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A galope

Foi presente de Natal. Uma égua, a Lady, já muito velha, que minha mãe, desentendida, achou um ótimo negócio para entreter três crianças. Meus irmãos e eu passamos o verão polindo o pêlo marrom, trançando a crina, atiçando o apetite dela por doces. Foi com Lady que aprendi a montar. Lembro-me de ficar olhando para ela, tão maior que eu, sem entender como subiria até a sela. Vou de escada? Observando as crianças mais experimentadas da vizinhança, aprendi: pé esquerdo no estribo e, num impulso, o quadril e a perna direitos descrevem um arco no ar. Se pensasse muito, não conseguiria. Um toque leve dos calcanhares em sua barriga, e ela andava; as rédeas eram volante e freio. Na primeira volta, por dó e ingenuidade, não quis puxá-las. Lady então foi do trote manso ao galope, e, de repente, corríamos pela ciclovia, eu rindo e gritando, feliz e apavorada. Ela ia tão segura e livre, que relaxei. A sensação de correr sendo levada, o bruto e imprevisível sacolejo, a constatação de que uma vida poderosa conduz você: me apaixonei. Lady não viveu muito, depois a rotina na cidade nunca me deixou ter outro cavalo. Mas, de vez em quando, em férias, encontro um. O movimento para subir, a postura correta para cavalgar e o jeito de controlar o bicho são como andar de bicicleta, uma inesquecível sabedoria do corpo. A cavalo, aprendi que há horas em que preciso puxar as rédeas para acertar o caminho. Em outras, se as solto, chego a lugares aonde jamais iria com as minhas próprias pernas.



















































