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Casos do Acaso

O mundo não está sob nosso controle. Ao virarmos a próxima esquina, nossos planos podem ir por água abaixo, a maior certeza pode se abalar, ou até mesmo a resposta que tanto procurávamos pode estar nos esperando. Eis a beleza do aleatório em nossa vida
Texto: Jeanne Callegari // Ilustração: Lupe
Casos do Acaso
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A ideia era se jogar nos braços do desconhecido. Afinal, no inverno do ano passado, seria a primeira vez que a relações-públicas Paloma Heringer, de 27 anos, do Rio de Janeiro, faria uma viagem do tipo mochilão sozinha. Ela estaria a milhares de quilômetros de casa, na Patagônia argentina. Conheceria gente nova e experimentaria uma série de sensações diversas às da sua rotina, como em toda boa viagem. Ela estava preparada para situações inesperadas. Mas não imaginava que elas transformariam a forma como ela enxergava o amor.

Na cidade de El Calafate, Paloma fez amizade com um grupo de viajantes. Entre eles, o australiano Ryan, hospedado na casa ao lado. Quando ela cismou em fazer uma trilha num parque coberto de neve e sem guia, num vilarejo vizinho, Ryan foi o único que topou ir junto. Em meio às brincadeiras com bolinhas de neve, se beijaram... e se apaixonaram. Voltaram para El Calafate, seguiram viagem juntos para Bariloche, mas, depois disso, cada um tomaria um rumo diferente. Ela iria para Buenos Aires, onde após uma semana pegaria o avião de volta ao Brasil. Ele seguiria para Mendoza, continuando sua viagem pela América Latina.

Assim foi. Os dois se despediram na rodoviária, trocaram e-mails, mas, apesar da paixão, Paloma não imaginava que o veria de novo. Dias depois, Ryan lhe escreveu. Disse que precisava encontrá-la de qualquer jeito. Ela voltaria para o Brasil no domingo. Combinaram que ele chegaria a Buenos Aires no sábado, às 23 horas, e que telefonaria para a casa em que ela estava hospedada. Mas Ryan não ligou. Triste, Paloma entendeu que ele havia desistido. Ela remarcara a passagem de volta ao Rio para quarta-feira, mas Ryan não sabia disso. Como nenhum dos dois tinha celular, não conseguiram se falar. Era o fim.

O plano para domingo era fazer um romântico passeio de trem até uma cidade vizinha. Dadas as novas circunstâncias, Paloma trocou de ideia: com uma amiga brasileira que também estava em Buenos Aires, ela iria até uma feira de antiguidades. No metrô, Paloma novamente refez os planos: decidiu voltar para casa e tomar um banho. Quando ia trocar de linha, viu que o metrô que deveriam tomar já estava quase partindo. Sabendo que o próximo demoraria a passar, não teve dúvidas: arrastou a amiga – que havia pouco tempo tinha quebrado a perna –, para conseguir entrar a tempo. Passaram pela porta segundos antes de ela fechar. Dentro do vagão estava Ryan.

“Eu não consegui acreditar naquilo. Quais eram as chances de a gente se encontrar? Nos abraçamos sem falar nada”, lembra Paloma.

Então Ryan contou sua parte da história. O ônibus que ele pegara havia quebrado no meio do caminho, fazendo com que ele desembarcasse em Buenos Aires apenas no domingo de manhã. Ao chegar, ele ligou para o amigo que estava hospedando Paloma, mas, por causa do idioma, os dois não conseguiram se entender direito, e Ryan concluiu que ela, conforme o planejado, já estaria voltando ao Brasil. Desolado, tomou o metrô para seguir sua viagem sozinho. E aí o inesperado encontro aconteceu.

Nos três dias seguintes, os últimos da viagem de Paloma, ela viveu o que chama de um “amor de inverno”. Passageiro, mas capaz de causar uma grande transformação: “Eu tinha terminado um relacionamento havia poucos meses, estava me sentindo fria, descrente do amor. Acho que toda essa conspiração do destino para eu viver essa história foi algo que aconteceu para me fazer voltar a ter fé no impossível”.

