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As portas da percepção

Desvendar o mundo é descobrir possibilidades, tornar-se alguém melhor, dar sentido à humanidade – além de um grande prazer em si. E a chave que abre caminho a tudo isso é uma só: a educação
Texto: Rita Loiola // Fotos: Daniela Toviansky e Edu Lyra // Letterings: Andréa Branco // Beleza: Élcio Aragão (Maizena)/Agência First) // Produção de moda: Marcelo Ultra // Photodesign: Felipe Gressler
As portas da percepção
Educação é... entender a natureza e enriquecer com suas possibilidades sem fim, como a cientista Vanderlan
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Vanderlan Bolzani é dona de uma fortuna. Permanentemente investida nas mais rentáveis aplicações, ela nunca teve seu valor total calculado com exatidão por nenhum banco. Porém, sabe-se que o invejável patrimônio ocupa um patamar restrito a uma pequena elite planetária, conforme atesta a Sociedade Real, na Inglaterra. Quem tem o privilégio de ver essa admirável senhora desfilar toda sua riqueza pelas ruas de São Paulo, logo imagina: deve ter nascido em berço de ouro. Pois é. A história de Vanderlan é mesmo bem previsível.

Seu pai era um índio tabajara que sabia ler, escrever, fazer cálculos e trabalhava como mecânico. Sua mãe, uma imigrante portuguesa que estudara até o ensino médio. Vanderlan nasceu na Praia Formosa, no litoral da Paraíba, e seu berço dourado foi a pequena escola onde começou a estudar aos 6 anos. “Lá, eu encontrei respostas para questões que ainda nem tinha feito”, conta. “Uma experiência riquíssima, que me ensinou a pensar sobre o que estava ao meu redor. A professora nos contava que o coco servia para dar água, mas que a polpa também podia ser comida e, se queimada, virava óleo, combustível. As conchinhas guardavam moluscos, pérolas. Comecei a olhar a natureza com outros olhos, vendo possibilidades infinitas.”

A possibilidade que ela não queria perder de jeito nenhum era a de seguir vivendo experiências tão mágicas quanto as que descobriu na escola. Então, seguiu estudando. E foi a primeira da sua família a obter um diploma universitário, em farmácia, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa. Apaixonada por átomos e moléculas, começou a pesquisar como os elementos da natureza se estruturam, combinam-se, mudam de cor. “Estudando química orgânica, fui descobrindo as razões pelas quais as coisas são do jeito que são, e sempre achei tudo muito bonito. É como entender a vida”, diz. “Ao fazer pesquisas com plantas no laboratório, eu me vi fascinada por descobrir de onde vem a cor das flores, como funcionam os pigmentos. E aí tive a certeza de que estudaria isso por toda a minha vida.”

Com mala, cuia e menos dinheiro do que seria prudente, ela se mudou para São Paulo a fim de tentar um mestrado. Conseguiu uma vaga na moradia estudantil da Universidade de São Paulo (USP) e uma bolsa em um projeto de pesquisa. De João Pessoa, a família ajudava como podia. E Vanderlan investia tudo nos estudos. Depois do mestrado veio o doutorado, pós-doutorado nos Estados Unidos e o posto de professora titular do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Entre 2008 e 2010, presidiu a Sociedade Brasileira de Química. E, no ano passado, foi a primeira mulher da América Latina a se tornar membro honorário da Royal Society of Chemistry (Sociedade Real de Química, do Reino Unido).

Hoje, aos 61 anos, Vanderlan dedica-se à pesquisa de plantas que possam ser transformadas em remédios. Com o mesmo olhar curioso da menina de Praia Formosa, é assim que ela segue aumentando, dia a dia, a fortuna imaterial que vem construindo desde a infância. “A natureza é um laboratório imenso que mostra o tempo todo quanto é belo estar no mundo e fazer parte da vida”, diz a cientista. “Sem a troca de vivências com as pessoas que conheci, eu teria ficado cega, fechada para todos os caminhos que estavam na minha frente esperando para ser trilhados. Enxergando coisas diferentes, aprendemos a ser mais honestos e compreensivos. Por isso acho que tenho uma vida tão rica. E tudo isso graças à educação.”


"Educar é dar às pessoas a capacidade de se
questionar. E a grande resposta perseguida é:
'Qual é a melhor maneira de ser humano?' "




Uma coceira especial

A bela história de Vanderlan tem sua origem numa coceirinha comum a todos  os membros da espécie humana. “Nós temos vontade de decifrar o mundo”, resume Carlota Boto, professora de filosofia da educação da USP. Entre a imensa variedade de seres vivos, apenas os humanos foram agraciados com essa comichão. Em princípio, é um grande problema. Sem essa inquietação, levaríamos uma vida muito mais simples. Nasceríamos e morreríamos sem nunca nos chatear com questões difíceis, como: “Por que o sol nasce e se põe?”, “Haverá um jeito de voar como os pássaros?” ou ainda “Qual o sentido da vida?”.

