Droga Raia

Twitter Facebook Flickr Orkut Delicious RSS
dê uma nota para esta matéria:
Participe:

crescer

Amor é...

Texto: Nina Weingrill e Roberta Faria // Ilustração: Adriana Komura // Foto: Daniela Toviansky
 
Amor é...
AumentarDiminuir

Amor não é algo em que se acredite ou não. O sentimento mais forte que podemos ter por alguém é, antes de tudo, o princípio das relações humanas. Por amor, nos dispomos a cuidar e proteger uns aos outros. Com ele, criamos vínculos capazes de superar diferenças e distâncias, de vencer o peso do tempo e do cansaço. O amor que recebemos — da família, dos amigos, das paixões, de nós mesmos — nos torna mais fortes, equilibrados, generosos e felizes. O amor que doamos também. Por amor, arriscamos no incerto e acreditamos no futuro. É o amor que nos inspira a dar o melhor de nós e a esperar o melhor para os outros. Sob seus efeitos, perdoamos, mudamos, fazemos escolhas, amadurecemos.

Mas se o amor é universal, a forma como o transformamos em relacionamentos é particular: cada um tem a sua, fruto de sua história, do seu tempo, da pessoa ao lado. Enquanto na família ou entre as amizades encaramos o amor de forma tranqüila e espontânea, tudo muda quando se trata do sentimento praticado a dois. E andamos por terreno inseguro, influenciados por histórias românticas, cheios de dúvidas sobre o certo e o errado, o que queremos e o que precisamos, o que esperamos e o que estamos dispostos a dar.
 
Visto assim, amar é simples e natural. Relacionamentos, não. “Porque envolvem mais do que um sentimento: dependem também de convivência, de autoconhecimento, de companheirismo, sedução... e mais uma lista particular e infinita de necessidades”, diz Thiago de Almeida, especialista em relacionamentos do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Não é à toa que contos de fadas e filmes românticos terminam com “felizes para sempre” depois do grande beijo do casal. O que vem daí pela frente é um mistério: não há fórmulas para o amor funcionar, porque cada relação é única — e, a despeito de expectativas e esforços, carrega o peso das coisas que não controlamos, como os sentimentos e as vontades do outro.

Essas questões são recentes. Por 500 anos, nossa sociedade não viu o amor como requisito para a realização pessoal, conta a historiadora Mary Del Priore, autora de História do Amor no Brasil. A prioridade era casar para garantir a segurança econômica. Por influência da Igreja, o prazer era malvisto. As famílias controlavam as relações dos filhos como se fossem negócios. A liberdade só foi acenar nos anos 1960, quando revoluções culturais mudaram o papel da mulher e alteraram a escala de valores da sociedade, dando preferência à satisfação individual no lugar de fazer as coisas por mera obrigação. Desde então, esses conceitos se fortalecem a cada geração.

O melhor exemplo dessa transformação é a nossa própria história. Há 100 anos, sua avó acreditava que era preciso casar virgem — e aquelas que não seguissem a regra seriam rejeitadas. Hoje, o inverso é muito mais comum. Você não precisa mais envelhecer com alguém que lhe chateia: pode se separar e casar quantas vezes quiser. Ou pode ficar solteira — e, ao contrário do que aconteceu com aquela sua tia, é provável que os amigos com aliança no dedo lhe olhem não com pena, mas com invejinha. Se der na telha, pode namorar várias pessoas. Pode amar alguém do mesmo sexo e contar para todo mundo. Pode falar sobre o que sente e mudar de idéia. Se deixa de ser uma obrigação, o amor fica à mercê das nossas escolhas, e cabe a cada um decidir o melhor para si. O que é maravilhoso. E muito mais complexo.

...Saber viver

Kinuyo e Takashi Uemura aprenderam que o amor é uma escolha que se faz todos os dias. À primeira vista, o casamento deles parece à moda antiga: são 27 anos de uma união que é modelo para o resto da família. Mas nada foi arranjado. Kinuyo era uma menina de 9 anos quando conheceu e se apaixonou por Takashi, o primo dez anos mais velho que nem reparava nela. Adultos, tornaram-se amigos e namoraram outras pessoas. Até que Takashi a convidou para sair. “Não levei a sério, porque sempre saíamos. Mas, na volta, ele parou o carro e me beijou. Começamos a namorar, vinte anos depois de nos conhecermos”, conta Kinuyo.

