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Aprender por toda vida

Por necessidade ou gosto, pelo exemplo ou erro, coisas úteis ou simplesmente divertidas. Aprender é o que nos faz humanos e felizes. Desistir disso é negar o que temos de melhor
Texto: Roberta Faria com reportagem de Amanda Rahra e Nina Weingrill // Foto: Rodrigo Braga // Ilustração: Indio San
Aprender por toda vida
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Marina nasceu na floresta, no interior do Acre. Por lá, não havia escola. Assim como quase toda a sua família, a menina cresceu sem saber ler nem escrever. Aos 14 anos, seu pai lhe ensinou a ver as horas e a fazer contas. Aos 16, quando se mudou para a capital, começou a alfabetização, freqüentando a escola noturna depois do expediente como empregada doméstica.

Quando tinha 12 anos, Paula foi mandada embora de casa. Mudou-se para outra cidade, para morar com a família de seu treinador de basquete. Seus pais queriam que ela fosse uma estrela do esporte. Paula, não. Enquanto repetia 100 vezes o mesmo movimento da cesta, se cobrando e sendo cobrada para não errar, desejou desistir.

O sonho de Denil era ser secretária. Mas se casou cedo, logo William e David nasceram. Resolveu, então, ficar em casa, ser mãe em tempo integral. Era bom, mas, conforme os meninos cresciam, ela se sentia um pouco... inútil. Mais uma frustração no rol, como não ter aprendido a tocar piano nem saber andar de bicicleta. Depois dos 40 anos, dá pra pensar nessas coisas?

Elas poderiam ter se conformado. Com a falta de oportunidade e apoio, com dificuldade e solidão. Poderiam ter se encolhido, diante das perspectivas incertas e da falta de confiança na própria capacidade. Mas resolveram aprender. Cada uma, a seu modo – pelo exemplo, com os erros, experimentando o novo, tentando –, encontrou um caminho para descobrir o que não sabia e crescer. Marina tornou-se Marina Silva, professora de história, senadora da República, ministra e a mulher mais respeitada do mundo nas questões de meio ambiente. Paula virou Magic Paula, jogadora da Seleção Brasileira de Basquete, medalhista em Olimpíadas e Jogos Pan-Americanos e uma das maiores atletas que o país já teve. Com os filhos crescidos, Denil Rossato, 65 anos, foi ser secretária médica, estudou espanhol e italiano, usa a internet como se fosse nascida nos anos 2000 e aprendeu a andar de bicicleta ainda outro dia. A história delas prova que aprender não é algo que se faz apenas sentado no banco da escola: é vivo, constante e está em toda parte – basta querer.

“Se aquilo que aprendemos na vida se resumisse ao que nos ensinam na escola, estaríamos perdidos”, fala Rubem Alves, filósofo, psicanalista e um dos maiores pensadores da educação no Brasil. Até porque a humanidade veio bem antes das formalidades de carteira, lousa e todos olhando para a frente, por favor. “Talvez o impulso básico do processo de aprendizagem seja a luta pela sobrevivência. Quando tem um problema, o homem se põe a pensar”, diz Rubem. Depois, vem a curiosidade – um desejo que a ciência não explica de onde nasce, sem razão prática. “É como uma coceira no pensamento quando defrontamos com algo intrigante.”

A vida ensina


Quando Marina Silva era criança, em Breu Velho do Seringal Bagaço, uma comunidade de extração de borracha no Acre isolada por rios e pela floresta Amazônica, sem escola nem médico, aprendia-se assim, por conta ou vontade. Marina não sabia ler, mas era esperta para a matemática aprendida com o pai, um homem sabido para o lugar e a época, os anos 1960 – ‘seu’ Pedro fez até a 4ª série. “Quando vendíamos a borracha, tinha a tara, um percentual descontado por causa da umidade do látex, de 17% em média”, conta Marina. Aproveitando que a maioria dos seringueiros era analfabeta, os patrões chegavam a roubar 40%. “Mas não de nós. Meu pai me ensinou a ficar de olho na balança, e eu sabia tirar 17% de tudo.”

