma, sentou-se e contentou-se com o filme. Mas logo, em meio às imagens de rios de chocolate, doces fofinhos e pirulitos supercoloridos, Bianca começou a sentir o cheiro que saía da TV. Um cheiro forte de chocolate. Fascinada, ficou em silêncio, encantada com a degustação virtual. Mas, quando a tentação e o cheiro se tornaram insuportáveis, ela teve de dividir a emoção com a avó aos berros: “Tá saindo cheiro da TV, e é de chocolate!”. Era o momento em que a avó chegava à sala com o bolo recém-saído do forno.
Felizes por um tempo
Roberta Castro, 32 anos, Niterói, RJ
Durante toda a infância, Roberta ouviu histórias na hora de dormir. Mas seus contos de fada não terminavam com “...e foram felizes para sempre”. Fosse a Cinderela, a Branca de Neve ou qualquer outra princesa, a mãe encerrava o conto assim: “Então, a princesa e o príncipe ficaram juntos por um tempo. Daí a princesa terminou o namoro e foi estudar, fez faculdade e uma grande carreira. Virou uma executiva, ficou muito rica, viajou pelo mundo inteiro, conheceu muitos amigos e foi feliz quase sempre”. De fato, a menina nunca teve grandes esperanças românticas. Suas Barbies, em vez de namorar, faziam negócios. Aos 8 anos, Roberta já era a mais bem-sucedida entre as amigas, vendendo figurinhas e sabonetes que ela mesma fazia. Irônico ou não, sua mãe está casada há 30 anos. E, na época daquelas princesas carreiristas, ela era uma dona-de-casa de 20 e poucos anos que havia abandonado temporariamente o trabalho pra cuidar de três filhos. “Mas acho que ela tinha razão. Melhor se fazer rainha do que esperar o príncipe”, diz Roberta, mãe de Gabriela, 10 anos, e dona do seu nariz.
Vovô do céu
Claudia Inoue, 28 anos, Guarulhos, SP
Sempre que perdia alguma coisa, em vez de fazer promessa para São Longuinho, Claudia corria até o altar que ficava em casa – uma tradição budista – e pedia a seu avô que a ajudasse a encontrar a tal coisa desaparecida. Com a mesma regularidade, todo bolo ou comida de festa feitos na casa tinha seu primeiro pedaço colocado no altarzinho. Claudia nunca entendeu direito como o velhinho conseguia comer tudo lá do céu, ou como ele encontrava todos os objetos que sumiam da casa. Mesmo assim, nunca teve coragem de roubar os docinhos deliciosos que ficavam lá, até depois que todos os outros haviam sido comidos. E não tinha dúvidas de que era o avô quem sussurrava em seu ouvido onde estava seu cobertor. Para ela, é ele, no lugar de São Pedro, quem vai recebê-la na porta do céu.
Elétrico esse lobo
Fábio Macedo, 25 anos, Niterói, RJ
Fábio tinha 3 anos quando sua mãe lhe disse: “Não meta o dedo na tomada, porque o lobo mora lá dentro”. Assustado, ele nem pensava em passar perto das paredes, com medo de que o bicho o pegasse pelo pé. Até que, cansado de se sentir acuado, Fábio decidiu enfrentá-lo. Cheio de bravura, esgueirou-se até a cozinha, roubou uma faca e a enfiou na tomada para matar de vez aquele bicho. O choque, claro, foi tremendo e fez o garoto cair do outro lado da sala. Depois dessa, ele nunca mais se meteu a enfrentar lobos, esses cachorros estranhos que soltam faíscas.

Retalhos da infância
Cecília Zylbersztajn, 64 anos, Sorocaba, SP
Cecília conheceu a revista Tico-Tico aos 6 anos, pelas mãos de seu pai. Ele havia comprado o exemplar para que a menina participasse de um concurso de pintura: a melhor ganhava um jogo de tabuleiro. A tarefa era simples: colorir uma paisagem com uma casa, árvores e uma estradinha. Mas seu pai sugeriu que, em vez de pintar, ela fizesse uma bela colagem na cena, com papéis coloridos. Ela topou. E o pai apareceu com muitos e muitos chocolates com embalagens e formatos diferentes. Cecília as transformou em arte. Abriu os bombons, alisou os papéis, recortou, colou. Era a coisa mais linda que já tinha feito. Dias depois, o carteiro chegou com o jogo de tabuleiro. Cecília transbordou de alegria! E até hoje brinca com papéis, tintas e tecidos. Pequenos detalhes que deixam essa artista plástica um pouco mais criança a cada dia.


















