Mas é esse problema que nos torna especiais. Nossa curiosidade nos levou a acumular conhecimento e a transmiti-lo às gerações seguintes, para que pudessem ser mais felizes ao dispor dele. Só assim a humanidade construiu seus incríveis feitos, nas artes, nas ciências, na tecnologia. E talvez o mais admirável deles seja a própria engrenagem que permite levar o saber adiante: a educação.

“É nossa paixão pelo conhecimento que move a educação”, afirma Carlota Boto. “O educador apresenta o repertório cultural humano e faz o aluno ser capaz de interpretá-lo. Formar uma pessoa é ampliar suas referências e fazer com que dê um sentido a elas”, completa.

Esse sentido pode ser arquitetado de forma imediata, de modo a logo ser posto em prática para ter seus resultados medidos e comemorados. Nesse nível, a aprendizagem é uma característica inata a todos os animais: a mãe apresenta o alimento ao filhote, ele prova, vê que é bom e aprende que aquilo serve para matar a fome. Entre os primeiros seres humanos, era esse o tipo de conhecimento que interessava. Os primeiros lugares dedicados à aprendizagem ensinavam ofícios ou técnicas de guerra. Eram espaços de treinamento voltados para a sobrevivência.

O surgimento da educação, entretanto, não aconteceu nesse momento. Os especialistas datam seu nascimento com o da filosofia, por volta do século 5 a.C., quando o homem começou a pensar nos valores que deveriam guiar a sociedade. “Logo que a democracia e a filosofia aparecem, na Grécia antiga, instalam-se as condições necessárias para a reflexão individual e coletiva. E as pessoas começam a se perguntar o que, afinal, significa ser homem”, diz Lílian do Valle, professora de filosofia da educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Então, vem a ideia de criar um tipo de formação humana, uma ação refletida, consciente e comum. E surge a educação.” Poetas, legisladores e filósofos são os primeiros professores. Eles resgatam os valores, as histórias e as tradições do povo e os transmitem aos cidadãos, de modo que todos possam participar da vida na cidade e refletir sobre ela.

Esses princípios são eclipsados durante a Idade Média e retomados pela Revolução Francesa, no século 18, quando surge a escola pública, gratuita e universal. Os revolucionários buscavam uma educação que desse aos cidadãos a possibilidade de construir uma nova sociedade, livre, igual e fraterna. E é nesse ideal que a escola está ancorada. “A educação pública moderna visa à formação dos alunos no lado prático, que ensina a ler, escrever e a fazer contas; e também no lado humano, construindo-o como um sujeito que tem valores, pensa sobre seu mundo e participa dele”, diz Lílian. “Educar é formar pessoas, dar-lhes a capacidade de projetar algo e se questionar. A grande resposta perseguida é: ‘Qual é a melhor maneira de ser humano?’.” 




Educação é... muito mais do que se aprende na
escola, como sentiu na pele a agrônoma Thaíse




A vida ensina

Enxergar o conhecimento apenas como uma maneira de se capacitar a fim de resolver um problema é reduzi-lo a uma pequena parcela da sua real grandeza. Mas, mesmo seguindo esse raciocínio, a beleza da educação pode se impor, de forma surpreendente e transformadora.

Thaíse Guzzatti tinha um pensamento bastante pragmático: formar-se em agronomia e abrir uma floricultura. Ia tudo muito bem. Ela havia passado no vestibular na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, e já estava no terceiro semestre do curso. Aí chegou a hora do estágio obrigatório, o que implicaria passar um mês inteirinho no campo. Criada no meio urbano, Thaíse não queria de jeito nenhum trabalhar com a terra. Mas, sem o estágio, nada de diploma. Não teve escolha.

Muito a contragosto, foi parar em Sea­ra, município no oeste de Santa Catarina, a 600 quilômetros da sua casa, na capital. Foi recebida em um sítio mantido por uma família dedicada à criação de porcos. Sua rotina seria espartana: acordar às 5 horas e acompanhar a atividade da chácara até o anoitecer. O que parecia um suplício, porém, acabou se transformando na experiência mais reveladora de sua vida.

“Eu poderia apenas observar e elaborar um relatório, mas quis aprender e fazer tudo. Tirava leite de vaca, limpava o chiqueiro dos porcos, cuidava dos leitõezinhos, dava vacinas, ia para a lavoura, plantava milho, colhia frutos, fazia todo o serviço de uma fazenda de agricultura familiar”, lembra. A lida só terminava depois das 19 horas, com o leite recolhido pela segunda vez e uma Thaíse exausta, diferente e feliz.



"A gente só muda através da cultura. Com ela,
perdemos o medo de enfrentar a vida. A educação me
fez uma pessoa melhos, capaz de aceitar o diferente"




“Em pouco tempo, percebi o valor daquele lugar, daquelas pessoas, e fui me apaixonando. Cada dia era uma nova descoberta, e nossos laços iam se estreitando. Percebi que, na cidade, não dávamos valor àquele ofício tão duro e bonito”, conta. Quando Thaíse teve de voltar para casa, sentiu um choque. “Comecei a ver tudo diferente, a juntar as peças do que tinha vivido, e tive a certeza de que queria trabalhar com agricultura familiar.” Foi a primeira vez que ela viu sentido em toda a sua carreira de estudante. “De repente, a faculdade que eu iniciei só para ter um negócio e algum dinheiro ganhou significado. A convivência naquele universo que eu desconhecia me ensinou mais que todos os anos em laboratórios e salas de aula.”

