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A modinha número 1

Maria Darcília é costureira e trabalha no centro de Fortaleza. De casa à oficina são duas horas de ônibus. Bate o cartão e passa oito horas bordando, plissando, arrematando. E, depois da longa volta para casa, quase nunca vê os oito filhos, que já estão dormindo. Já a viúva Creusa não trabalha mais. Aos 50 anos, achou que estava velha e aposentou-se do emprego no ramo da tecelagem. Passa o tempo bordando panos de pratos e os dá de presente à família. Sente-se sozinha e, às vezes, um pouco inútil, mas vive de sua aposentadoria num bairro de classe média de São Paulo. Na mesma cidade, Rivail vive como pode. Mora na rua e dela tira seu ganha pão. Junta latinhas, dá uma de pedreiro. E, quando o dia vira noite, escolhe o abrigo da prefeitura mais próximo e se aconchega.
Isso tudo foi uma realidade de dez anos atrás. Hoje, Darcília, Rivail e Creusa levam outra vida. Eles tomaram contato com a economia solidária.
Economia solidária nada mais é do que uma forma de produzir, consumir e distribuir riquezas baseada na cooperação entre as pessoas. É planejada para que todos cresçam juntos; não para que exista o grande grupo dos que tem seu trabalho explorado e os poucos que ficam com o lucro desse trabalho. É uma idéia que vem lá do século XVIII, entre artesãos jogados pra escanteio quando a máquina a vapor tomou seus empregos.
Na prática, a economia solidária existe quando um agricultor põe comida na mesa trocando a batata que produz pela cenoura que o vizinho colhe. Ou quando um monte de marceneiros se junta para trabalhar em cooperativa, aumentando a capacidade de produção e distribuindo igualmente os lucros. E mesmo quando você faz as unhas da vizinha em troca de uma aula de inglês com ela. Você poderia alegar que, a essa altura do desenvolvimento do capitalismo, é irreal achar que uma comunidade vá crescer só na base do escambo. E é aí que entra a moeda social, o mecanismo que tornou possível a virada na vida de Rivail, Creusa e Darcília.
Se você vende mercadorias numa feira solidária e é pago em moeda
social, só vai poder usá-la para fazer compras nessa feira. Assim,
cada produtor da comunidade ganha um monte de clientes
cativos. E a riqueza produzida no local permanece ali
Engorda-se o cofrinho
Trata-se de uma moeda mesmo, feita de papel para circular paralelamente à moeda corrente dentro de um grupo. Tem um nome inventado, e uma unidade vale o mesmo que, digamos, 1 real. E tudo começa numa feira de trocas. Pessoas que têm algo a oferecer, seja a melancia plantada no quintal ou a habilidade de consertar torneiras, reúnem-se em um espaço comunitário para vender e comprar. Só podem usar para isso uma moeda própria. E qual é o pulo do gato? É que, se você vende seus biscoitos na feira, ganha por eles em moeda social e quer adquirir um par de brincos, você só vai poder comprar os oferecidos ali na feira – não o que viu no shopping, por exemplo. E, de repente, cada produtor do grupo junta um monte de clientes cativos: o bairro inteiro (ou escola etc.).
Se a riqueza produzida pela comunidade circula mais tempo ali dentro, todo mundo se fortalece. “Já o real tem asa. Eu pago meu funcionário em real e ele vai gastar no centro. O dinheiro que entra na comunidade sai rapidinho”, explica Joaquim de Melo, coordenador do Banco Palmas – o maior banco solidário do Brasil e controlador da palma, moeda social de Palmeiras, bairro de Fortaleza onde mora a costureira Darcília.
A história de Palmeiras começou em 1970, quando a prefeitura de Fortaleza deslocou moradores do centro para a periferia. Sem infraestrutura básica, os residentes tiveram de se organizar para ter direito a luz, esgoto e asfalto. Conseguiram as melhorias. A renda da população, porém, não cresceu junto.
“Nós éramos pobres, e não era porque não tínhamos dinheiro, mas porque ele ia parar em outros lugares”, conta Joaquim, então presidente da associação de moradores. “Aí pensamos em criar um modelo em que a gente emprestava dinheiro para produtores locais e para o consumo local. Para garantir que o dinheiro não pudesse sair, criamos uma moeda social circulante, a palma”, explica. Com uma doação de 2 mil reais de uma ONG, abriram o banco, até hoje dentro da associação de moradores.
Divide-se o bolo
No começo, eles só faziam pequenos empréstimos e vendiam a moeda local. Organizavam feiras de troca e quem queria participar trocava seus reais por palmas na entrada. Ou pegava palmas emprestadas do banco. Foi aí que Darcília, hoje com 54 anos, se encontrou. Ela havia se aposentado e começado a costurar calções masculinos para vender aos vizinhos. Ficou sabendo das feiras solidárias semanais e decidiu levar suas peças. Resultado? De 10 unidades por semana, passou a vender 50. “Com as palmas eu comprava nos mercadinhos, nas farmácias, até tecido”, conta.
A estratégia do banco comunitário, que aos poucos foi angariando doações, era negociar com os comerciantes para que dessem desconto a quem comprava com palmas. E emprestar reais a produtores que quisessem investir localmente e precisavam de bens que não havia ali. Esses empreendedores começaram a gerar empregos e a pagar seus funcionários também com palmas. Aos poucos, as feiras tornaram-se comuns: a moeda já circulava normalmente na comunidade.
