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A força do grupo

Sandra achou que pudesse resolver tudo sozinha. Havia quase uma década que ela convivia com o alcoolismo do marido. “Conheci o Marçal aos 16 anos. Namorei, noivei, casei e tivemos uma filha, sempre na esperança de que ele parasse de beber”, conta a advogada de 37 anos, de São Paulo. Mas a situação só piorava. Até que um dia a assistente social do trabalho de Marçal chamou o casal para uma conversa. Aconselhou o funcionário a fazer um tratamento. Mas também falou algo que Sandra jamais esperaria ouvir: ela também precisava de ajuda. Foi diagnosticada codependente: alguém que desenvolveu uma necessidade excessiva em relação a outra pessoa. “Possessiva, eu só pensava em controlá-lo. Jogava bebida fora, brigava, mas nada adiantava”, confessa.
Marçal foi pressionado pela empresa a frequentar o Alcoólicos Anônimos (AA). Sandra foi encaminhada ao Al-Anon, grupo de ajuda de mesmo formato, voltado a parentes e amigos de alcoólatras. “Na primeira reunião, desconfiada, não abri a boca”, conta Sandra. “Tudo o que era falado me dizia respeito. Parecia uma armação. Mas, no fim, estava me sentindo melhor. Na semana seguinte, decidi ir de novo”, completa.
Na sala ao lado, onde ocorriam os encontros do AA, Marçal tentava convencer a todos de que não era dependente. Foi assim nos três primeiros anos. Então Sandra sentiu-se forte o suficiente para dar o ultimato: ou o marido encararia o problema, ou ela pediria o divórcio. Pela primeira vez, Marçal recuou. Internou-se numa clínica de reabilitação e, quando saiu, voltou ao AA, agora levando o tratamento a sério. Há nove anos, ele controla o alcoolismo. Ambos seguem frequentando os grupos de ajuda, de onde tiram forças para vencer suas limitações diariamente.
“Ao ouvirmos o depoimento de quem passa por situações semelhantes e entende sua dor, sem dar lições de moral, nós nos fortalecemos. Essa é a força do grupo. Reconhecemos nossas imperfeições e mudamos”, conta Sandra.
O mundo não parou
O sucesso do AA, criado nos Estados Unidos, nos anos 1930, impulsionou o surgimento de diversos outros grupos de ajuda, voltados para os mais variados problemas. Eles trazem para o tratamento do corpo e da mente uma característica fundamental do ser humano: a necessidade de convívio social. “Só nos constituímos como sujeito, criamos vínculos afetivos e aprendemos a lidar com as diferenças à medida que repartimos nossos desejos com o outro, bem como nos tornamos objeto de desejo e de identificação”, afirma a psicanalista Auxiliadora Bichara.
Foi esse tipo de relação que Andréia Possato, de 37 anos, procurou na Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale). Em 2004, a publicitária, de São Paulo, descobriu ser portadora de linfoma de Hodgkin, câncer que ataca o sistema linfático. Em três anos de tratamento disciplinado, controlou a doença. Mas então, num exame de rotina, teve um ataque de pânico, resultante de estresse pós-traumático. Ela não entendia o que estava acontecendo. “Os médicos se limitavam a me informar o básico, tanto sobre o linfoma quanto sobre o estresse. Eu queria saber mais, por que estava passando por tudo aquilo, o que tinha feito de errado”, conta.
No grupo de ajuda da Abrale, ouvindo os depoimentos e contando sua história, ela entendeu que, durante os três anos de tratamento, havia vivido apenas para a doença. Mas o mundo não tinha parado por causa de seus problemas. “Minhas amigas estavam todas casadas, com filhos, as contas não paravam de chegar em casa... Estava na hora de voltar a tocar minha vida, mas eu não sabia como. O grupo me ajudou a sair do casulo e caminhar novamente”, diz.
Integridade literal
“Em situações traumáticas intensas, que a terapia individual não alcança, o grupo serve de espaço de reconstituição da psique. Permite que as pessoas se sintam amparadas, produzindo efeitos terapêuticos”, afirma Auxiliadora. Essa lição, que mudou a vida de Sandra, Marçal e Andréia, também trouxe o conforto de que a astróloga Teresa de Oliveira, de 44 anos, de Florianópolis, tanto precisava.
Órfã aos 15 anos, ela foi criada pelos irmãos mais velhos. Atravessou a juventude procurando respostas em livros de psicologia, religião, sociologia, filosofia e astrologia. Aos 24 anos, descobriu que, desde os 16, sofria de depressão.
Foi quando ela conheceu os grupos de pathwork, metodologia de autoconhecimento que envolve meditação, exercícios corporais e dinâmicas de grupo surgida nos Estados Unidos em meados do século passado. “Ao ver os outros mostrar as faces mais dolorosas de sua personalidade e, com isso, ganhar força, senti coragem para me expor”, conta. O processo trouxe alívio, mas também exigiu muito esforço para revelar suas questões mais íntimas. “Cheguei a pensar em desistir, mas então um colega disse: ‘Respeito sua decisão, mas acho que aqui você pode conseguir apoio para essa dor, em vez de sofrê-la sozinha’.” Teresa reconsiderou. E hoje sabe quanto essa decisão lhe fez bem: “A possibilidade que o grupo nos dá de nos experimentarmos por inteiro me fortaleceu para construir aquilo que chamo de integridade no sentido mais literal da palavra, de inteireza e honestidade em ser quem sou”.
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