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Além do alcance

Aos 17 anos, Dorina Nowill era uma dedicada e talentosa estudante, com um brilhante futuro pela frente. Subitamente, porém, foi-lhe negado o acesso à informação e à cultura. Vítima de uma doença nos olhos, ela ficou cega numa época em que, no Brasil, não havia a preocupação de adaptar o conhecimento escrito a quem não podia enxergar. O que ela fez? Ousou se matricular numa escola comum, para estudar magistério. E então fez seu brilhante futuro, de fato, começar.
Ainda estudante, ela convenceu a direção da escola Caetano de Campos a implantar um pioneiro curso de qualificação de professores para o ensino de cegos, em 1945. Após se formar, obteve uma bolsa de estudos para se especializar na área de deficiência visual nos Estados Unidos. Aos 27 anos, com um grupo de amigas, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, atual Fundação Dorina Nowill. Ao completar 63 anos, a instituição orgulha-se de possuir a maior gráfica braile da América Latina e de fornecer, anualmente, cerca de 40 mil publicações acessíveis a deficientes visuais, entre vendas, empréstimos e doações. Atuando junto ao poder público, Dorina, 90 anos lúcidos completados em 2009, também colecionou várias vitórias, como a regulamentação da lei que garante o direito dos cegos à educação. Na entrevista a seguir, ela fala sobre os valores que a ajudaram a construir essa inspiradora trajetória.
Por que, depois de já ter garantido sua inclusão social, a senhora decidiu dedicar a vida aos problemas dos outros?
Dorina – Eu não estava lá para atingir uma solução para o meu problema. Estava lá porque tinha diante de mim algo que a vida havia encaminhado para que eu participasse da solução. Nesse caso, o que seria bom só para mim não entraria em cogitação. Tinha de pensar no todo. Havia uma coisa que era imprescindível aos deficientes visuais, que era a inclusão, e tínhamos de descobrir como chegar a isso.
Qual a diferença entre agir para si e para o próximo?
Dorina – É preciso ter humildade para saber o que é melhor para o outro. Muitas vezes, não é o que é melhor para a gente. Criamos a organização porque precisávamos de uma obra que pudesse suprir muitas necessidades dos cegos. Tínhamos de analisar qual a necessidade desse grupo específico, se era voltada mais para o trabalho, para a educação, para a reabilitação. Às vezes, era preciso desmanchar todos os croquis da organização que você queria fazer, porque, quando ia ver, não era bem aquilo. O melhor é o que o outro espera.
Nestes seus 60 anos de luta, a senhora nunca desanimou?
Dorina – Nunca pensei em desistir, não. É que sou teimosa, sempre fui, é do meu temperamento. Porém, nem sempre consegui o que queria. Mas “aceitação” é uma palavra que tem um grande significado na vida. Muitas vezes temos de aceitar as coisas como elas vêm. Tem gente que acha que isso é covardia, prefere se prender à revolta, que é destrutiva. Bobagem. Tem de olhar para a frente, fincar o pé firme. Tantas vezes a gente luta, espera, não dá certo, vê a coisa quase se destruir, desaparecer... Mas um dia ela reaparece brilhante por outro lado.
Fé na vida, então, é fundamental?
Dorina – Um padre uma vez me disse: “Você tem muita fé. Será que, se pensasse com força, Deus não lhe faria voltar a enxergar?”. Respondi que não achava que Deus mudaria a natureza só para que eu pudesse enxergar – e não achava que eu poderia exigir isso. Mas, ao mesmo tempo, não duvido do poder da fé. Da nossa força de não desistir enquanto tiver algum convencimento de que aquilo pode ser realizado e que é bom. O amor que temos pelas realizações que conquistamos e pelas pessoas que conhecemos no caminho da vida é combustível. Não se pode desistir quando se faz o bem. É preciso prosseguir, empilhar o seu tijolinho.
Tijolo a tijolo. É assim que se constroi?
Dorina – Sem a colaboração de todos, ninguém faz nada. Precisa de compreensão e colaboração. Cada um tem valor e é importante para construir uma grande obra. Aceitando o valor da pessoa com quem você trabalha – embora muitas vezes haja discordâncias –, o ideal
do conjunto permanece. O que nos derruba é a arrogância de acharmos que sozinhos sabemos o que é bom.
Como é possível para a sociedade civil influenciar o poder público? Protestando? Propondo soluções?
Dorina – Ouvi certa vez de um secretário de Educação, quando estava requerendo verbas para livros do primário, que eu tinha muita ilusão, não podia pensar que ia conseguir aquilo. Ele disse: “Espero que você seja bem-sucedida, mas vencer toda essa burocracia é difícil”. É difícil, sim, mas não impossível. Se você acredita, vai encontrar as formas. Trabalhei muito próximo do poder público, batendo em porta de gabinete, conversando. Há pessoas que acreditam em protesto, e às vezes vejo que os grupos que batem perna na Avenida Paulista também conseguem coisas. Quem se mete a fazer um trabalho que necessita da contribuição do governo, ou de qualquer grupo profissional que possa ser intransigente, precisa ter paciência, esperar a hora certa. E persistir.
O que cada um de nós pode fazer por um mundo melhor?
Dorina – Podemos fazer o que está a nosso alcance. A Helen Keller (norte-americana que ficou cega, surda e muda ainda na infância e se tornou escritora, filósofa e ativista pelos direitos dos deficientes) tem um pensamento muito bonito e verdadeiro. Ela diz que, quando alguma coisa nos deixa muito decepcionados e tristes, é uma porta que se fecha. Mas ficamos tão concentrados na que se fechou que não temos capacidade de ver as dez que se abriram a nossa frente. Então, antes de desanimar, vamos procurar. Quem sabe a gente acha uma das dez?


















































