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A graça do novo

Texto: Dilson Branco // Ilustração: Fabiano Silva // Foto: Ricardo Toscani
A graça do novo
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A criatividade não é um dom do seu colega ousado ou do publicitário por trás do anúncio hilário. É parte de mim e de você. Desenferruje essa habilidade e tenha sua grande idéia de hoje. Você corre o risco de achar graça (no trabalho, na vida) onde antes não via nada de mais.

O empresário Constantino Kostakis Jr. descansava com a família na cidade serrana de Campos do Jordão, em São Paulo, quando teve a idéia. Na embalagem da pizza que pedira havia um vale-brinde, daqueles de recortar. Ele ficou pensando em como era pouco prático ter de pegar uma tesoura, cravá-la no papelão e contornar o vale para retirá-lo. Não seria mais fácil se ele fosse destacável? Logo ao lado, seu filho brincava com um dinossauro de montar, feito de peças de papel. Bingo! Por que não embutir nas embalagens de piz-za peças destacáveis que servissem para montar brinquedos? Constantino levou a idéia adiante e hoje a Pack Pizza, como ele a batizou, é o carro-chefe de sua empresa de embalagens. “Considero-me criativo. Tudo o que eu olho sei que posso melhorar”, conta. “Criar me dá muita satisfação.”

Constantino é uma pessoa como você ou eu. E exemplo de que a criatividade pode apimentar o trabalho e a vida. Quem pensava que isso era coisa só de artistas pode repensar. “A criatividade é necessária até em tarefas básicas, como escolher a melhor forma de pagar nossas dívidas”, afirma a neurocientista Suzana Herculano-Houzel. Para Charles Watson, palestrante de um concorrido curso sobre o processo criativo, “criatividade é a maneira como você define sua relação com a vida”, diz. “Você pode escolher viver num estado de semi-sonolência ou pode realmente procurar fazer coisas significativas com ela”. Bateu aquela coceira?

“A criatividade é comparável à eletricidade: em alguns, manifesta-se
como numa tempestade; em outros, pode apenas acender
uma lâmpada. Mas está em todos nós”


O nome do santo


Mas, afinal, o que é criatividade? Nada tão misterioso. “É um processo que resulta em algo novo e relevante”, diz a psicóloga Eunice Alencar, que já escreveu vários livros sobre o assunto. Segundo ela, não se trata de um dom presente em poucos privilegiados, tampouco um lampejo de inspiração que surge do nada, sem razão explicável. Todos somos criativos, mas com intensidades diferentes. “A criatividade é comparável à eletricidade: em alguns, manifesta-se como tempestade; em outros, pode apenas acender uma lâmpada”,  sugere.

Você talvez se pergunte por que algumas pessoas são tão inovadoras, enquanto você não leva o menor jeito para criar. Quem disse que você não leva jeito? Talvez seus pais, quando ignoravam suas perguntas carregadas de curiosidade infantil. Talvez suas primeiras professoras, que premiavam mais a decoreba do que os raciocínios originais. Ou seu chefe, que não dá espaço para você ousar.  “Nossa sociedade nos ensina a controlar as emoções, resguardar a curiosidade, evitar situações que possam resultar em fracasso”, explica Eunice. E tudo isso vai atrofiando nossa criatividade – na verdade, nossa confiança nela.

O novo, em quatro atos


Pois bem, é hora de desenferrujar. E isso exige certo conhecimento de como se dá o processo criativo. Os estudiosos costumam dividi-lo em quatro etapas. A primeira é a “preparação”. É a busca de dados. Acontece enquanto lemos, vemos filmes, conversamos, navegamos na internet, participamos de cursos, viajamos, visitamos um bar novo... Ela segue a lógica do caleidoscópio: quanto maior o número de peças de que dispomos, mais combinações são possíveis, e assim aumentam as chances de chegarmos à que mais nos serve. A grande sacada é que as informações não devem ser apenas sobre o assunto a respeito do qual estamos tentando ter idéias. Dados que aparentemente não têm nada a ver com o tema podem ser fundamentais. Veja o caso de Constantino: o que dinossauros de montar tinham a ver com pizza?

A segunda fase é quando relacionamos os dados que já temos para criar o novo conceito. Ela pode ser inconsciente, e a chamamos de “incubação”.  Seu princípio é simples: afastar-se do problema que estamos tentando resolver, desviando nossa atenção para outra atividade, é importante para que os elementos se combinem sem nossa interferência consciente.

 O cientista francês Louis Pasteur, por exemplo, que descobriu que as infecções são causadas por microrganismos, costumava resolver questões fundamentais praticando seu hobby: tocar violino. Pode acontecer também durante o sono: quantas vezes você sonhou com a solução de um problema que lhe atormentava e parecia empacado? A explicação para esse fenômeno é que nosso cérebro continua processando os dados que nos intrigam, mesmo quando não estamos mais nos debruçando sobre eles. “Nossa atenção é limitada a cerca de sete coisas por vez”, diz Suzana. “Quando você pára de pensar detidamente em um assunto, seu cérebro continua tratando dele, mas sem a limitação da atenção. Ou seja: você consegue fazer relações entre mais de sete elementos.”