Empolgada, Thaíse começou um estágio no Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), e foi para a França trabalhar com turismo rural. Assim que se formou agrônoma, em 1998, criou a Acolhida na Colônia, uma organização não governamental  de turismo ecológico que hoje reúne 179 famílias em 30 municípios catarinenses. Ao criar um fluxo de visitantes para o campo, ela garantiu uma nova fonte de renda às famílias de agricultores, melhorando suas condições de vida e desencorajando o êxodo rural. “Há coisas que só aprendemos vivendo, tendo uma experiência como a que eu tive naquele estágio, e que mudou minha vida. É um pouco isso que a Acolhida busca fazer. Aquelas pessoas me ensinam, diariamente, a ser alguém melhor.”

Thaíse descobriu que o ensino é muito mais do que uma maneira de resolver um problema prévio. “O papel da educação contemporânea é formar o ser humano em sua integridade. Indicar caminhos e mostrar o sentido profundo do que é ser homem”, diz Jaime Zitkoski, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Como Thaíse sentiu na própria pele, não é algo que se restringe à sala de aula. Toda experiência que vivemos pode nos trazer novas informações e disparar reflexões que nos tornem melhores. “O processo educativo não acontece só na escola, mas na rua, na cidade, no meio da sociedade. E alguém que participa disso sempre sai diferente”, acrescenta o professor.




Educação é... um prazer que não precisa de justificativa
prática, como bem sabe o zelador José Carlos




Por puro prazer

A educação nos permite construir uma carreira. Dá acesso a mais dinheiro e conforto. (No Brasil, quem investe no ensino profissional tem 38% mais chances de conseguir uma vaga no mercado de trabalho e ganha um salário 13% mais alto.) Ela pode ser medida por estatísticas, por títulos acadêmicos, pelo status que oferece. Ou por nada disso. Na verdade, a educação é tão ligada à nossa essência que pode se sustentar apenas na curiosidade que a origina e na satisfação que proporciona.

José Carlos da Silva é um senhor de 48 anos versado em história da arte e literatura brasileira. Pode tecer em palavras a genialidade do uso da luz nas obras do pintor italiano Caravaggio ou a atualidade das questões sociais que o escritor Euclides da Cunha apontou em Os Sertões. Mas esse conhecimento não foi adquirido para passar em um concurso, não é diplomado por nenhuma universidade, nem pretende ser tema de pós-graduação. “Eu gosto de estudar porque eu gosto. Porque eu me sinto mais vivo, com os horizontes mais amplos”, explica o zelador de prédios, que concluiu o ensino médio no ano passado.

Nascido no interior de Pernambuco, José Carlos aprendeu a ler com uma vizinha, mas foi aos 15 anos, com a professora da 4ª série, que tomou gosto pela cultura. “Era época da ditadura, e ela nos falava coisas que nunca tínhamos ouvido, sobre a situação política do país. Líamos Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, uns sujeitos que até então eram desconhecidos para nós”, conta. “Aquilo era um mundo novo que se abria e nos deixava curiosos.”

E a curiosidade acabou levando José Carlos a se mudar para São Paulo, por volta dos 20 anos. Muito se falava da maior metrópole brasileira, e ele queria enxergar a tal terra de oportunidades com os próprios olhos. Começou a trabalhar como porteiro e foi atrás de tudo o que a cidade poderia lhe oferecer. Usava todas as horas livres em bibliotecas e centros culturais. Cruzava a capital de metrô, de ônibus ou a pé para descobrir Platão, Dante Alighieri, Monteiro Lobato.

Uma notícia de jornal, em 2003, o despertou para as artes plásticas. O texto era sobre um milionário que comprara uma pintura do holandês Vincent van Gogh por 80 milhões de dólares. “Queria entender por que alguém é capaz de dar tanto dinheiro por um quadro”, diz. Para responder a essa pergunta, ele teve de esperar três anos, até conseguir uma bolsa para o curso de história da arte no Museu de Arte de São Paulo (Masp). “A gente só muda através da cultura. Com ela, perdemos o medo de enfrentar a vida. A educação me fez uma pessoa melhor, capaz de aceitar o diferente. Sem isso, ficaria fechado em um quarto escuro, sem saber o que acontece ao redor.” Agora que terminou o ensino médio, seu próximo passo é entrar na faculdade de história. Pelo simples prazer de entender a sua época e a sua sociedade.

A educação pode ocorrer de inúmeras maneiras, com diferentes resultados. Mas, na sua essência, ela é igual para todos nós: uma maneira de abrir portas, desvendar universos, e assim nos permitir ser pessoas mais completas, num mundo melhor.

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