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Barulhinho Bom

A ciência comprova: música não é só um prazer para a alma, mas também um tratamento eficaz contra os males do corpo
Texto: Dilson Branco e Sibélia Zanon // Ilustração: Mariana Coan
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Acontece a toda hora no cinema e na televisão. Depois da desilusão amorosa, vem a trilha sonora, alta e emocionante, ajudando a mocinha a exorcizar sua dor. Na vida real, não é diferente:  quem nunca apelou às músicas preferidas para curar um coração partido? Pois o que roteiristas e rejeitados já sabem há muito tempo, a ciência vem comprovando: a música é uma excelente terapia para aliviar o sofrimento – e, de quebra, traz muitos outros benefícios para a saúde. 

Para ser mais preciso: ouvir música reduz 21% da dor crônica e alivia a depressão em até 25%. Esses são os principais resultados de uma pesquisa publicada em 2006 pelo Journal of Advanced Nursing, do Reino Unido. Os 60 participantes do experimento eram pacientes que sofriam havia anos de males como artrite e problemas na coluna. Durante uma semana, eles foram convidados a escutar uma hora diária de música. Parte dos voluntários pôde escolher as próprias canções, enquanto o outro grupo escutou trilhas selecionadas pelos especialistas. Os resultados de ambos foram muito parecidos. Além de relatar alívio dos sintomas, os pacientes afirmaram que se sentiram mais fortes e dispostos com a música.

Outros estudos mundo afora trazem conclusões bastante semelhantes. Um deles, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), concluiu que a música pode ajudar na recuperação de pacientes recém-operados. Após ouvirem Primavera, um dos movimentos do concerto clássico As Quatro Estações, do compositor veneziano Antonio Vivaldi, eles se sentiam mais calmos, o que foi verificado pela redução da freqüência respiratória e cardíaca. A avaliação das expressões faciais dos pacientes também apontou uma significativa redução da dor.

Ainda não se sabe exatamente como a música causa esses efeitos, mas há algumas hipóteses em estudo. Os pesquisadores da UFPE levantam uma teoria: o som estimularia a hipófise – glândula localizada numa cavidade do crânio –, o que resulta na liberação de endorfina, um analgésico natural que nos dá uma sensação de euforia e bem-estar.

Terapia sonora

Acredita-se que o homem tenha explorado os poderes curativos da música desde a Antiguidade. Mas foi no século XX que esses conhecimentos passaram a ser levados a sério, com o nome de musicoterapia. Tudo começou durante a II Guerra Mundial, quando uma pesquisa em hospitais dos Estados Unidos mostrou que veteranos submetidos a uma seleção de músicas se recuperavam mais rápido. A partir daí, a terapia ganhou pesquisas e escolas especializadas em todo o mundo.

“A musicoterapia usa sons, ritmos e músicas para tratar as mais diversas doenças”, explica Maristela Smith, mestre em psicologia social e coordenadora dos cursos de musicoterapia das Faculdades Metropolitanas Unidas, em São Paulo. “E também ajuda na prevenção, procurando estabelecer uma relação de equilíbrio entre a mente, o corpo e o mundo externo.” As seções, individuais ou coletivas, não exigem que você saiba cantar ou tocar alguma coisa e incluem não só a audição, como também a prática da música. Segundo a Associação Americana de Musicoterapia (AMTA), o método ajuda a melhorar o estado emocional, as expressões verbal e não-verbal, a capacidade de relaxar e de resolver problemas, a interação social e a concentração, além de ampliar o auto-conhecimento.

A fonoaudióloga paulista Sheila Fidlin sentiu esses benefícios na prática. “Meu filho nasceu com problemas, era uma criança nervosa, e eu não sabia como acalmá-lo”, lembra. Durante o parto de Amir, hoje com 13 anos, um deslocamento na placenta causou uma hemorragia que o deixou sem oxigênio por alguns momentos, ocasionando uma lesão cerebral. Por meio da música, ela conseguiu ajudá-lo a levar uma vida melhor. “O convívio com outras crianças, por exemplo, era quase impossível, mas na aula de música ele se sentava com todo mundo no chão e interagia com os colegas”, conta. Secretária de um conservatório de música em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Madalena Barbieratto é outro exemplo do poder da música: “Durante uma crise de hipertensão, o meu cardiologista receitou tomar um banho, ir para o quarto e colocar uma peça erudita do meu gosto”, conta. O tratamento não poderia ser mais gostoso. “Escute Requiem, de Mozart. É um poema!” recomenda.

Para quem busca um envolvimento mais profundo com a música, aprender a tocar um instrumento pode ser um ótimo caminho. A prática desenvolve a coordenação motora, a cognição, a memória e o raciocínio. Um começo ainda mais fácil é soltar a voz: só de cantarolar no banheiro, você já respira melhor, alivia tensões e intensifica a circulação sanguínea. Mas, se quiser empenhar menos esforço, basta adormecer ouvindo músicas calmas. No outro dia, veja como seu sono terá sido mais tranqüilo.

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