Droga Raia

Twitter Facebook Flickr Orkut Delicious RSS
dê uma nota para esta matéria:
Participe:

conhecer

A paz de pés no chão

Se já é difícil definir o que é paz, imagine construí-la. Pois Denis Mizne decidiu dedicar sua vida exatamente a essa causa. E mostra como iniciativas práticas podem ajudar a concretizar tal sonho
Texto: Simone Cunha // Foto: Patrícia Stavis
A paz de pés no chão
AumentarDiminuir

Em 1997, 10 mil jovens morreram vítimas de armas de fogo no Brasil, segundo dados oficiais. Nenhum deles era amigo ou familiar do então estudante de direito Denis Mizne, de São Paulo. Mas o jovem de 20 anos e alguns colegas encararam o problema como seu. “Não entendíamos nada de armas, mas os índices de mortes por motivos fúteis tornaram evidente o que deveria ser feito”, conta.

Desarmamento foi a palavra de ordem que eles adotaram. Aprofundaram-se no tema, promoveram debates públicos e campanhas de entrega voluntária de armas e, com o apoio de instituições e personalidades, o movimento ganhou o país. Em 1999, Denis entregou-se de vez à causa, criando o Instituto Sou da Paz, que preside até hoje. A maior vitória veio em 2003, com a entrada em vigor do Estatuto do Desarmamento, legislação federal que dificulta o acesso a revólveres e pistolas. O código foi apontado pelo Ministério da Saúde como um dos principais fatores que contribuíram para a queda de 12% no índice de homicídios por arma de fogo no país entre 2003 e 2006.

Dez anos após sua fundação, o Sou da Paz multiplicou suas ações. Além de assessorar a criação de leis, leva informação e infraestrutura a bairros carentes da Grande São Paulo. Na entrevista a seguir, Denis conta mais sobre sua cruzada e argumenta que ela só terá sucesso com o apoio de todos: “Não tem paz de um, é de todo mundo”.

Você dedica sua vida a construir a paz. Não é um objetivo utópico demais?
Denis – Utópico sempre é, mas não ingênuo. É por pensar assim que pouca gente se compromete com os grandes problemas. Nós do Sou da Paz sempre dizemos que estamos com a cabeça nas nuvens e os pés no chão. Sonhamos, mas buscamos solução para os problemas. Quando nossa campanha foi lançada, em 1997, a gente concretizou o que é ser da paz propondo dois tipos de desarmamento. O primeiro foi o real, reduzindo o número de armas em circulação. O segundo, o desarmamento dos espíritos, que é a reação à violência. Trancar o filho em casa, blindar o carro, aumentar o muro só eleva o isolamento e a violência. Se não tiver segurança para todo mundo, não vai ter para ninguém.

O que despertou sua luta?
Denis – Não precisa que alguém da sua família seja vítima da violência para abrir os olhos para um problema desses. Estava demais: em 1997, 26 mil pessoas foram assassinadas por armas no país. Eu era presidente do centro acadêmico da faculdade, e umas dez pessoas dali começaram a alimentar o desejo de diminuir a violência. Gostei do tema, estudei. Por uns dois anos, íamos a escolas da periferia discutir violência. Mas fazíamos isso no tempo livre. Em 2000, eu, o José Marcelo Zacchi e a Luciana Guimarães resolvemos nos dedicar só a isso. No início, minha família pressionou: “Não é hora de ter um trabalho de verdade?”. Mas depois percebeu a seriedade do trabalho e apoiou.

A atuação do Sou da Paz é bastante baseada na influência de políticas públicas. Como se dá esse trabalho?
Denis – Influenciar políticas públicas é muito mais que levar uma ideia ao Congresso e encher o saco dos deputados para que votem. O maior inimigo de qualquer avanço no Brasil é a ignorância dos parlamentares. Eles votam projetos de previdência social, educação e segurança pública em um dia, como vão entender de tudo? Por isso levamos informação. No caso do desarmamento, fazía­mos um boletim expondo o problema da violência, a ligação com as armas e a possibilidade de controle. E combinamos isso à pressão com manifestações e mobilização da mídia.

Vocês também pressionam pelo exemplo, colocando em prática iniciativas que podem ser adotadas pelos governos. Como isso funciona?
Denis – Nem sempre é preciso mudar a lei para reduzir a violência. Às vezes basta mostrar à prefeitura que melhorar o espaço público, levando iluminação e oportunidades de esporte e lazer, já é uma iniciativa barata e eficaz. Nós fazemos projetos nas periferias paulistas, como a revitalização de praças, para serem replicados. O poder público é chamado a conhecer, a apoiar e a ceder o espaço público – não necessariamente a financiar, até porque 90% dos nossos recursos são privados. Assim, as iniciativas têm mais potencial para se transformar em políticas públicas.

Como você se protege da violência?
Denis – Eu gostaria de ter uma casa, mas moro em apartamento, por ser mais seguro. Mas não é um condomínio fechado. No trânsito, ando com o vidro levantado, mas não tenho carro blindado. Seria o oposto do que eu acredito. Essas ações que aparentemente protegem na verdade contribuem para tornar o mundo mais violento. O segundo local em São Paulo com a maior incidência de roubos é a região da avenida Giovani Groncchi, onde tudo virou condomínio fechado. Não tem mais comércio, diversidade nem gente na rua. Quando a gente abandona o espaço público, alguém toma – e será provavelmente quem te dá medo.

O que as pessoas comuns podem fazer no dia a dia para contribuir para a paz?
Denis – Pensar nos valores que elas defendem, no exemplo que dão aos filhos. Não usar a violência e não aceitar que ela seja usada nas relações de trabalho, educação e família. Você legitima a violência se acha bonitinho que o filho brigue na escola, por exemplo. Se for vítima de crime, denuncie, porque, se não tiver boletim de ocorrência, o governo diz “nem tem crime nessa região”. Leve seus problemas ao Conselho Comunitário de Segurança (Conseg), que tem em São Paulo e em várias outras cidades. Se não tem na sua, lute para que tenha. Use o Disque-Denúncia. Além disso, não contribua para o crime subornando policiais ou comprando drogas. Envolva-se em alguma iniciativa que desenvolva seu senso comunitário e dissemine essa noção entre as pessoas ao seu redor.

dê uma nota para esta matéria:
Participe:
Envie seu comentário:
Nome (preenchimento obrigatório)
E-mail (preenchimento obrigatório, mas não será publicado)
Website
Realização:
Patrocínio:
Instituições beneficiadas:
Medley P&G Kimberly-Clark Reckitt Benckiser EMS
EDITORA MOL Rua Andrade Fernandes, 303, sala 3, Alto de Pinheiros, São Paulo / SP | Email: contato@revistasorria.com.br | Telefone: (11) 3024-2444
2009 - 2010 Editora Mol. Todos os direitos reservados