Imprevisível e descontrolado

Histórias dignas de Hollywood como a de Paloma não acontecem todo dia. Nossa rotina costuma ser muito mais previsível. Pense sobre o dia de amanhã. Você sabe a hora em que o despertador vai tocar, o que tem na geladeira para o café da manhã, o trajeto que vai fazer até o trabalho. Tem uma reunião às 2, combinou de jantar com um amigo e deve dormir cedo porque na manhã seguinte marcou um médico. No que depender de você, vai sair tudo como o planejado. Mas ocorre que não depende só de você. E é aí que o nosso cotidiano se assemelha a relatos incríveis como o de Paloma: ambos são influenciados pelo acaso.

Não é fácil definir essa palavra. Ela pode ser sinônimo de termos antônimos entre si, como sorte e azar. Muitas pessoas, inclusive, acreditam que o acaso nem sequer existe, que a vida segue um roteiro, que tudo acontece por algum motivo. Seja qual for sua opinião sobre o assunto, há dois pontos em que todos somos obrigados a concordar: muitos dos acontecimentos da vida são imprevisíveis e não dependem apenas de nossas ações. Isso seria a mais democrática definição do acaso, segundo o professor de arte e comunicação da Faap, Ronaldo Entler, que dedicou mestrado e doutorado ao assunto. “O que está por trás dessa imprevisibilidade e dessa falta de controle depende da visão de mundo de cada um”, diz ele.

O acaso está tão impregnado em nossa existência que até mesmo o formato e as funções do nosso corpo se devem a ele. É o que diz a famosa teoria da evolução, de Charles Darwin. Desde o surgimento da vida, os seres sofrem mutações genéticas aleatórias; aquelas que mais se prestam à adaptação ao meio são as que permanecem. Ou seja: a natureza se vale do acaso para gerar diversidade, mas depois aplica um crivo para definir as mudanças mais vantajosas. É como um artista que, sem querer, deixa cair gotas de tinta sobre a tela no meio da produção de um quadro. Ele pode achar o resultado bacana, e mantê-lo na obra, ou decidir recomeçar o trabalho. Da mesma forma, podemos nos valer do acaso em nossa vida. Mas precisamos estar de olhos abertos para enxergá-lo, e dispostos a nos esforçar para transformá-lo em oportunidade, como mostra a história a seguir.

A solução sob a figueira

Desde que emigrara do Japão, o sonho do pai de Carlos Abe era ter um pedaço de terra só seu no Brasil. Em 1974, ele conseguiu. Comprou uma fazenda no interior de São Paulo, perto de Itapetininga. A satisfação com o negócio, porém, não durou muito tempo. O solo não se mostrou propício à agricultura. E o terreno, acidentado, impedia a mecanização. O sustento da família vinha mesmo da pequena empresa que possuíam em Guarulhos (SP), onde moravam.

Para nos valermos do acaso, precisamos estar de
olhos abertos para enxergá-lo e dispostos a nos
esforçar para transformá-lo em oportunidade


Em 1982, dois meses após Carlos entrar na faculdade, seu pai faleceu. A família queria vender as terras para quitar débitos. Carlos foi contra, e conseguiu mantê-las. Mas elas seguiram sem uso. O rapaz se formou, conseguiu emprego, casou-se, teve duas filhas. Então dois baques o fizeram repensar a vida: primeiro, sua mulher faleceu. Depois, uma hepatite o deixou internado por dez dias. Aos 32 anos, Carlos decidiu que era hora de levar adiante o sonho de seu pai e investir todas as forças para dar vida à fazenda da família.
 
