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A tia de todos

A pequena revolução de Dagmar Garroux, a Tia Dag, foi enxergar o outro como igual. Daí para transformar a vida de 10 mil crianças da periferia paulistana pela educação foi um (grande) passo
Texto: Amanda Rahra // Foto: Marcus Desimoni
A tia de todos
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Dagmar Garroux morava com os pais e três irmãs num sobrado na Granja Julieta, bairro valorizado da capital paulista. Só o quintal da casa tinha mil metros quadrados. Ela formou-se em pedagogia na Universidade de São Paulo e, aos 36 anos, comprou, com o marido, artista plástico, uma casa para viver com os filhos, na Zona Sul, onde as ruas eram de terra e a sonhada vida tranqüila parecia possível: o Capão Redondo, em 1988.

Hoje, da laje dessa casa, vê-se um mar de favelas. São mais de 60, lar de 1,5 milhão de marginalizados da cidade mais rica do país. Dagmar está no coração do “triângulo da morte”, como é conhecida internacionalmente a região formada pelos bairros Jardim Ângela, Capão Redondo e Parque Santo Antônio, em cujos becos e vielas ocorre metade dos homicídios da capital. E, em razão de sua casinha bucólica ser rodeada por tudo aquilo que não se deseja, seu sonho se desmorona?

Bem, para Dagmar foi aí que o sonho começou. Primeiro ela percebeu que seu conceito de família era um pouco mais amplo. Assim, do tamanho de... um Capão Redondo. Depois, ela fez de sua casa um centro de educação, arte e cultura para as crianças sem futuro que a rodeavam: a Casa do Zezinho. Só então virou a Tia Dag, uma referência familiar segura para aqueles que ela acolheu em seu sobrado.

Sua família conta, atualmente, com 1,2 mil “Zezinhos” de 6 a 21 anos – e a fila de espera tem mais de 2 mil nomes. Eles são matriculados em escola pública e podem fazer ali aulas de música, teatro, informática, comunicação, reforço escolar, artes e gastronomia, além de receber atendimento odontológico e médico. Há 40 funcionários e 32 voluntários – 60% são ex-Zezinhos que saíram, foram estudar e voltaram ao ninho.

A instituição é considerada das mais bem-sucedidas experiências de educação não formal no Brasil. Tia Dag, seguidora do educador Paulo Freire, coleciona prêmios e histórias. Conheça um pouco essa mulher e essa família que não pára de crescer.

Sorria* – Como tudo começou?
Tia Dag – Sempre trabalhei com educação, mas era difícil me adequar às instituições de ensino. Na década de 1970, eu preferia dar aulas em casa para jovens de classe média, filhos de refugiados de guerra e ditaduras. Como ferramenta pedagógica, levava-os para a favela pra que eles convivessem com outras realidades, vissem crianças que estavam com um trauma havia mais de 400 anos,  que também tiveram sua cultura e sua identidade violentadas.  Em 1988, eu e o Saulo, meu marido, compramos uma casa para morar no Capão. Dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Era um bairro tranqüilo. Mas em pouco tempo foi invadido por famílias de baixa renda e favelas.A molecada começou a roubar dentro da comunidade, e o Esquadrão da Morte (organização clandestina de policiais que matava supostos bandidos) colava nos postes o nome de quem ia morrer se não saísse da favela em uma semana. Passei a esconder os meninos na minha casa. Então, falei pro meu marido: “Não vou mais trabalhar pra rico. Vamos pegar nossa casa e transformá-la na Casa do Zezinho”. (O nome vem do poema de Carlos Drumond de Andrade E Agora José?). Chamei minhas amigas da faculdade, e a cada dia uma faltava no emprego para trabalhar com as crianças.