A união com alguém já tão familiar rendeu a Kinuyo e Takashi um casamento sem grandes novidades, mas cheio de cumplicidade. Montaram uma casa atrás do escritório de contabilidade dele e passaram a trabalhar juntos. O tédio do tempo foi vencido com o esforço constante para manter o clima de namoro. “De manhã, faço Takashi me dar um beijo de tchau, mesmo sabendo que ele vai estar a alguns metros de distância. Assistimos à novela de mãos dadas. Ainda digo ‘eu te amo’ e quero dormir abraçada”, conta Kinuyo. Para Ricardo Monezzi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), manter vivo o amor depende mesmo de buscar, dia a dia, maneiras de se redescobrir. “O carinho é uma delas, porque alimenta a relação”, diz.

Takashi se expressa com presentes. Aos 69 anos, ainda leva para Kinuyo, hoje com 59, bichos de pelúcia e caixas de chocolate toda semana. Nem sempre o mimo agrada. Com o fogão foi assim. Takashi chegou com um novo em casa. Kinuyo gostava do velho. Não se desfez dele, mas passou a usar o novo quando divide a cozinha com o marido. “Gostando ou não, me esforço para usar os presentes, porque sei que é de coração.” A idéia de que o amor pede verdade absoluta é um mito, dizem os especialistas. Não se trata de mentir, mas de dosar a sinceridade. “Ninguém gosta de ouvir ‘adoro você, mas hoje você não está bonita’. Se a pessoa está bonita 99% do tempo, você finge que ela está bonita 100% do tempo”, diz Martin Portner, neurocientista especializado em amor. Menos atrito, mais diplomacia.

Razões para brigar nunca faltam a um casal, do presente errado a grandes questões, como ter ou não filhos. Por serem primos, Takashi e Kinuyo não puderam ser pais. Viver apenas em dupla poderia ter desgastado a relação. “Todo relacionamento precisa de mudança”, fala Ricardo Monezzi. “Os filhos ajudam a fortalecer o vínculo do casal, porque trazem um componente em comum ao relacionamento: cuidar da prole. É como se a relação escalasse mais um nível. O mesmo acontece quando chegam os netos. São ciclos de renovação”, afirma.

Como não há fórmulas, Kinuyo e Takashi transformaram a impossibilidade em razão para se aproximar. “Vejo que muitos casais brigam mais por causa dos filhos. Se não temos com quem contar além de nós mesmos, ficamos mais unidos”, diz Kinuyo. Dados do Instituto Gottman, centro de pesquisas americano especializado em relacionamentos, confirmam essa intuição. Quem tem crianças discute oito vezes mais do que quem não as tem. Então, se ter filhos aumenta as brigas e não tê-los empobrece a relação, qual a saída? Talvez não esteja nessa decisão, mas na atitude: aquela escolha diária entre brigar ou resolver,  gritar ou conversar, impor ou pedir, insistir ou abrir mão.

...Abrir-se para o novo

Quando Claudia Lima se casou, estava escolhendo sua independência. Tinha 15 anos e queria sair de casa, descobrir o amor, construir uma família. Foi morar com o namorado, seis anos mais velho. O casamento durou sete anos. O fim começou quando as escolhas viraram concessões que ela não se sentia bem em fazer. O medo de se separar e dar conta das duas filhas pequenas prolongou a convivência, mas não foi o bastante. “Vivia uma relação sem amor nem confiança. Demorei para criar coragem, mas percebi que, se não havia futuro, melhor tentar dar certo sozinha”, conta.

Claudia, hoje com 26 anos, faz parte de uma estatística crescente no Brasil. Em 2007, a cada quatro casamentos, um foi desfeito, somando o maior número de divórcios já registrado. O aumento reflete os processos jurídicos menos burocráticos para se separar. Mas mostra também uma nova filosofia, menos paciente com o sofrimento e com os modelos de união que atravessam décadas mesmo quando o amor vira amizade fraternal ou acomodação. A média de duração dos casamentos que terminam em separação é de apenas 10,5 anos.

“As pessoas ainda resistem a procurar o prazer, têm medo da crítica e da rejeição. Mas, quanto mais se afrouxa a repressão, mais o amor e o sexo serão encarados como escolhas individuais, em busca do que é importante para nós”, diz Regina Navarro Lins, psicóloga e autora de A Cama na Varanda. Claudia enfrentou seus medos e aproveitou o tempo de solteira para se conhecer melhor e namorar outros homens. Ainda não sabia bem o que procurava, mas já tinha claro o que não queria. “As pessoas carregam marcas de seus relacionamentos amorosos e familiares. Se bem-sucedidos,  tornam-se referências. Caso contrário, nosso instinto é evitar esses padrões”, diz o neurocientista Martin.Claudia, sem bússola, encontrou o amor onde menos esperava.

