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Carnaval dos sentidos

Ouvir, ver, comer e sentir é aprendizado constante. Por trás da educação das sensações, há um mundo repleto de cores, sons e novos significados pronto para ser descoberto
Texto: Karina Sérgio Gomes // Ilustração: Estúdio Alice
Carnaval dos sentidos
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Ouvir música não fazia sentido para Lorena Lustosa. Se a secretária de 31 anos ligava o rádio, em São Paulo, era só para ouvir alguma coisa e não se sentir sozinha. Mas, em março, ela pôs na cabeça que realizaria o sonho de sua sogra, que morria de vontade de ganhar uma serenata. Entrou em uma escola e, em seis meses, aprendeu a tocar no violão Como É Grande o Meu Amor por Você, de Roberto Carlos, e Parabéns pra Você. No entardecer do aniversário da mãe de seu marido, ela foi até a janela da família e mostrou o novo talento. A sogra se emocionou, mas foi Lorena quem mais ganhou com as canções.

Enquanto ensaiava os acordes, ela aprendeu a reconhecer o som dos instrumentos, a diferenciar tons e a perceber melodias. As claves e pautas se espalharam pelos CDs que começou a colecionar e pela família, que tomou gosto  pelas partituras. “Quando ouço uma canção, já sei se um arranjo é bom”, conta.

É que Lorena e sua família não gostavam de música porque não sabiam como ouvi-la. Sem notar que a audição pode ser educada, é como se estivessem, até então, vivendo surdos para as melodias. É aos poucos que os seres humanos aprendem a ouvir, a ver e a sentir. Esse despertar dos sentidos se dá pela faísca que alguém nos lança ao nosso lado ou pela teimosia em compreender algo. “Os animais já nascem com os instintos apurados. Os seres humanos, no entanto, são mais complexos e demoram mais tempo para aprender”, diz Rogério de Almeida, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). “Passamos a vida inteira em formação”, diz.

De olhos bem abertos

Com o tempo, Cahoni Chufalo, de 28 anos, percebeu cores que estavam invisíveis para ele. Formado em letras, só compreendia a palavra escrita, enquanto as imagens lhe diziam quase nada. Foi uma dica da irmã que abriu seus olhos. Por indicação dela foi, em 2007, à exposição do pintor espanhol Francisco Goya (que viveu entre 1746 e 1828), no Museu de Arte de São Paulo. “Para mim, era um monte de risquinhos. Não sabia nada sobre a vida e o trabalho do artista”, conta.

Mas Cahoni ficou intrigado ao ver que o autor das pinturas era tão importante e resolveu pesquisar. Lendo sobre ele, as obras do museu ganharam significado e beleza. Encantou-se com as histórias dos quadros e quis ir mais longe. Procurou um curso de história da arte e, há três anos, entrou em uma pós-graduação em teoria e crítica de arte. Hoje, vai ao menos a cinco mostras por mês, que fazem com que veja o mundo com mais formas e cores. “Às vezes, passeando pela cidade, jogos de sombra e luz me chamam a atenção e lembram quadros”, diz. Agora, entende o que as ilustrações dizem, mesmo sem palavras.

“A arte é uma forma privilegiada de aprimorar o senso estético”, comenta Guilherme Romanelli, professor do Departamento de Teoria e Prática de Ensino da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “As referências ajudam a estabelecer relações, que dão sentido ao que apreciamos. Elas nos tornam mais criteriosos e nos dão autonomia”, afirma. Ou seja, quanto mais alguém aprende sobre arte, por exemplo, mais gosta do que vê – porque entende. E também sabe o que vale e o que não vale a pena admirar. “O mundo é mais agradável quando você apura os sentidos”, diz o professor.

Fome de quê?

As referências também faziam falta para a jornalista Juliana Cunha, de 23 anos, mas à mesa. “Comia de tudo sem diferenciar o bom do ruim”, diz. Mas seu paladar foi obrigado a ficar seletivo quando começou a trabalhar com gastronomia em um jornal paulistano, no início do ano. Uma de suas lições foi ir à feira. Passeando entre as barracas, descobriu que há dois tipos de brócolis: o japonês e o tradicional. “Comprei um de cada e senti que o tradicional tinha um sabor mais marcante”, conta. Foi aí que levou um susto e descobriu que existiam novos sabores para explorar. De bocado em bocado, conheceu muitos alimentos e ganhou uma vida mais saborosa.

Até para degustar uma receita precisamos de educação. “Nascemos sabendo apreciar o doce e o salgado. Mas faz parte do instinto de defesa não gostar do amargo nem do azedo”, diz Giovanna Fiates, professora de nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nossos ancestrais sabiam que esses sabores podiam indicar alimentos venenosos ou estragados. Hoje, no entanto, ninguém precisa temer limonadas suíças ou saladas de rúcula. “Para gostar de um novo alimento devemos acostumar o paladar aos sabores”, comenta a professora. Foi dessa forma que Juliana aprendeu a usar o fogão e conheceu novas formas de sentir o mundo. “Comer, para mim, é uma nova fonte de prazer”, diz. É essa alegria descoberta a principal razão para educar seus sentidos.

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