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A parte ou o todo?

Há vinte anos, se você quisesse planejar uma viagem de férias com a família para um país desconhecido, o que faria? Como descobrir quais companhias aéreas faziam o trajeto até seu destino? Como saber os horários dos voos, comparar os preços de diferentes empresas? E para descobrir um bom hotel e pagar a reserva? Se precisasse de dicas de restaurantes, dados sobre a temperatura, informações sobre eventos divertidos que estivessem ocorrendo por lá durante sua estada... Como você faria?
Com muita paciência, horas ao telefone – falando em português e na língua do país a ser visitado –, dias vasculhando uma empoeirada coleção de revistas e guias de turismo editados anos antes, e sem nenhum medo de se arriscar a cair numa furada, seria possível você resolver tudo sozinho. Mas dificilmente você evitaria a solução mais óbvia e certeira: contratar um agente de viagem, especialista no assunto, que saberia responder a todas as suas dúvidas e em pouco tempo resolveria tudo.
Hoje em dia, a história é outra. Você pode fazer tudo em sua casa, rapidinho, pela internet – das reservas até, quem sabe, novos amigos na cidade para lhe dar dicas. Pode, inclusive, imprimir em segundos uma foto de satélite do hotel onde ficará hospedado, mesmo nunca tendo conhecido ninguém que um dia passou perto de lá.
Esse é um dos muitos exemplos de como o conhecimento está democratizado após a revolução das telecomunicações. E isso afeta profundamente a construção de uma carreira. Com tanta informação disponível para todo mundo – estudos mostram que hoje o conhecimento acumulado no planeta duplica a cada nove meses –, como manter seu perfil profissional relevante? Será que a saída é tentar abraçar o mundo, procurando saber um pouco sobre todos os assuntos? Ou dedicar-se a um tema específico, escavando sua especificidade a uma profundidade que nunca ninguém atingiu?
Do micro ao macro
Investir na especialização ou na generalidade é uma pulga atrás da orelha de muita gente. O dentista Fausto Ito, de 34 anos, do Rio de Janeiro, viu na primeira opção o seu caminho. Após um período de experiência em clínica geral, hoje ele atende exclusivamente pacientes com transtornos do sono. “Percebi que o ronco era um dos problemas que mais interferiam na qualidade de vida das pessoas e comecei a estudar melhor o assunto.” Frequentemente, ele é requisitado para dar entrevistas sobre o tema e, com seu pai, o também dentista Roberto Ito, inventou um aparelho, patenteado, voltado para o tratamento do ronco e da apneia.
Quem pretende ser um formador de conhecimento tende a seguir
uma carreira de especialista. Já quem sonha comandar as diferentes
habilidades presentes em uma equipe leva mais jeito para o generalismo
Já a trajetória de Sandro Camargo, de 37 anos, de São Paulo, ocorreu no sentido inverso. Formado em análise de sistemas, ele trabalha há 15 anos em uma empresa de programas de computador. Seu primeiro cargo foi como suporte operacional, tarefa dos que começam na profissão. Em pouco tempo, ofereceram a ele uma promoção: passou a coordenar a área. Então percebeu que, mais do que se prender aos detalhes técnicos, sua paixão era enxergar o todo e gerenciá-lo. “Eu tinha uma boa formação técnica, mas isso só funcionaria se ficasse no suporte. Como quis crescer, fiz um curso de administração. Meu conhecimento técnico ficou menos importante do que minha habilidade para gerenciar a equipe”, diz Sandro. Hoje, ele é um dos diretores da empresa.
Os dois exemplos mostram que, quando a dúvida é especializar-se ou dedicar-se ao conhecimento mais amplo, não há uma única saída rumo ao sucesso. “Ambos os tipos de profissional são indispensáveis para a evolução do mercado de trabalho. E também se complementam. O generalista tem como função interagir com diversas áreas de uma mesma organização. E o especialista é fundamental para searas com demandas mais singulares”, afirma a consultora de carreira Mayra Fragiacomo.
Cada um, cada um
Um bom primeiro passo para tentar desatar o nó é pensar no tipo de carreira que se quer construir. Se você pretende ser um nome de destaque na sua habilidade, um formador de conhecimento, como o dentista Fausto, seu perfil tende a ser mais especialista. Se deseja comandar uma equipe, coordenar diferentes habilidades para que juntas atinjam um objetivo comum, como o analista Sandro, possivelmente seu perfil é mais generalista. “O número de presidentes de empresas que começaram como office-boys é alto não porque eles iniciaram por baixo, mas porque fizeram questão de entender áreas diferentes”, diz o economista Stephen Kanitz.
Outra questão a se levar em conta é a demanda do mercado para cada tipo de profissional. Numa cidade pequena, o número de pessoas que diariamente precisam comprar puxadores de portas de armário, por exemplo, não é grande o suficiente para justificar a existência de uma loja especializada nesse tipo de mercadoria. O mesmo já não ocorre numa metrópole, como São Paulo, onde em uma mesma rua se pode encontrar meia dúzia de estabelecimentos que exploram unicamente esse nicho.
Também é fundamental estar atento às limitações que existem em cada opção. Um profissional altamente especializado não encontra grande variedade de vagas de emprego feitas sob medida para seu perfil. O generalista é mais versátil, mas, por sua vez, enfrenta maior concorrência, pois há mais profissionais no mercado aptos a desenvolver sua função. “A escolha depende do perfil de cada um e do planejamento que ele fez para a sua carreira”, conclui a consultora Mayra.

















