Retomamos o desejo de conhecer ao mudar a forma de aprender:
trocando a obrigação de saber coisas úteis pelo
prazer de praticar o que gostamos




Por muito tempo, os saberes de Marina dependeram do que era visto e ouvido na família. “Vivia em um mundo encantado de velhinhos, meus pais, tios e avós, grandes contadores de histórias”, lembra. “Eram pessoas iletradas, mas que me ensinaram muito sobre o mundo, por uma maneira diferente de ver as coisas.” Sem cartilhas, teorias nem palavras difíceis, o aprendizado se dava na convivência e no diálogo, com romances de cordel e lendas da floresta, observando a natureza, imitando os adultos. “Até hoje, meu aprender é vivencial. Preciso interagir com a realidade, escutar as pessoas, observar como elas fazem, trocar o conhecimento.”

Quando, aos 16 anos, uma hepatite obrigou Marina a se mudar sozinha para a capital, Rio Branco, onde teria atendimento médico, surgiu a chance de aprender de outra maneira – a tradicional. Trabalhando como doméstica de dia, foi fazer à noite o Mobral, uma escola de alfabetização criada pelo governo militar. No primeiro dia de aula, quando a chamada era feita, ao ouvir seu nome, Marina levantou da carteira e foi à mesa da professora. “Quando eu chamo é para responder presente! Parece que é abestada!”, retrucou a dona. No dia seguinte, Marina faltou à aula, dizendo para si mesma que nunca mais pisaria naquela escola. Pensou melhor e voltou. No fim do ano, foi uma entre apenas três, dos 46 alunos, que passaram em todas as matérias.

Cinco anos depois, quatro deles de supletivo, Marina venceu o vestibular de História da Universidade Federal do Acre. Ao se formar, em 1985, virou professora. Não foi fácil. “Aprender nos moldes formais sempre foi um grande sacrifício. A falta de oportunidades nos deixa sem ânimo para manejar nossas ferramentas”, conta. “Tive de atuar nas brechas para continuar aprendendo e fazer aeróbica com o olhar para enxergar o lado positivo das coisas.” Ainda que árduo, funcionou. Pouco tempo depois de se formar, a carreira política de Marina começou a se misturar com as aulas, e ela iniciaria a trajetória que a transformou em vereadora, deputada estadual, senadora, ministra e autoridade internacional em meio ambiente.

Caixa de brinquedos

Essa ferramenta de que Marina fala – a curiosidade por saber – todos nós temos: é o que nos faz humanos. O interesse pode ser podado por uma escola que enfia goela abaixo assuntos entediantes, pela falta de estrutura e incentivo para explorar nosso potencial, ou pelos limites que nos impomos, em frases como “não tenho mais idade para isso” ou “não sei, não consigo, deixa pra lá”. Mas o desejo de conhecer pode ser retomado e exercido – desde que se mude a forma de encarar o aprendizado. Em vez de fazê-lo apenas pela obrigação de saber coisas úteis, como a tabuada ou dirigir, pode-se (e deve-se) aprender por prazer. Que seja empinar pipa, boiar no mar, contar piadas, cantar em chinês – o que quiser.

“Digo que o corpo carrega duas caixas: uma de ferramentas e outra de brinquedos”, fala Rubem Alves. Na das ferramentas, constam as utilidades. São construídas pelo conhecimento formal e compulsório da escola, como aprender a escrever e a fazer contas, e por habilidades práticas que desenvolvemos com a experiência em sociedade, como subir escadas e lavar louça. Na caixa de brinquedos moram as coisas inúteis, mas deliciosas. “São conteúdos e atividades que não levam a nada, como a música, dançar, beijos, pores-do-sol. Para que serve um poema? Só para nos dar felicidade. Não é uma ferramenta com fim prático”, diz.