Foi no trabalho, em um bufê de festas em São Paulo, que ela conheceu Banzai Cavalcante, 39 anos. Logo se tornaram as melhores amigas, do tipo que atravessam noites em longas conversas. “Comecei a sentir que era mais que amizade três meses depois. Nunca tinha pensado em me interessar por outra mulher, fiquei completamente confusa”, conta Claudia. Até que o primeiro beijo entre elas aconteceu. “Chorei demais. Ao mesmo tempo sentia algo muito forte pela Ban e sabia que ela poderia ser tudo o que nunca tive em um relacionamento, minha cabeça era um conflito só.”

A experiência de Claudia é outra característica dos relacionamentos do nosso tempo: a abertura para amar pessoas, independentemente de quem sejam. “Buscamos o chamado amor confluente. Mais real e menos idealizado, ele se baseia na satisfação dos parceiros. Cada um procura no outro aquilo de que necessita: sexo, companheirismo, respeito... Em quem você vai encontrar isso independe de ter ou não inclinação homossexual”, diz Thiago de Almeida, do Instituto de Psicologia da USP.

Como define o antropólogo canadense John Lee, autor de Colors of Love (na tradução, As Cores do Amor), não existe uma forma de amor legítima ou superior. Existe apenas o amor que dá certo, e ele não segue regras. Homossexual assumida, Banzai ajudou Claudia a entender isso. “Ban me explicou que o conflito que eu sentia era normal. Mas que todos tinham o direito de buscar a felicidade. Foi aí que percebi que nunca havia amado ninguém. Acreditava em relacionamentos, mas não no amor”, diz Claudia, que falou pela primeira vez na vida “eu te amo” há um ano e meio, quando as duas começaram a namorar.  Hoje moram juntas com as filhas de Claudia, Gabriela, de 10 anos, e Joyce, de 6, que adoram Ban a ponto de chamá-la de pai. “Amar Ban foi a melhor coisa que me aconteceu.”

...Fazer escolhas

Danuza Leão sentiu o amor três vezes. Na primeira, foi em uma cadeia, aos 19 anos. A convite de um amigo, foi visitar o célebre jornalista Samuel Wainer. Naquele ano de 1952, Samuel fora preso por questões políticas envolvendo o jornal que comandava, o Última Hora. “Não sabia se ele era da máfia, aliciador de mulheres ou assaltante de bancos”, conta Danuza, então uma musa das altas rodas cariocas, que vivia bem longe do conturbado universo do jornalista. Mesmo separados por um mundo de distância, os dois se encantaram um pelo outro. Assim que Samuel foi solto, começaram a namorar. Danuza logo engravidou; Samuel adorou. O pai dela exigiu casamento, e eles se uniram em um cartório, para nos anos seguintes se tornarem um dos casais mais badalados do país.
 
Com Samuel, Danuza teve três filhos, viajou o mundo e testemunhou os mais importantes acontecimentos da vida política, econômica e cultural do mundo durante as décadas de 1950 e 1960. Mas o glamour não refletia a solidão que ela sentia. “Durante o dia, eu vivia a vida das crianças; à noite saíamos. Nas raras vezes em que ficávamos em casa, ele recebia algum político. Quando ia deitar, eu já estava dormindo”, lembra. A despeito das outras qualidades do marido, a escala de prioridades dele e a falta de tempo a sós começaram a incomodá-la.

Descobrir quem somos e o que queremos é coisa que acontece quando já estamos dentro do relacionamento. “Precisamos do outro para descobrir isso”, fala Ricardo Monezzi, da Unifesp. É por isso que aquela pessoa ótima pode simplesmente não combinar, ou a vida dos sonhos ser frustrante na prática. “Quando amamos, nos descobrimos. Se a pessoa não traz o que você precisa, é melhor continuar seu caminho, buscando evoluir do ponto em que parou”, diz Ricardo.

Aceitar esses limites naturais das relações — e entender que o desencontro pode não ter culpados nem conserto — é doloroso, mas necessário para encontrar  a paz. “Samuel me estimulava a ser cada vez mais eu mesma. Ele achava que essa era a estratégia para conservar um casamento. Costuma ser, só que não foi. Aconteceu na hora errada. Se nos encontrássemos agora,  aos 75 anos, duraria para sempre.”

