movimentar
Ar livre

Ele é quase como a liberdade. Não dá para ver, é impossível guardar ou pegar, a gente só consegue sentir. O vento é nada mais que o ar em movimento. Na natureza, ele tem função pra tudo: remodela a paisagem, carrega o pólen e fertiliza as flores, entre outras delicadezas. Pra gente, ele refresca ou faz voar, se asas-deltas ou pipas entrarem em ação.
O carioca Paulo Pinto, de 70 anos, tem vivido nas asas do vento há meio século. Foi piloto da Força Aérea Brasileira (FAB), aposentou-se e continuou carregado por ele – voando de parapente, nos últimos 18 anos. “Voar foi a minha vida”, diz. Íntimo da coisa como é, não é de estranhar que ele ache “frio na barriga uma frescura” quando se trata de subir por meio de bolhas de ar quente, apenas com uma lona sobre a cabeça. Lá em cima, ele garante: “O pensamento é tranqüilo, há integração com sua solidão, sintonia com a natureza e com o mundo”, enumera. Fora ver tudo de outro ângulo, pequenininho.
Mesmo daqui debaixo, há quem não precise sair do chão para experimentar a lufada de vida que o vento traz. Navegar com seu sopro empurrando as velas de uma prancha ou empinar pipa no seu embalo sinuoso são delícias que, mais ou menos para quem prova a liberdade, viciam. Conheça-as nas asas de Caco, Renata, Toninho e Luan, a seguir.
O caminho nunca é igual
Bastou sentir uma vez o sabor do vento para Antônio Carlos Marques, 54 anos, passar a vida saboreando. Ele trabalhava na fábrica de lonas do avô, nos anos 70, quando um empresário chegou querendo consertar seu balão. Caco arrumou, voou e viciou. “O mais gostoso é que a gente voa na direção SDS: ‘só Deus sabe’. Quando decola, para onde o vento levar, você vai”, explica. O que controla parte do gigante colorido é o fogo, que esquenta o ar lá dentro e o deixa mais leve para subir. “Mas o balão não reage na hora, por isso temos de planejar as manobras”, diz Rodrigo, filho de Caco.
A família toda, mulher e três filhos, divide a rotina de cestos, lonas e paisagens, entre a fábrica de balões que têm em São Paulo, os vôos a passeio ou os comerciais, nos fins de semana, e os campeonatos e festivais ao redor do mundo. Caco diz que, em 30 anos, o vôo mais bonito foi sobre a Cordilheira dos Andes. Os mais emocionantes, nos shows da Turma do Balão Mágico, da qual ele era piloto. E garante que, mesmo que repetidas à exaustão, as viagens de balão nunca são iguais. “O vento é sempre outro, o caminho também.”

Saias ao vento
No céu, as pipas voam tranqüilas, ou disputam entre si as acrobacias. No chão, os pezinhos de Renata Tuigue, 13 anos, buscam espaço entre os tênis enormes dos garotos nas ruas do Tremembé, em São Paulo. Quando o vento está pra cima – seu preferido – , ela não esconde o sorriso. Então pode descarregar, que é soltar toda a linha para a pipa ir alto até quase sumir. Acostumada a ser a única menina da turma, ela ganha reforço no time quando a família entra em campo. Quer dizer, em brisa.
Quem começou a tradição dos Tuigue com a pipa foi o pai, Silvio. Nos sábados e domingos, ele, a mulher e os três filhos vão procurar parque – ou praia, se der – para empinar. Só param nas férias, quando a molecada vem comprar o brinquedo na loja que eles montaram em casa. Antes revendiam; hoje, passam o ano construindo pipas para desovar nos três meses do verão. “Isso ajuda na renda e deixa a gente perto do que gosta”, conta a mãe, Sônia.
“Na escola, os meninos falam que sou menina e gosto de pipa”, diz Renata. Se o vento está pra cima... quem liga pra falação?

Siga aquela nunvem
Criança adora olhar para o céu e adivinhar os desenhos das nuvens. Só que para Luan, de 6 anos, os floquinhos de algodão estão bem mais perto do que para outras crianças. Nem bem falava suas primeiras frases, Luan já voava. A primeira vez, ele conta, foi dentro da barriga da mãe. Até os seis meses da gestação dele, Márcia, instrutora de parapente, fazia vôos triplos com seu bebê e a filha mais velha, Jade. E o dia-a-dia de Luan sempre foi assistir aos pais cruzando os ares. “A gente não tinha com quem deixar os dois, então os levávamos pro trabalho”, diz o pai, Alemão, também instrutor.
O primeiro vôo-solo de Luan foi aos 3 anos. “Ele ficou amarradão”, conta o pai. Em um miniparapente, ele planou sobre as dunas da Praia da Joaquina, em Florianópolis. Saiu do chão já pilotando. “Minha mãe me ajuda, o parapente infla e eu vôo”, diz Luan. Tudo muito natural. E ao alcance dos pais, a não mais de 6 metros do chão.
O equipamento sobe com a ajuda das térmicas, as bolhas de ar quente ascendentes, mais leves que o ar ao redor. Luan espera acabar as aulas dos pais, no fim da tarde, para flutuar como as nuvens – é a hora das térmicas mais suaves. “A gente ensina que voar é contemplação, não demonstração”, diz Alemão. E Luan quer ver tudo. “Eu gosto mais de voar com os meus pais. É mais altão.”

Essa prancha tá diferente...
Coloque uma vela na prancha de surfe e ela se torna windsurfe. Faça o mesmo no skate e... tchan, tchan, tchan, tchan! Foi essa engenhoca que virou a cabeça do carioca Toninho da Cunha, em 1986, quando ele conheceu uma galera do windsurfe que também fazia windskate. Era sobre rodas que ele, aos 30 e poucos anos, gostava de curtir a praia. Subia no skate diferentão e rodava embalado pelo vento do Recreio até a Barra da Tijuca. E ainda ia com a prancha – de surfe – debaixo do braço. Nove quilômetros depois, mudava a vela do skate para a prancha e pegava carona no vento sobre as ondas.
Gostava tanto da (nova) brincadeira que começou a fabricar a geringonça. Vendeu umas 50, mas o trabalho de representante comercial foi tomando tempo, e ele parou. Hoje, com 55 anos, ele ainda é um viciado em suas tábuas voadoras. Quando não é a do mar, porque a brisa está fraca, é a da terra. “No windskate, qualquer vento te põe a velejar”, compara. Quem já aprendeu a lógica da coisa é Guilherme, seu filho de 5 anos. Se o mar não está para surfe, no fim da tarde, Toninho leva o garoto para passear nas rodinhas “aladas”. Às vezes, o pequeno vai no próprio windskatinho, feito sob medida. “A gente fica louco. Enquanto eu tiver força, não pretendo parar”, diz Toninho, 22 anos de praia.


















































