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À janela, com amor

Um rapaz apaixonado, uma bela adormecida, um violão e uma janela. No começo do século passado, eram esses os protagonistas da declaração de amor perfeita – salvo quando um intrometido dava as caras: o balde de água fria jogado pelos vizinhos irritados com a serenata. Com o passar do tempo, os amantes que pretendiam usar a música para se declarar assumiram novas formas de abrir o coração. A fita cassete gravada com aquelas canções, por exemplo, era, sim, um ato apaixonado – mas também bastante acomodado. Foi isso que eu percebi quando me vi onze andares abaixo da janela aonde minha voz deveria chegar, soterrado pelos sons da metrópole e ainda ameaçado por uma chuva iminente. Decidi levar meu plano para outro palco: a casa dos meus pais, na calmaria do interior. Como minha namorada ainda não conhecia a família, nem desconfiou do meu real interesse na viagem. Então lá fomos nós, igualmente apreensivos, mas por motivos distintos: ela, devido ao primeiro encontro com os sogros; eu, pelo ineditismo da declaração e pelo risco de constranger em vez de agradar. Esperei a noite chegar, saí da casa com cuidado e soltei a voz. Ao contrário de um show, aprendi que numa serenata pode levar algum tempo até que o público se manifeste. Mas ela apareceu – quase na metade da música, mas apareceu. E, embora olhasse para os lados, desconfiada, tinha um sorriso no rosto daqueles que a gente se culpa por não estar com uma câmera fotográfica em mãos.



















