E de onde veio o dinheiro?
Tia Dag – Começamos fazendo bingo, rifa... Em 1994, quando a Casa tinha 60 Zezinhos, um menino quebrou o dedo e o levei ao ortopedista. Ele voltou com o bracinho engessado e um McLanche Feliz. No dia seguinte havia cinco meninos com dedo quebrado. Pensei: que tipo de pedagoga eu sou?, não estou ensinando-os a reivindicar! Reuni os Zezinhos e disse que era bem mais fácil pedir o sanduíche do que se machucar. Na semana seguinte estávamos na lanchonete quando chegou um empresário, o João Batista Cardoso, e quis saber o que eu fazia com aquelas crianças. Depois de conhecer a Casa, perguntou: “Tia Dag, qual é o teu sonho?”. Respondi: “Mil crianças”. Ele juntou 20 empresários e comprou o terreno vizinho. João é meu vice-presidente até hoje.

“A escola pública está no século XIX: ainda bate sinal, todos
se sentam em fila, como em fábricas. Não pode! Trabalhamos
em roda, brincando, pelo prazer de aprender e ensinar”


Já passaram por apuros financeiros?
Tia Dag – Uma época a gente ficou sem dinheiro. A notícia logo se espalhou pelo Capão e um traficante me ligou oferecendo ajuda. Agradeci, mas disse não. Aqui não tem dinheiro sujo. Não somos refém de nada nem de ninguém. Só de Zezinho...

E cada Zezinho é um?
Tia Dag – Sempre procuramos saber das dificuldades de cada um pra tentarmos melhorar juntos. A escola pública, por exemplo, suspende um menino. A gente vai lá e pergunta se eles sabem o que está acontecendo na casa dele. Geralmente não sabem e pioram a situação. A escola está no século XIX. Ainda bate sinal, como nas fábricas, todo mundo se senta em fila, olhando pra nuca do outro. Você não vê isso aqui. Esses paradigmas têm de ser quebrados para que possamos trabalhar em roda, com brincadeiras, pelo prazer de aprender e ensinar.

E como eles chegam aqui?
Tia Dag – Com cicatrizes na alma. Chegam crianças de 7 anos sem sonho algum, sabendo apenas 3 mil palavras em vez de 5 mil – o que se apreende até esta idade. E, no vocabulário, muitos verbos no imperativo e frases agressivas:  “Se soubesse que você ia ser assim tinha te abortado”, dizem algumas mães. A oficina que mais tem ibope aqui na Casa é a de mosaico. Fiquei pensando muito no porquê disso... Sabe, eles estão juntando os próprios cacos! Esse jovem tem de trabalhar, mas também tem de se divertir, ter cultura, isso é parte da educação, do desenvolvimento do ser humano.

Já teve de juntar os cacos de sua vida?
Tia Dag – Sim, uma vez. Quando mataram meu pai. Ele tinha 72 anos – faz 12 anos. A gente morava num sítio em Itapecerica da Serra e um jovem entrou para roubar e meu pai reagiu. Tomou três tiros no peito. Completamente dilacerada, fui morar em Santo Amaro e fiquei um mês sem aparecer na Casa do Zezinho. (Silêncio). Você não tem o meu telefone, tem?

Não...
Tia Dag – O Capão todo tem. Aí uma criança me ligou e disse que acharam quem tinha matado meu pai e que iam matá-lo. Tive uma clareza: “Meu pai morreu em pé defendendo o que ele acreditava, a família. Eu vou morrer em pé, defendendo a educação para os pobres”. E voltei como um trator morro abaixo. Caramba, não era aquilo que eu estava ensinando: a matar, o olho por olho... Ou eu acredito no que eu faço ou vou embora.

E a sua volta, como foi?
Tia Dag – Cheguei às 6 da manhã e tinha uma criança no portão com um girassol. Ela sabia que eu ia voltar – elas sabem tudo – e disse que queria me dar a flor maior do mundo... Sou privilegiada. Como educadora, vivo uma troca constante com crianças e jovens. E recebo mil beijos por dia: é só sair andando pela Casa. O dia-a-dia é minha maior recompensa.

Qual é seu sonho, tia Dag?
Tia Dag – É ter uma Casa do Zezinho em cada esquina desta São Paulo, do Brasil, do mundo. Mas, pensando bem, meu sonho mesmo é não precisar mais de Casa do Zezinho.

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