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Alguém para te ouvir

2h15 da madrugada. Depois de três tentativas ligando para o 141 – “No momento todas as linhas estão ocupadas” –, alguém responde: “CVV, bom dia”. Quem me atende é Rosemeire. Mas seu nome pode ser outro. Minha identidade também não é questionada. Não importa: para ela, eu sou alguém que precisa falar; para quem liga, ela é a atenção anônima que pode significar a diferença entre a vida e a morte.
Rosemeire é uma dos 2.500 voluntários do Centro de Valorização da Vida, o CVV, organização fundada em 1962 para prevenir o suicídio. Uma pessoa é atendida a cada 33 segundos, por telefone, e-mail, chat online (no site www.cvv.org.br) ou presencialmente. São 41 postos, cada um com cerca de 50 voluntários, em todos os estados do país. O serviço é 24h e gratuito. Em 2009, foram 1,1 milhão de telefonemas.
“Nas festas de fim de ano há um aumento de 15% nas chamadas”, conta Antonio – ou qualquer que seja seu nome verdadeiro –, plantonista voluntário há 10 anos, nas madrugadas das quartas-feiras, no posto da Vila Carrão, em São Paulo. É ele quem nos conta mais sobre este serviço, que acolhe sem pedir nada em troca, salvando vidas e nos ensinando a importância de saber ouvir.
Como surgiu o CVV?
Antonio – Em 1962, um grupo de cerca de 20 pessoas em São Paulo decidiu fazer algum trabalho voluntário para a comunidade. Visitaram diversos locais onde poderiam atuar. No Hospital das Clínicas, perceberam que tinha muita gente que havia tentado o suicídio, e resolveram trabalhar na prevenção. O primeiro telefone foi instalado numa casa, no centro da cidade. A divulgação foi feita boca a boca e por meio de panfletos. Como o telefone não parava de tocar, a iniciativa foi expandida.
Só liga quem pensa em se matar?
Antonio – Não. Este é um trabalho de atendimento àqueles que estão passando por alguma dificuldade, por um momento de tristeza ou até mesmo por um fato feliz em suas vidas, e que não têm com quem compartilhar.
Então a maioria das pessoas quer simplesmente ser ouvida?
Antonio – Sim. Aqueles que sentem vontade de conversar com alguém e têm receio de compartilhar com as pessoas mais próximas, geralmente com medo de serem julgados ou de não serem compreendidos, podem ligar para o 141. Certamente haverá um atencioso voluntário disposto a ouvir, sempre com muito respeito e isenção.
Mesmo com as várias formas de comunicação de hoje em dia, as pessoas se sentem sozinhas...
Antonio – Falta tempo, atenção, sensibilidade e abertura para não julgar os sentimentos alheios. Nossos voluntários são orientados a não avaliar se uma história é mais ou menos importante. Não limitamos o tempo da ligação: a pessoa desliga quando bem entender. Nem perguntamos o nome, porque não importa. Qualquer um é uma oportunidade de ajudarmos. Tanto que para o CVV não existe trote. Toda ligação é válida.
Que tipo de assunto as pessoas mais compartilham com vocês?
Antonio – Geralmente querem se livrar de um sofrimento: perdas de pessoas próximas, desemprego, fim do casamento, incerteza quanto ao futuro, descoberta de uma doença, mudança de vida, solidão... No final de ano, muitos ligam porque estão longe da família. Mas há também quem telefone porque perdeu um animal de estimação ou para reportar fatos cotidianos, que podem ser até felizes, como passar no vestibular.
Ouvir é uma ação passiva?
Antonio – Não. É uma relação de troca e acolhimento. Mesmo por telefone, pois precisamos estar atentos ao tom de voz, velocidade, respiração, suspiros, choro, agressividade, silêncio... Às vezes há ligações mudas em que não há um diálogo verbal, mas sim emocional. A pessoa não consegue falar e o voluntário fica ali, quanto tempo for preciso, até que o interlocutor ganhe coragem para conversar ou simplesmente desligue. A gente sempre tenta passar confiança para que a pessoa possa se abrir.
Você destacaria alguma ligação em especial dentre as que já atendeu?
Antonio – Todas são especiais. Mas nunca as partilhamos. O que escutamos aqui, fica dentro da gente. Certa vez, num encontro de voluntários, uma mulher disse que só estava ali, viva, por nossa causa. Nunca soube o nome dela, mas me senti muito gratificado.
O CVV é mantido só por voluntários?
Antonio – Sim. Cada um contribui com quanto pode. Também fazemos bazares, bingos e festas para arrecadar dinheiro.
Como se tornar um voluntário?
Antonio – Basta acessar nosso site (www.cvv.org.br) e preencher o formulário, que entramos em contato. É preciso ter mais de 18 anos. A página também mostra os endereços e telefones de nossos postos, e informa sobre os cursos de formação, que servem tanto para capacitar novos voluntários quanto para reciclar os que já trabalham com a gente.
Que aprendizados o trabalho no CVV trouxe para a sua vida?
Antonio – Este é um lugar que contribui para que eu possa focar no outro, ajudando-o a encontrar suas próprias respostas. E à medida que este exercício se aprimora, começa a fazer parte da gente. Por exemplo: mesmo com a correria do dia a dia eu logo percebo quando minha filha não está muito legal. Paro um instante, olho nos olhos dela e abro um canal de diálogo para tentar saber o que está acontecendo. Me sinto muito mais tolerante e atento.


















