Por dois anos, ele se dedicou a estudar o que poderia ser feito na terra. Participou de vários cursos, como hidroponia e compostagem, e convidou produtores para visitar a fazenda. Um dia, por meio de um tio, veio parar em suas mãos um recorte de jornal que falava de uma palestra sobre o cultivo do cogumelo shiitake, em São Paulo. Lá foi Carlos. O palestrante demonstrou como produzir uma muda: em vez de terra, utiliza-se um pedaço de tronco, em que as sementes são introduzidas com o auxílio de uma furadeira. Ao fim do evento, foi feito um sorteio para decidir qual participante ficaria com o pedaço de madeira. Carlos foi o ganhador.

O brinde foi levado à fazenda e colocado embaixo de uma figueira. Passados alguns dias, Carlos voltou lá para ver se havia surtido algum resultado. E eis que o tronco estava cheio de cogumelos. Parecia que a vocação das terras da família enfim havia sido descoberta.  

O acaso havia dado sua mãozinha, mas ainda havia muito o que ser feito. Carlos passou a procurar por mais informações sobre o cultivo de cogumelos. No Brasil, encontrou quase nada. O conhecimento parecia estar concentrado no Japão, berço de sua família, onde ele ainda tinha contato com alguns parentes. Após conseguir o nome de alguns especialistas, Carlos enviou sua mãe – que já havia morado no país – para que convencesse um deles a vir ao Brasil ensiná-lo. 

Em 1994, o professor veio. Explicou tudo sobre shiitake, mas teve a intuição de que, naquela região, outra espécie se adaptaria melhor: o Agaricus Blazei, também chamado de cogumelo do sol, hoje famoso por suas propriedades medicinais, mas então pouco conhecido. “Ele ficou falando muito dessa outra variedade, mas não havia trazido nenhum material sobre ela”, conta Carlos.

Em determinado momento, andando pelo que restava de pasto na fazenda, o professor abaixou-se e colheu um cogumelo. Havia muitos, por causa das chuvas recentes, vindas depois de um longo período de seca. O especialista limpou o fungo, observou-o bem de perto, voltou-se para Carlos e disse: “Esse é o Agaricus Blazei”. Por coincidência, o cogumelo medicinal era nativo da região. Hoje, é o principal produto da Fazenda Guirra, a empresa de Carlos, que logo em seguida à visita do especialista começou a produção e a exportação. O sucesso fez do agricultor, de 47 anos, referência no cultivo de cogumelos no Brasil.

O acaso permeia toda a trajetória de Carlos. A localização das terras do pai, o sorteio do tronco, as chuvas que antecederam a chegada do especialista, o fato de o Agaricus Blazei ser nativo da região... Nada disso foi previsto por ele, nem estava sob seu controle. Mas, se não tivesse passado anos estudando, se não aceitasse ir à palestra, se simplesmente ignorasse a muda ganha ao acaso, se não se esforçasse para buscar um especialista, a fazenda de seu pai estaria até hoje abandonada.

“Muito do que acontece – êxito na carreira, nos investimentos e nas decisões pessoais, grandes ou pequenas – resulta tanto de fatores aleatórios quanto de preparação e esforço”, afirma o físico Leonard Mlodinow no livro O Andar do Bêbado, no qual explica como o aleatório afeta nossa vida. Fatores que fogem ao nosso controle sempre existirão. E isso não é uma desculpa para nos conformarmos com a imprevisibilidade dos fatos. Pelo contrário. “A dedicação e a persistência são fatores ampliadores das chances de êxito”, completa Leonard.

A melhor tragédia

Acasos vêm como ondas. Alguns sequer nos fazem sair do lugar. Em outros, surfamos, como Carlos, até chegar aonde queremos. Mas também há aqueles que nos pegam desprevenidos e colocam tudo de cabeça para baixo. Foi esse terceiro tipo de imprevisto que o representante comercial Roberto Rios, de 55 anos, de São Paulo, enfrentou numa noite de 1996. Ele estava voltando para casa, de carro, quando um assaltante o abordou em um cruzamento. Roberto levou dois tiros. Ficou paraplégico.

