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Aos mestres, com carinho

Todo mundo tem um professor inesquecível. Aquele bravo, das provas mais assustadoras, pra quem não se pedia nem licença para ir ao banheiro. A amalucada, que falava coisas que professores sérios jamais diriam e nos obrigava a rever conceitos. O amigão, que conversava de coisas que nem eram da aula e fazia a gente se sentir mais adulto. A linda, por quem os meninos suspiravam e de quem as meninas queriam ser amigas. Os que faziam perguntas sem respostas prontas. Lembra aquele debochado, que inventava música para decorar a fórmula e botava apelido na turma do fundão? Ah, e os empolgados, que gostavam tanto do que ensinavam que acabavam fazendo a gente gostar também. E tinha, ainda, os professores sem o título, mas cumpriram a função: pais inspiradores, autores que nos tocam por livros, chefes acolhedores, pessoas exemplares...
Mais do que ensinar a lição, bons professores fazem com que a gente se apaixone por saber. Despertam vocações, nos obrigam a tentar até conseguir. Pegam pelo ponto fraco e cutucam tanto que acabamos mais fortes. Ou descobrem um talento que nem a gente acreditava ter e fazem florescer. Por causa de um professor assim, aprendemos mais, mudamos de idéias, descobrimos o mundo e nós mesmos. Se chegavam a dar frio na barriga antes de entrar na sala, é porque gostávamos tanto deles que queríamos impressionar. Pode ser um momento ou uma relação que dura a vida toda. Grandes mestres se tornam parte do que nos tornamos, e, mesmo sem vê-los, anos depois ainda somos capazes de ouvir a voz deles na hora de cumprir uma tarefa difícil. A seguir, um punhado de histórias de professores que marcaram para sempre a vida de seus alunos.
Cair e levantar
Andrea Mattar, 24 anos, São Paulo, SP
A música vinha do prédio ao lado. O que seria? Aos 5 anos, Andrea viu várias meninas que bailavam, sapatilhas no pé. Na hora quis entrar para o balé. A professora, dona Nice, disse que ela era muito nova. Diante da insistência, abriu exceção. Foram quase 12 anos juntas. Quando o pai de Andrea adoeceu, dona Nice revelou ser também uma amiga. A menina quis desistir da dança, caía muito naqueles tempos. “Levanta, você vai conseguir”, dizia a professora. Hoje, Andrea dá aulas de ioga. Grávida, faz questão que a filha, Yasmin, conheça um dia a mestra que a ensinou a cair e a levantar-se.
Como no recreio
Ricardo Seola, 27 anos, Rio do Sul, SC
“Minha coordenação motora nunca foi exemplar, mas adorava basquete. Pela dedicação ou alegria em quicar a bola nas quadras surradas do colégio, chamei a atenção do professor Luciano, que me convocou para o time da escola. No torneio, senti o peso de jogar não só por mim, mas por uma instituição. Com a pressão, não fazia nada direito. Nenhuma cesta, nenhum passe, nem correr. Até que, do banco, ouvi do professor Luciano: ‘Joga como se estivesse no recreio!’. Um filme passou pela minha cabeça. Funcionou. Entendi como uma ordem para colocar disposição, descontração e toda alegria no que estava fazendo. Virou minha filosofia de trabalho. Até hoje, quando faço algo que me orgulha, é porque fiz como se estivesse no recreio.”

Paixão pela professora
Grivaldo Melo, 43 anos, Palmares, ES
Foi um ano de gracejos e declarações, até que Edlene finalmente aceitou namorar Grivaldo. Professora de matemática, ela o convenceu a voltar a estudar. Ele voltou para o 2° ano do ensino médio, e ela foi sua professora. Na sala, a moça meiga que ele amava se transformava em mestra rígida. Em uma prova, Grivaldo anotou a fórmula na carteira. Ela viu e não quis nem saber: tomou a prova. Ficaram brigados uns 15 dias. Anos depois, ele agradece. De aluno preguiçoso, virou aplicado, e cursou as faculdades de Letras e de Direito. E ainda por cima realizou o sonho de muita gente: casou-se com a professora.
