Droga Raia

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Texto: Roberta Faria //  Foto: Toshiyuki Aizawa / Reuters / LatinStock
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Houve tempo em que gritávamos por prazer. Correndo pela casa, de brincadeira na rua, na garagem vazia pra ouvir o eco. Com ou sem motivo, reclamavam as mães, enquanto a gente, criança, ria do barulho que podia fazer. Crescidos e domados, passamos a guardar os gritos para grandes momentos, bons e maus: uma surpresa feliz, o gol perdido, no coro do show, em discussões esbravejadas, na topada do dedão com a quina. Mas há mais razões – ou até nenhuma, além da súbita vontade, como antigamente – para gritar que acabam entaladas na garganta por decoro. Viram sapos, engolidos aos engasgos. De vez em quando, é bom soltá-los, como panela de pressão que chia ou explode. Abra a janela, tranque-se no banheiro, embarque na montanha-russa, aumente o volume do som, encha os pulmões e... grite. O refrão, um palavrão, aaaahhs e uuuhhs sem sentido. Dane-se se alguém ouvir (ou se ninguém ouvir). Gritar (para si, não com os outros) extravasa o estresse, a raiva, a frustração, as emoções trancadas na gaveta. Deixa o peito mais leve... e tudo mais divertido.

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