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Ares da estação

Foi na quinta série que finalmente tudo fez sentido. A professora de geografia mostrou o globo terrestre girando em torno do Sol. E ele tinha o eixo inclinado. Arrá! Era por isso, então, por esses 23 graus de capricho astronômico, que o meio do ano era frio, e as férias de janeiro, época de ir para a praia. Naquela época, eu queria passar 365 dias só de calção, brincando desde a manhã até a noite, num eterno verão. Hoje, acho o balanço das estações perfeitamente equilibrado. Veja só: temos três meses para usar cachecol, comer fondue e ver TV debaixo de dois edredons. E outros três para jogar frescobol, se esbaldar de sorvete e adormecer à brisa do entardecer. Entre eles, épocas de transição: em maio tiramos os casacões do guarda-roupa; em outubro, celebramos o primeiro dia em que dá para sair de casa só de manga curta. Isso em teoria, pelo menos. É bem verdade que não se fazem mais estações como antigamente. Mas alguns prazeres estão garantidos. Neste inverno, por exemplo, haverá pelo menos uma noite bem fria, para tomar quentão em copo plástico, esquentando os dedos e a garganta ao mesmo tempo. Em uma manhã de domingo, você abrirá a janela e verá que o sol, apesar de distante, está forte, inundando o quarto de luz e calor. Haverá inclusive aquela terça-feira em que uma gripe o impedirá de ir ao trabalho, e, apesar do nariz escorrendo, será uma delícia assistir à sessão da tarde tomando chá de limão. Até que venha mais uma primavera, e o ciclo recomece. Para o deleite de quem sabe ver a graça de viver num mundo inclinado.
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