Também fui assim
Amadeu Ito, 28 anos, São Carlos, SP
Final do 1º semestre de 2000, curso de Engenharia, última prova. Com notas péssimas, Amadeu precisava de 9 para passar. Varou a noite estudando. No dia seguinte, a prova começou às 8h. E Amadeu acordou às 9h... Saiu correndo de casa e chegou às 9h15: “Por favor, posso tentar?”. O professor Domingos Alves deixou. Dali a pouco, colocou um saco de papel na mesa dele. Amadeu faz cara de interrogação. Castigo? “Olha, rapaz, come aí, já passei por isso e sei como é.” No saco, um enorme pão de queijo. Não foi um dos melhores que Amadeu já comeu. Mas, com certeza, o mais memorável. A prova? Tirou 9,5.
Ajuda para enxergar
Maria Lila Brião, 71 anos, Rio Grande, RS
“Meus professores foram maravilhosos”, diz Maria. Aos 16 anos, ela perdeu a visão por causa de uma meningite. Foram dois anos sem estudar até que abrisse uma escola para cegos na cidade. Ali aprendeu o braille e pôde voltar aos colégios regulares, em um tempo em que era (ainda mais) incomum ter deficientes na sala de aula. Os mestres ajudavam como podiam: faziam ditados, deixavam a prova ser traduzida para a linguagem dos cegos. Com esse apoio, Maria terminou a escola e fez faculdade de Pedagogia. Inspirada por eles, hoje passa adiante o que aprendeu: dá aulas de braille na mesma escola em que estudou.
Disciplina é bom
Sandro de Medeiros, 37 anos, Maceió, AL
Era 1986. Os pais de Sandro, 15 anos, estavam preocupados. O rapaz tinha ido estudar em Maceió, mas as primeiras notas foram um desastre. Alguém sugeriu uma professora que dava jeito em quem não queria nada com nada. Para os pais de Sandro, um sonho. Para ele, um pesadelo. dona Celestina era rígida: “Sem ordem, não há progresso”, dizia. Com quase 80 anos, controlava todos com mão de ferro: quando o aluno ia mal, tinha de voltar depois da aula. Sandro cursou Administração e hoje é professor da Universidade Federal de Alagoas. Boa parte da culpa, ele reconhece, é de dona Celestina.
Geração em geração
Nice Carrança Tudrey, 57 anos, São Paulo, SP
Dona Cinira, codinome General Cinco Estrelas, tinha uma meta. Escrava liberta, sabia quanto a vida podia ser difícil para mulheres negras. Então obrigou as seis filhas a cursar o Magistério para ter uma profissão. Viraram professoras. Umas gostavam mais, outras menos. Djanira, hoje com 100 anos, adorava. Foi ela quem alfabetizou a geração seguinte. Sua sobrinha, Nice, foi uma das que aprenderam com ela. Virou professora de História. Outras primas seguiram o mesmo caminho, já não por necessidade, mas por vocação. Natália, filha de Nice, não leciona, mas admira tanto a profissão que acabou se casando com um professor, João, outro engajado na educação. Boa, dona Cinira.
Quem ensina?
Ronaldo Barata, 28 anos, São Paulo, SP
Pedro tinha 14 anos e uma malformação congênita que atrofiou o lado direito de seu corpo, por isso era discriminado. A aula de desenho, do professor Ronaldo, era a esperança de retomar contato com as pessoas. No início, Pedro não falava e chorava quando não dava conta. Mas Ronaldo prometera à mãe: não iria tratá-lo diferente. Alertou sobre a aula de perspectiva, feita com régua e esquadro, pois Pedro só usava uma das mãos. Disse ao menino que se virasse. E o garoto se virou: apoiava a régua com um grampeador e depois traçava a reta. Pedro aprendeu perspectiva. E o professor Ronaldo aprendeu muito mais.