Em princípio, o acaso não é nem bom nem ruim. Ele é a
fonte de diversidade que, seja com dor ou prazer, vai
fazer a nossa história ser diferente de todas as outras


“Quando descobri que a paralisia era permanente, chorei muito”, conta. Mas apenas naquele dia. Roberto logo decidiu enfrentar a situação da melhor forma que podia. E então percebeu que isso incluiria ajudar as pessoas que estavam na mesma situação. “Notei que a falta de informação era uma agravante da deficiência e decidi lutar contra ela”, conta. No terceiro mês após o acidente, fez sua primeira ação: lançou uma revista em quadrinhos chamada Gibi do Leme, cujo protagonista é um menino cadeirante.

Algum tempo depois, foi convidado a dar uma entrevista no programa Gente como a Gente, da rádio Boa Nova. Após a transmissão, o apresentador perguntou-lhe o que tinha achado. “Respondi que não gostei, porque preferia levar novos dados que pudessem ajudar os deficientes, e não ficar apenas lamentando as dificuldades”, diz. O diretor do programa gostou da ideia e perguntou se Roberto gostaria de formar uma dupla de apresentadores com o radialista que o havia entrevistado. Ele topou. Sabendo que a comunicação seria sua missão dali para a frente, cursou a faculdade de jornalismo. Até hoje trabalha na rádio, de forma voluntária.

“Cresci muito após tudo isso. Minha família está mais unida. Aprendi que todos os seres humanos dependem uns dos outros. Valorizo mais a vida”, diz Roberto. “Há 14 anos, se me perguntassem o que eu mudaria na hora do acidente, eu diria: tudo. Hoje, digo: nada.”

Por mais terrível que tenha sido o acaso vivido por Roberto, hoje ele o encara como um presente. Como algo que veio para melhorar sua vida. Será que todos nós, se tivéssemos passado por uma experiência parecida, teríamos a mesma capacidade de dar a volta por cima? Sim. “Seres humanos têm algo que podemos chamar de sistema imunológico psicológico. Um sistema inconsciente que nos ajuda a mudar nossa visão de mundo para que possamos nos sentir melhor na situação em que estamos”, afirma o psicólogo Dan Gilbert, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. E ele prova isso por meio de curiosos experimentos.

Em um deles, são apresentadas aos participantes seis reproduções de quadros famosos. Cada pessoa deve ordená-las: em primeiro lugar, a de que mais gosta; em sexto, a de que menos gosta. Então é oferecida a chance de levar para casa uma das gravuras. Mas só estão disponíveis a número 3 e a número 4. A maioria escolhe a terceira, claro. Dias depois, as pessoas são novamente chamadas a classificar as seis imagens por ordem de gosto. E, na maioria dos casos, a imagem que possuem ganha uma posição no ranking. Ou seja: aprendemos a gostar daquilo que temos.

Os resultados são iguais mesmo quando a experiência é realizada com pacientes com problemas de memória. Eles não se lembram que são donos do quadro número 3, mas ainda assim melhoram sua posição na segunda vez que organizam o ranking. Quer dizer que não nos enganamos, não forçamos a barra para assumir que a nova situação em que nos encontramos é melhor. Nós realmente acreditamos que ela é.

A história de Roberto nos mostra que mesmo o mais sofrido dos acasos pode ser bem-vindo. O estudioso Ronaldo Entler concorda. E vê nesse tipo de surpresa a graça da  vida: “Em princípio, o acaso não é nem bom nem ruim. Mas ele é, pelo menos, uma fonte de diversidade e de renovação. Ele garante a particularidade da história de cada homem. Isso pode significar dor ou prazer, mas, em qualquer um dos casos, expressa a possibilidade de ter experiências diversificadas. Seria uma bênção ou uma desgraça se pudéssemos escrever antecipadamente nossa própria biografia? É difícil saber, mas, seguramente, seria monótono”.
 

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tambem encontrei o amor da minha vida por acaso. e acho que todos os meus empregos, a casa onde moro hoje, meu cachorro de estimacao... temos que acreditar que na proxima esquina tudo pode mudar pra melhor
alessandra
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