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A riqueza do desapego

Conheça Silvio Meira, um engenheiro que encontrou no desprendimento a determinação para melhorar o mundo a sua volta
Texto: Letícia Francisco // Foto: Arquivo Pessoal
 
A riqueza do desapego
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Mais uma vez, lá iam eles: o pequeno caminhão que faria a mudança da família já estava quase lotado. Os cinco irmãos sabiam que não havia espaço para todos os pertences e brinquedos e enfrentavam a já costumeira tarefa de escolher apenas alguns, deixando os outros para trás. A rotina se repetiu várias vezes – de Cajazeiras para Taperoá, na Paraíba; de Taperoá para Iguatu, no Ceará; de Iguatu para Arcoverde, em Pernambuco... –, sempre que o emprego do pai na Sociedade Algodoeira exigia.

Passadas algumas décadas, esse exercício de desapego transformaria um daqueles meninos acomodados na caçamba num dos mais bem-sucedidos pesquisadores e empreendedores do Brasil. Silvio Meira, hoje com 53 anos, é o líder de uma prestigiada e inovadora instituição de pesquisa – o Cesar – e idealizador de um dos maiores parques tecnológicos do país – o Porto Digital. Para chegar a esse ponto, carregou a lição aprendida a cada mudança na infância: o valor de desprender-se e arriscar.

“Quanto menos coisas você possui, mais livre está para partir para outra vida”, reflete Silvio. O sertão o ensinou a separar o que ele era do que tinha de fato.  Foi um preparo natural para enfrentar a diversidade e a adversidade. Aprendi a não dar nada como certo e a criar sempre.”

As lições do interior nordestino levaram Silvio para o mundo. Depois de se formar em eletrônica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), no interior de São Paulo, fez mestrado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e tornou-se doutor pela Universidade de Kent, na Inglaterra. Em 1985 decidiu que era hora de voltar. Dispensou empregos nos Estados Unidos e na Europa para enfrentar um desafio que o Primeiro Mundo jamais poderia lhe oferecer.

A idéia, concebida com um grupo de colegas, era dar nível internacional ao curso de Ciências da Computação da UFPE. A meta foi atingida oito anos antes do planejado: em 1992, a graduação tinha as mesmas cadeiras do prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, o mestrado ganhara nota A e o doutorado era realidade. Mas o sucesso não os deixou satisfeitos. Em 1993, 70% dos alunos formados abandonavam a capital pernambucana, atraídos por vagas em outros estados e países. “Criamos um sistema educacional de qualidade, mas não havia desafios para manter as pessoas no Recife”, diz.

Quanto menos coisas você possui, mais livre está, reflete Silvio. A infância
cheia de incertezas no sertão ensinou a separar o que se é daquilo que se tem


Dessa necessidade nasceu um projeto inovador que conjuga realidades aparentemente irreconciliáveis: filantropia e capitalismo. O Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) é uma entidade sem fins lucrativos que atua em duas frentes:  pesquisa e desenvolvimento de projetos tecnológicos e estímulo à criação de empresas na área de tecnologia da informação. O objetivo é gerar negócios que vão transferir o conhecimento da universidade para a sociedade de forma auto-sustentada – ou seja, pagando as contas e reinvestindo todo o lucro em novos projetos.

“O empreendedorismo social compensa a ignorância do governo e o capitalismo selvagem da empresa. Mas não somos assistencialistas”, conta Silvio.  “Geramos nossa própria receita porque sabemos que dinheiro não cai do céu. Para ensinar a pescar, temos de ser pescadores.” Sem a pressão de atingir lucros mirabolantes nem a pretensão de enriquecer ninguém, hoje o Cesar cria 650 empregos diretos, 1,3 mil indiretos e só ano passado faturou 50 milhões de reais. Ao oferecer estrutura e investimento para boas idéias saírem do papel, o centro já ajudou 20 jovens empresas de tecnologia a nascer e prosperar.

E mais uma vez o êxito originou um desafio. Para abrigar os empreendimentos surgidos no Cesar, Silvio propôs ao governo pernambucano a criação de um pólo tecnológico: o Porto Digital. Projeto aprovado, em 2000 uma área do centro histórico da cidade – o Bairro do Recife – foi destinada à empreitada. Uma moderna rede de telecomunicações foi instalada entre antigos casarões coloniais, reformados à medida que o projeto se desenvolveu. Hoje, o Porto Digital reúne mais de 100 empresas, emprega cerca de 3 mil pessoas e gera renda para o estado. 

Contando assim, parece uma vida de louros. Mas Silvio também tem uma porção de erros e fracassos para listar. A diferença é que eles nunca o impediram de continuar tentando. “A cultura do ‘eu não disse?’, de quem critica sem ter feito nada para colaborar, reprime muito as pessoas no Brasil”, avalia. “É preciso recompensar a tentativa. Só depende de quanto se aprende com o erro. É fracassar e sorrir. Ainda teremos muitas realizações.”

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