Dez anos depois, o banco já tem uma carteira de 30 mil reais, um imenso salto para quem começou com 10 clientes e 2 mil reais. Em Palmeiras, 99% dos comerciantes aceitam sua moeda – são 240 credenciados. E um levantamento feito pelo Instituto Banco Palmas mostrou que os 32 mil moradores da comunidade já consomem mais de 5 milhões de reais ao ano, em reais mesmo. “Mas, quanto mais empresas produzirem localmente, menos eu dependo do governo e de variações de mercado”, aponta Joaquim. Calcula-se que 25% do comércio local tenha aumentado suas vendas e criado 1,8 mil empregos. Além da criação de seis empresas comunitárias. Como no caso de Darcília, hoje uma das 15 costureiras que lideram a Palma Fashion, cooperativa de moda que fabrica jeans vendidos até fora do Ceará.
Da palma ao espeto
Como Palmeiras, já existem mais de 40 comunidades no Brasil trabalhando economia solidária com cédulas próprias. E a rede brasileira de bancos solidários soma 32 instituições. No conjunto, esse movimento traz benefícios amplos. Ambientais, por exemplo. Consumindo localmente, você se desloca menos, usa menos transporte, polui menos. E conhece a origem dos produtos que compra, então pode fiscalizar sua cadeia de produção – se fabricam sem agredir a natureza ou tratam mal seus funcionários. “É uma proposta que tenta resolver vários problemas, do aumento da desigualdade econômica ao valor individual do ser humano, que se reconhece pelo que consegue produzir”, diz Cesar Matsumoto, da Incubadora de Cooperativas Populares da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Economia solidária é uma forma de produzir, consumir e distribuir riquezas
baseada na cooperação entre as pessoas, para que todos cresçam
juntos. “Todos estamos no mesmo barco. A solidariedade não
é uma escolha, é a única solução,” diz Heloisa Primavera
Para estimular essa nova economia, a instituição promove três feiras solidárias por mês em São Paulo. Foi em uma delas, na Associação de Moradores de Rua de São Paulo, Minha Rua Minha Casa, sob o Viaduto do Glicério, uma das regiões mais pobres do centro da cidade, que Rivail Marques, hoje com 44 anos, viu a oportunidade bater à sua porta.
Então morador de rua, Rivail freqüentava a feira onde o dinheiro circulante era a miruca, uma moeda social inventada pela associação, em parceria com a Incubadora – cada miruca vale 1 real. Observador, Rivail viu que todos reclamavam que só tinha doces para vender na feira. Teve uma idéia: comprar uma chapa, fazer e vender churrasquinho ali. Pediu um empréstimo ao banco controlador das mirucas, o Banco de Trocas Solidárias do Centro de São Paulo, alimentado por doações de empresas e pessoas e administrado pela Incubadora. “Vendi tudo o que tinha comprado de carne no primeiro dia. O que foi suficiente para eu poder pagar a chapa e devolver o empréstimo”, conta.
Hoje ele faz 800 mirucas por feira – seus espetinhos e lanches, como o sanduíche de calabresa com vinagrete no capricho, custam de 2,00 a 3,50 mirucas. No fim do dia, troca a moeda inventada por reais para comprar a matéria-prima para a próxima. Também acumula no banco mais de mil mirucas, que faz questão de gastar na feira. “Chego a usar 50 mirucas por barraca. Estou fazendo a minha parte, afinal comecei assim também”, diz. Agora, ele foi contratado pela Minha Rua Minha Casa, casou-se e vai se mudar para um condomínio popular comprado com um financiamento da Caixa Econômica Federal. Para isso, está usando o real. Mas credita às mirucas a descoberta de que podia sair das ruas.

Novas consciências
Despertar consciências tem sido um grande mérito das moedas sociais, diz Heloisa Primavera, fundadora da Rede Latinoamericana de Socioeconomia Solidária. “Elas mostram que as coisas podem ser diferentes e isso não é pouco. Mas também não é suficiente”, diz. Para ela, todos precisam entender que estamos no mesmo barco e só saímos de uma crise juntos. “A solidariedade não é uma escolha, é a única solução.”
Para Thomas Greco, autor de The End of Money and the Future of Civilization (na tradução, O Fim do Dinheiro e o Futuro da Civilização), essas iniciativas são respostas inteligentes aos problemas diários. “A monopolização de crédito por uns poucos bancos tem tirado o poder e a autonomia de comunidades, enquanto causam bolhas financeiras que explodem em ciclos de depressão e inflação”, afirma. O movimento da moeda social é uma reação. A maneira pela qual indivíduos, negócios e governos locais buscam proteger a própria economia.
Assim como suas vidas. Porque incentivar pequenos e grandes empreendedores é também realizar mudanças simbólicas importantes, de auto-estima, de motivação, de consciência de grupo. Foi o caso da aposentada Creusa Florinda da Silva, de 58 anos. Ela ganhou mais do que dinheiro depois que começou a vender seus panos de prato nas feiras do Centro de Convivência e Cooperativa, o Cecco, em São Paulo, outra feira solidária. “Chega uma idade em que a gente acha que velho não serve pra nada, entra em depressão. Hoje não sei mais o que é isso”, conta ela, que dá aulas de bordado no centro, como voluntária. “Quero fazer mais coisas, descobri que compensa investir em mim.”
Nas palavras de Heloisa: “Sempre haverá lugar para a moeda social porque estamos longe de ter proporcionado qualidade de vida a todos”. Quem dá um passo em direção a essa economia mais colaborativa, justa, humana, normalmente descobre, como Creusa, Rivail e Darcília, que o investimento compensa.

















































