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Amanhã de manhã

O relógio já despertou. O sol está entrando pela janela da cozinha. Mas parece que o dia só começa mesmo quando eu abro o pote do pó de café e sinto o cheiro amargo e reconfortante tomar conta do ambiente. Confesso que é um ritual novo na minha vida. Quando eu era criança, ouvia minha mãe falar que deveríamos jantar como plebeu, almoçar como príncipe e tomar café como rei. Mas eu nunca hesitei em dispensar a majestade para ficar mais um tempinho enrolado debaixo das cobertas. Foi assim até juntar as xícaras com minha esposa. Uma das contribuições que ela trouxe ao nosso novo lar foi o costume do café da manhã em família – o que, para mim, até então, era coisa de novela ou de comercial de margarina. As mesas que preparamos são mesmo dignas de horário nobre: torrada com geleia, pão fresquinho com manteiga, frutas, suco, café, leite... Mas há algo ainda mais gostoso que saborear todas essas delícias. Elas são apenas complementos do que realmente faz desse momento o mais especial do dia: nossa cumplicidade matinal. Com os cabelos despenteados e os olhos semiabertos, ainda embaraçados com o primeiro contato com a luz, somos pessoas de verdade, dividindo nossa intimidade e projetando o dia que virá. Se na agenda há alguma incomodação à vista, sei um jeito fácil de torná-la pequena como uma migalha de pão: é só lembrar que logo o relógio vai despertar de novo, o sol vai nascer, aquele cheiro amargo vai se espalhar pela cozinha, e eu vou servir mais um café para nós dois.



















