Aqui cabe um parêntese. Na hora de fazer novas ligações entre velhos elementos, é fundamental ter aquilo que se chama flexibilidade cognitiva. É a capacidade de mudar as regras que estamos usando para resolver uma questão. Pense no seguinte enigma: Por que o Abominável Homem das Neves é azarado? Seu cérebro começa a levantar todos os dados que você possui sobre a figura mitológica. Neve, montanha, agressividade, grande estatura, pêlos... Nada ajuda a achar a resposta surpreendente da charada: porque ele tem pé frio! Ora, você sabe que quem pisa em gelo fica com o pé frio. Sabe que gente azarada é chamada pé-frio. Então, por que não descobriu a resposta? Porque estava usando a regra errada.  Fecha parêntese.

A terceira etapa é achar a solução do problema: a “iluminação”. Fim? Ainda não,  ter a idéia não basta. É preciso fazer a “verificação”, quando conferimos se a idéia de fato resolve o problema. No caso de Constantino, consistiu em encomendar a fabricação da nova embalagem, buscar uma parceria com a pizzaria do bairro e então descobrir que a criação era um sucesso.

Mais trabalho ou prazer?


Se há tanto método para ser criativo, fica a impressão de que isso dá um trabalhão. Quem vive de criatividade, como o cartunista Laerte, que produz tirinhas diárias de jornal, que o diga. Ele resume criatividade em três palavras:  “observação, pensamento e trabalho”. E exemplifica destrinchando o processo criativo de uma de suas obras. Nela, vêem-se dois gatos e o seguinte texto: “Querê-los, castrá-los, afagá-los, acertar-lhes um tiro na medula, comprar-lhes um aparelho com rodinhas para sua locomoção, acariciá-los; para os gatos, isso tudo deve ser uma forma bizarra de poesia humana”.
Laerte conta que tudo começou enquanto ele observava suas duas gatas deitadas – uma delas tem as patas paralisadas, resultado de um tiro de chumbinho que lhe acertou a medula. “Pensei sobre essas duas irmãs, seus destinos e suas vidas com os humanos, e isso me levou a escrever o texto”, lembra. O último passo foi, enfim, pôr o pensamento no papel, ou seja, a labuta. “Nada fácil nem prazeroso, mas eficiente, acho eu”, afirma o artista, com modéstia.

Bem, o trabalho, com ou sem criatividade, é uma obrigação e, como tal, carrega suas chateações. Mas os especialistas defendem a idéia de que o processo criativo gera, sim, prazer. “Ao quebrarmos expectativas, abandonarmos o caminho convencional e vermos uma informação por outra perspectiva, temos nosso sistema de recompensa ativado”, afirma Suzana. Esse dispositivo, diretamente ligado ao prazer, é o mesmo que o organismo aciona quando fazemos sexo, recebemos dinheiro ou usamos drogas. “Isso não só torna o processo criativo prazeroso como nos faz querer mais dele”, acrescenta.  Seria o bom vício.

Escritório criativo

Ter funcionários viciados em criatividade é o sonho de muitas empresas. E algumas delas fazem questão de dar um empurrãozinho. Na Embraer, por exemplo, desde 1988 existe o programa Boa Idéia, que dá prêmios aos empregados para incentivá-los a buscar novas soluções. Todos os dias, seus 20 mil funcionários apresentam, em média, 50 novas idéias. Delas, cerca de 20 são implementadas. Os prêmios são proporcionais ao retorno em lucro à companhia: vão desde um brinde, como um aparelho de MP3, até 10 mil reais em dinheiro.

O montador de interior de aeronaves Luciano Silva já teve cerca de 50 idéias premiadas em sete anos. Uma foi a criação de um gabarito para padronizar a posição dos furos de fixação do carpete no avião, que aumentou a precisão da operação. “Ver minha idéia beneficiando a todos alimenta meu orgulho profissional”, diz Luciano.

Ao final, com prazer, com esforço, com genialidade ou simples eficiência, ser criativo dá frutos. Pode ser turbinar o próprio negócio, sentir-se um profissional melhor, tornar-se um dos grandes artistas de seu ramo, ganhar um concurso... E fazer o seu dia-a-dia mais rico. Para isso, como quase tudo na vida, não há receita simples.

O caminho passa por fazer o que tem significado para você. “Se você adora uma atividade, vai fazê-la melhor do que quem a cumpre pra pagar o aluguel”, diz Watson. “Porque não vai fazer só o necessário, não tem esse limite.” O limite, para o criativo, é só o começo de um novo mundo de idéias e formas de agir. E é aí que está a graça.  
 

Asas à imaginação

Pequenos hábitos podem acordar sua criatividade adormecida

• Desligue seu piloto automático: varie o caminho entre a casa e o trabalho, troque os móveis da casa de lugar. Estimule-se mais.

• Seja observador. O que está escrito na embalagem do seu xampu? Como são as janelas das casas dos seus vizinhos?

• Ouse fazer coisas que nunca imaginou. Por que não aprender a tocar tuba? Praticar badminton? Fazer um curso de sushi?

• Volte à infância de vez em quando: proponha-se questões esdrúxulas que o obriguem a mudar as regras do seu raciocínio. O que você faria se fosse o dono do mundo? Onde iria se fosse invisível?

• Converse com estranhos. No táxi ou com o barista daquele café bacana. E, em vez do clássico “será que vai chover?”, escolha temas de seu cotidiano. Gás é melhor que gasolina? Para onde vai a borra do café?

• Que tal entrar numa livraria e comprar o mesmo livro que a última pessoa da fila do caixa? Experimente autores e assuntos diferentes dos seus favoritos.

• Interaja com crianças – elas são as rainhas das ligações improváveis de dados. Tente absorver essa liberdade imaginativa.

 

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