Para Rubem, a melhor maneira de aprender é desenvolvendo as ferramentas certas para acessar o que mais lhe interessa na sua caixa de brinquedos. Ou seja, dane-se a física elétrica, se o que você gosta é de plantar jardins. Se as escolas e universidades não oferecem essa liberdade tão individual de optar pelas ferramentas que nos servem, a vida adulta ao menos dá a possibilidade de escolher o que se tem vontade de aprender. A limitação, aí, é outra: os preconceitos deixados pelo gosto amargo das lições chatas, pela sensação de que aprender é custoso, pela tola idéia de que se não for útil é perda de tempo, pelo medo de errar – resultado de experiências de aprendizagem frustrantes na infância e na adolescência. Difícil mesmo é não se deixar emperrar.

Baixando a guarda

Os pais de Maria Paula Gonçalves da Silva lhe deram a ferramenta de que ela precisava: o estímulo ao esporte. Aos 10 anos, Paula foi inscrita na equipe de basquete de sua cidade, Osvaldo Cruz, no interior de São Paulo. O que era brincadeira de criança aos olhos deles parecia um talento que precisava de incentivo. A solução seria levar a filha a outra cidade, Assis, a 154 km, para treinar em um clube maior. Paula, aos 12 anos, foi entregue à família do novo treinador, um casal de professores de educação física.

“A princípio, fiquei eufórica”, lembra ela, hoje com 46 anos. “Mas, assim que meus pais me deixaram, comecei a questionar se era isso mesmo que eu queria.”

Naquela época, Paula não pensava em ser profissional. Por muito tempo, sentiu-se triste naquela rotina disciplinada e solitária. Mas continuou, porque jogar era a atividade de que mais gostava em sua caixa de brinquedos. “Nessa fase e durante toda minha carreira nas quadras, muitas vezes duvidei de minha capacidade e pensei em desistir”, conta.  “Mas a vontade de aprender e o prazer em fazer – muito mais do que o talento – ajudam na persistência, e sem ela não chegamos a lugar nenhum.” Aos 14 anos, Paula foi convocada para a Seleção Brasileira de Basquete. Aos 15, era titular – a mais nova que já se tinha visto.   

Mas que ninguém imagine que, por haver ferramentas e gosto, o aprendizado não teve pedras no caminho. Até porque, Paula pensa, são elas que nos fazem crescer. “Só descobrimos nosso potencial na adversidade”, diz. “É no erro que aprendemos, porque ele nos obriga a refletir, mudar de percurso e superar.” Antes, durante e depois, é preciso treinar, repetir, refazer: para acertar 100 lances na cesta, outras 50, 100 ou mil bolas vão para fora.

Coisa da sua cabeça

Como no basquete de Paula, aprender exige atenção, treino e emoção. “Primeiro, focamos no objeto: o quadro, uma história, uma pessoa. A informação passa para a memória de curto prazo e, se necessário, é arquivada na de longo prazo”, explica o neurologista Marco Antonio Arruda. É a diferença entre decorar todas as capitais do Brasil uma hora antes da prova – e não lembrar da lista na semana seguinte – e fazer exercícios regularmente, que lhe possibilitarão não confundir, anos depois, Porto Alegre com Porto Velho.

“A prática e o reforço são fundamentais para o aprendizado de longo prazo. O cérebro apaga as informações sem importância ou significado”, diz Arruda. Também por isso é mais fácil lembrar do que nos foi passado com emoção. As lições de professores sonolentos e os dias em que nada demais aconteceu tornam-se brancos na memória. Mestres eloqüentes e eventos que despertam fortes reações, sejam felizes ou tristes, ficam para sempre. Daí a importância do prazer no aprendizado: com ele, nos apropriamos mais facilmente do conhecimento.

Com o passar dos anos, o cérebro muda e fica mais difícil entender
novidades. Mas é sempre possível aprender. Somos nós
quem limitamos (ou não) o conhecimento


Pode-se aprender em qualquer época da vida. É verdade que, com o passar do tempo, fica mais difícil – justamente pela falta de treino do cérebro, único órgão moldado por nossas experiências. Até os 2 anos de idade, forma-se a maior parte das conexões entre os neurônios. O que se aprende nessa fase depende dos estímulos recebidos. Daí até a puberdade, muitas outras ligações são formadas. Se aprendemos a andar de bicicleta nessa época, jamais esqueceremos, pois os neurônios já sabem o caminho para acessar esse conhecimento, sem que você precise pensar como se faz.