Naquela época, Danuza queria companhia e atenção. Acabou se apaixonando por outro homem, o também jornalista Antônio Maria. “Ele era inteligente, sensível, divertido. Ficamos amigos assim que nos conhecemos”, lembra. Antônio a conquistou por saber ouvir. “Ele tinha todo o tempo do mundo não só para escutar qualquer problema meu, como para discutir e aconselhar. Era exatamente do que eu precisava”, conta. O casamento com Samuel acabou. E um novo, com Antônio, começou.

Era uma paixão daquelas que fazem a gente achar que sem o outro morre. Poderia ter se acalmado, mas com eles foi ficando sufocante. Antônio era ciumento, queria que Danuza se encolhesse. Ela, envolvida, desabalou a aceitar as decisões dele só para agradar. “Nessas horas, não adianta ninguém dizer nada, pois apaixonados são cegos e surdos”, fala. Apesar do afeto, ela foi murchando. “Mudei de personalidade. Antônio também”, lembra. Começou a desconfiar de que o amor não era tudo, e não valia a pena renunciar à vida por uma relação.  Depois de quatro anos juntos, Danuza deixou Antônio.

Achar que a pessoa é o grande amor e se frustrar com a vida real é um engano comum. “A paixão é construída em torno da idealização do outro”, diz a psicóloga Regina Navarro Lins.  Mas a convivência evidencia todas as características do amado — inclusive as mais desagradáveis. A magia acaba e, se não aprendemos a gostar da pessoa como ela realmente é, nos desencantamos. Mas doído mesmo é tentar fugir disso e ceder ao que nos faz mal só para preservar uma relação que já não funciona. “Quanto mais concessões, mais hostilidade surge, minando o relacionamento até torná-lo insustentável”, diz Regina.

As experiências ensinaram Danuza a respeitar seus limites. “Não sabia o que me esperava depois dessa separação, mas estava decidida: a única dona de minha vida seria eu”, diz. Em 1972, conheceu o terceiro marido, o jornalista Renato Machado. Em dois meses moravam juntos, tranqüilamente apaixonados. Mas, mais uma vez, ela teve de escolher: “Apesar de gostar muito de mim, Renato não podia ver um rabo-de-saia”. O casamento acabou em quatro anos. O fim é sempre melancólico, mas viver mal é pior.  “Não vejo nenhuma razão para cultivar a infelicidade”, diz Danuza.

Bem, e esses percalços não querem dizer que o grande amor, aquele que fará a gente feliz para sempre, ainda não chegou? Não. Isso — e também a cara-metade, a alma gêmea, o príncipe encantado, o par perfeito e o final feliz — são invenções. Chamado de amor romântico, esse mito é debatido desde a Grécia antiga. Nossa existência é solitária a partir do momento em que nascemos. Imaginar que alguém irá completar nossas falhas, preencher nossas carências, iluminar nossa vida e nos amar loucamente pela eternidade é reconfortante — e irreal. “Esse mito impede a liberdade e gera infelicidade quando indica apenas um caminho para o amor”, diz Regina.

Mas há mudanças no ar, e esse ideal vem enfraquecendo. Ainda assim, de vez em quando, numa sessão da tarde ou ao conhecer uma pessoa nova, podemos suspirar desejando uma solução mágica para o amor. Normal. “Aprendemos a desejar esse tipo de amor como se fosse o verdadeiro”, diz Regina. “Amamos estar amando. A questão é que, nesse modelo, criamos expectativas equivocadas. Achamos que podemos nos tornar um só. E isso é impossível.” Para ela, a tendência é buscar cada vez mais a individualidade. “Não como algo negativo, mas que, em vez de pregar a fusão entre os dois, pratique a liberdade.” Um amor em que a gente se mostre e se aceite sem disfarces. Que se baseie na amizade e no qual cuidamos de nós tanto quanto do outro. Um amor, enfim, em que nos sentimos inteiros e capazes de viver bem sozinhos — e, só então, para somar e não para preencher o vazio, fará sentido estar com alguém.
 

dê uma nota para esta matéria:
Participe:
Comentários:
ohhhhhhhh! que bom ler uma materia realista sobre amor, que ainda assim deixa a gente querendo se apaixonar...
Rita Fassone
Envie seu comentário:
Nome (preenchimento obrigatório)
E-mail (preenchimento obrigatório, mas não será publicado)
Website
Realização:
Patrocínio:
Instituições beneficiadas:
Medley P&G Kimberly-Clark Reckitt Benckiser EMS
EDITORA MOL Rua Andrade Fernandes, 303, sala 3, Alto de Pinheiros, São Paulo / SP | Email: contato@revistasorria.com.br | Telefone: (11) 3024-2444
2009 - 2010 Editora Mol. Todos os direitos reservados