Droga Raia

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À flor da pele

Texto: Roberta Faria // Fotos: Carina Barros e Mica Toméo
À flor da pele
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A água morna caindo sobre os ombros. Pedras lisas e redondas pressionando a sola dos pés. O macio dos pelos de um filhote. A brisa fresca que gela a nuca e arrepia as costas. O calor úmido de um beijo. O viscoso da lama metendo-se entre os dedos dos pés descalços. O áspero curioso da casca de um kiwi. O peso mínimo de uma formiga subindo pela canela. Somos máquinas de sentir, e a ferramenta mais poderosa para entender os estímulos do mundo chama-se tato. Como se fosse um idioma, esse sentido – o mais poderoso e complexo dos cinco – interpreta as mensagens que chegam ao corpo. Captadas por incontáveis sensores sob a pele, elas viram impulsos elétricos, que percorrem a gente a vertiginosos 320 km/h, até chegar ao cérebro e transformar-se em informação: “Hum, isso é bom!”, ou “Ui, sai daí!”. Pelo tato, sabemos o quente e o frio, desvendamos texturas e pressões, sentimos prazer, dor, repulsa. É nossa primeira forma de conhecer o mundo, quando ainda somos bebês e agarramos tudo para pôr na boca. (Se os órgãos tivessem tamanho proporcional à sensibilidade, nossas mãos e língua seriam do tamanho das nossas pernas.) Serve de alarme quando algo está errado e de conexão quando vai bem: carinho também é tato, e faz tão bem para a saúde quanto respirar. Justamente por captar tudo, e tanto, às vezes o cérebro “desliga” essa função. Ou você está sentindo, neste instante, as roupas que te comportam? (Agora que falei, você sentiu.) Esses apagões são necessários para não sobrecarregar a gente de informação. O problema é quando não é uma estratégia do cérebro, e, sim, um esquecimento da vida. E deixamos de aproveitar os superpoderes que o tato nos dá para explorar o mundo por meio das sensações mais deliciosas. Como enfiar os dedos dentro de uma saca de feijão. Pisar em um tapete fofo. Correr a palma das mãos de leve por um muro de pedriscos. Deitar-se em uma cama macia. Encostar-se numa árvore de casca grossa. Beijar um bebê. Receber uma massagem. Ter uma joaninha passeando pelo braço. Brincar com a cera morna da vela que se apaga. Cócegas, arrepios, cafunés, abraços. Pelo tato, a vida desabrocha, à flor da pele.

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