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Editorial

Acima de tudo

Texto: Roberta Faria
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Princípios são como gostos: cada um tem os seus, frutos da própria história. Ao compará-los, podemos concordar, nos reconhecer, admirá-los – ou nada disso. Independentemente de quais sejam, conhecê-los é um exercício de sobrevivência. A vida não é um filme em que a diferença entre certo e errado é sempre óbvia. Há muitas possibilidades, que, não raro, nos deixam perdidos. Para isso, enfim, servem os valores: ao entendermos sua influência e aceitarmos a responsabilidade de defendê-los, ficamos mais seguros de quem somos e do nosso caminho.

Mas esse (quase) nunca é um aprendizado fácil. Minha primeira grande lição sobre princípios foi lá pela 5ª série. De repente, os pais dos meus colegas começaram a oferecer prêmios às boas notas dos filhos. Ou nem tão boas assim – se passasse de ano estava bom. (No fim do colégio, valia carro.) A própria escola estimulava a meritocracia material: aos melhores alunos do bimestre, distribuía medalhas douradas e caixas de bombom.

Ganhei muitas dessas. Mas prêmio em casa? Até tentei. Chegava com o boletim coalhado de notas 10, e comentava como quem não quer nada: “Sabe, o fulano vai ganhar uma viagem só porque tirou 8...”.

E meus pais respondiam sem piscar: “Não fez nada além da sua obrigação. E fez por você, não por nós”.

Às vezes era frustrante. Fui entender depois – e hoje agradeço. Estudar era nosso compromisso, e notas altas, o caminho para chegar à universidade. Se minha dedicação dependesse da recompensa, eu agiria pelo interesse material, não pelo valor da educação. Não era o que eles queriam. Honrar nossos princípios teria de ser minha escolha natural: sem cobranças nem expectativas. Sem questionar nem lamentar. Por mim e por mais ninguém.

A segunda lição foi a de que a única coisa pior do que ser excluída por não compartilhar um princípio é traí-lo para fazer parte do grupo. Quando tinha 13 anos, gostava de um menino da minha sala, tão tímido quanto eu. Minhas amigas, mais avançadas, já namoravam e quetais – e me deixavam boiando nessas conversas. Então, houve uma festa, e esse menino não foi. Mas outro, mais velho, que gostava de mim, apareceu. Elas insistiram em que eu falasse com ele. Cansada de ser chamada de criançona, fui. Acabou sendo meu primeiro beijo. Do qual me arrependi no minuto seguinte, e por muitos anos depois.

Meus pais tinham outro modo pouco sutil de me ensinar que as influências nada devem valer diante dos princípios. Quase sempre, a lição envolvia o seguinte diálogo:
– Mas, mãe/pai, todo mundo vai! (Ou as variações: todo mundo pode, todo mundo tem, todo mundo faz.)
– Problema deles. Você não é todo mundo. Você é nossa filha. E nossa filha não faz isso.

Precisei crescer para apreciar essa sabedoria. E entender que a pressão não precisa enfraquecer nossos princípios. Ao contrário: é na oportunidade de reafirmá-los diante dos outros que ficamos mais fortes. Por fim, a lição número 3: nunca estamos prontos, e é bom ter quem nos lembre disso. Quando me apaixonei por aquele que se tornaria meu marido, tinha todas as razões para isso. Mas o que me fez querer mudar minha vida para dividi-la com o Artur foram os princípios dele.

Os valores que ele carrega e defende em cada pequeno gesto me enchem de admiração e respeito. Nem sempre concordamos. E isso é ótimo, porque me faz rever posições que tomava como certas. Às vezes, as diferenças reforçam minhas crenças. Noutras, mudo, porque as perspectivas dele abalam meus ideais. O mais importante não é descobrir quem está certo. É, na verdade, ter ao lado alguém que me questiona – e me estimula a ser uma pessoa melhor e mais íntegra. É por isso que eu o amo. Porque, acima de tudo, é de princípios que somos feitos.

A Sorria é uma revista sobre valores, contados por meio de histórias. Nesta edição em especial, temos várias delas. Espero que elas também possam inspirar você a buscar o melhor na sua vida. Obrigada!

 

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Comentários:
O texto da doce Roberta sobre princípios me fez lembrar uma frase que uso há anos: "Honre seus princípios e não aceite menos do que merece". Uma educação baseada em princípios éticos é o maior legado dos pais aos filhos. E, novamente, a querida Roberta demonstrou aos leitores a importância dos princípios que seus pais lhe transmitiram, e formaram esta pessoa que escreve de forma a sempre tocar o coração do leitor.













Lígia Maura Sparapani
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