Dura na queda
Katia Tonheiro, 46 anos, Campo Grande, MS
Dona Zilda era muito feia. Mais que feia; horrível. Não tinha pêlos. Usava uma peruca que escorregava da cabeça. Professora de português, botou a turma para estudar cada vírgula de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, para desespero de Katia. Ô, professora chata! Até que um dia, dona Zilda a chamou: “Vá ser escritora, você tem potencial”. O ódio virou amor. Katia passou a escrever no jornal da escola só para agradar à professora. Ela acabou seguindo pelo caminho das exatas. Ainda pensa em escrever um livro, mas acha que não tem talento. Sente falta de dona Zilda para convencê-la do contrário.
Um livro como mestre
Carlos Eduardo Falcão Uchôa, 71 anos, Rio de Janeiro, RJ
Carlos queria estudar Direito. Nas aulas preparatórias de latim, acabou descobrindo sua verdadeira paixão: a língua. O mestre que o ensinou isso não era de carne e osso, mas de papel e tinta. Um livro, Iniciação à Filologia Portuguesa, de Gladstone Chaves de Melo, o inspirou a trocar o Direito pelas letras. Anos depois viria a conhecer o professor Gladstone e até discordaria dele em alguns pontos. Tudo bem. Importante foi a semente plantada naquelas páginas, que dá frutos até hoje: o último livro de Carlos acaba de ganhar um prêmio da Academia Brasileira de Letras.
Ensino a distância
Vânia de Oliveira, 48 anos, Macapá, AP
O professor Munhoz ensinava literatura com um pé na Europa e outro no Brasil. As lições se misturavam com lembranças de viagem e mergulhos pela arte. Vânia ainda se lembrava daquelas aulas do colegial quando, anos depois, foi à França. Na volta, quis publicar um livro de crônicas sobre o país – e quem melhor para prefaciá-lo que o professor que lhe apresentou o mundo? Ao retomar o contato, criaram uma amizade epistolar. Nas cartas, Munhoz conta suas memórias e continua a fazer Vânia viajar. O assunto é tão bom que ela pediu licença e fez da correspondência um blog, no qual agora compartilha a sabedoria do mestre.
Jornada da alma
Felipe Simi, 23 anos, Bauru, SP
Felipe ficava envergonhado só de ouvir seu nome na chamada. Paulo Neves, professor de História e diretor de teatro, sugeriu que fizesse aulas no palco para se desinibir. No começo, sofreu. Na sala, era só decorar. No teatro, tinha o exercício emocional, difícil pra quem esconde os sentimentos. Na sala, era o protagonista, o CDF elogiado. Ali, só mais um no elenco, e tomava porrada. Mas, se o professor era duro, Felipe era teimoso. Treinou, aprendeu, gostou. Acabou ficando três anos no grupo. A cura da timidez foi apenas uma conseqüência dessa empreitada maior pelo autoconhecimento. Felipe não virou ator. Mas a bagagem dessa época ele carrega todos os dias.
Janela para o mundo
Juliana Parente, 27 anos, Barueri, SP
“Na 4ª série, na periferia de São Paulo, eu sonhava com o mundo. O mundo que uma das minhas professoras conhecia. Luiza era o nome dela. Alta, cabelo curtinho, olhos elétricos. Solteira aos 40 anos, sem filhos, adotava a gente. Foram dela as primeiras imagens que vi do Egito, minha paixão. Um dia, me convidou para ver as fotos que tinha tirado por lá. Passamos uma tarde juntas. Eu me transformei, em contato com o possível. Guardo até hoje um punhadinho de areia que ela trouxe do deserto. Continuamos amigas. Ela chegou a me levar para fazer vestibular. Exercia com amor o papel que escolheu: acreditar que o ser humano sempre pode ser alguém melhor.”

















