“Mas, quando ficamos mais velhos, ocorre uma poda”, explica Arruda. “As conexões que não foram repetidamente estimuladas são desativadas”, diz. Por isso, quem nunca gostou nem de português vai suar para aprender inglês aos 40 anos. Ao mesmo tempo, os circuitos mais usados são reforçados – daí a tendência de nos especializarmos em coisas que adoramos desde pequenos, como desmontar objetos ou escrever: é o que nosso cérebro aprende melhor. A dificuldade para entender coisas completamente novas com o passar dos anos deve-se a essas rotas. Com as conexões necessárias para adquirir a novidade desligadas, o cérebro precisa descobrir outro caminho, mais comprido, para realizar a atividade. Mas ele está aí, em algum lugar.



A liberdade de saber

Denil Rissato achou seu caminho em um domingo no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Foi lá, aos 64 anos, que andou de bicicleta pela primeira vez. Bicicleta não, triciclo! A vontade vinha guardada desde menina. No parque, alugou o possante, duas rodinhas atrás, uma grande na frente. “Olhando para ele, parecia impossível. Com um pouco de esforço, consegui subir. Comecei a pedalar devagarinho... e estava andando!”, lembra. A sensação foi tão boa que resolveu comprar um. Na noite anterior à entrega mal dormiu. “Quando me vi no meu triciclo, fiquei gritando “yes! yes! yes!”, conta. Agora, Denil passeia toda prosa com suas três rodas até pela feira. Não fosse a proibição do filho, já estava de olho numa moto.

Como tantas outras mulheres de sua geração, Denil fez planos de carreira, que interrompeu para cuidar do casamento e dos filhos. Mas continuou com um olho para a vida lá fora – e a idade, ao contrário do que seu cérebro poderia esperar, deu-lhe mais coragem para experimentar o novo. Depois de 15 anos em casa, sentiu que estava na hora de sair. “Precisava me sentir útil para outras pessoas”, afirma. Foi estudar, aprendeu a mexer no computador e virou secretária de um hospital, profissão que sempre quis seguir. No dia-a-dia, vendo os médicos, achou que podia ajudar mais e resolveu ser enfermeira. E lá foi Denil para a sala de aula, aos 40 anos.

Depois de dois anos de curso, estreou o uniforme branco. A carreira não durou. “Ih, não era o que eu queria, não. As pes­soas eram tristes, sentiam muita dor, e eu não queria ver aquilo”, conta. “Nasci para ser secretária, e sou boa nisso.” Voltou para trás do balcão, mas, para não ficar parada, inventou umas aulas de espanhol, outras de italiano. “Sempre gostei de estudar. Faço um monte de coisas que nem uso. Mas me divirto. Gosto da liberdade de viver, e isso só se consegue aprendendo a se virar, conhecendo as coisas, sabendo”, diz. Da própria sabedoria, Denil segue a filosofia de Rubem Alves, em que aprender é mais do que uma função. Como diz o mestre:  “A vida não se justifica pela utilidade, mas pelo prazer de desfrutar sua caixa de brinquedos”.


 

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A gente só se supera quando se desafia! Não dá pra ficar na mesma por medo de não conseguir! Estou aprendendo mandarim mesmo sem ter nenhuma relação com a China. O prazer de sentir que estou evoluindo é mais importante do que a finalidade desse aprendizado.
Ludmila Feijó
Esta é uma das minhas matérias preferidas da Sorria! Fiz minha mãe ler antes de dormir... a matéria é inspiradora!

Bjs ;)

Anna Carolina
Anna Carolina de O. Neto
estou tendo muita dificuldade para aprender escrever um texto dicertativo,será que é por causa da idade? já completei 40 anos, e agora resolvir aprender escrever, quero tentar expor ideias, mas,não esta sendo facil, por mais que tento, não consigo redigir um bom texto, sera que se eu continuar posso conseguir? Essas ideias de superação muito legal, estava procurando algo que me animasse a continuar com minha ideia de escrever, emcontrei essas belas historias de pessoas que após 40 anos são produtiva e capazes de se surpreender.
Loudes
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