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Cem objetos

Desafio: viver um mês com apenas 100 itens. Bia topou. Descobriu que não é tão difícil quanto parecia e passou a enxergar o consumo com outros olhos
Texto: Bia Torres, em depoimento a Bruno Moreschi // Ilustração: André Rodrigues // Fotos: Marcelo Trad
Cem objetos
Bia, antes do desafio: quando ela foi criar a lista de objetos que poderia usar na experiência, teve uma surpresa
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"Meu nome é Beatriz, mas podem me chamar de Bia. Tenho 26 anos e trabalho no setor de atendimento da Editora MOL, onde a Sorria é produzida. No fim do ano passado, o pessoal da revista teve a ideia de fazer uma matéria sobre o dia a dia de alguém que decidisse viver um mês com apenas 100 objetos. Todos acharam a proposta ótima. Só faltava definir quem enfrentaria o desafio. Sem pensar muito, levantei o braço. Só então veio o receio: será que eu iria conseguir?

As regras eram simples. Entre meus pertences, eu deveria fazer uma relação de 100 itens que seriam os únicos que eu poderia usar entre 10 de novembro e 10 de dezembro. Para aliviar, não seriam levados em conta objetos de uso compartilhado com outros moradores da minha casa (meus pais), como móveis e utensílios de cozinha. Ou seja: eu poderia usá-los, sem incluí-los na lista. O mesmo valeria para bens não duráveis, como sabonete, detergente e papel higiênico. Mas, depois dessas bondades, veio um detalhe assustador: as peças de roupa deveriam ser, no máximo, dez, incluindo acessórios, roupas íntimas e sapatos!”



O desafio proposto a Bia foi baseado em outro ainda mais radical. Em novembro de 2008, o norte-americano Dave Bruno, de 39 anos, decidiu viver com apenas 100 objetos durante 12 meses. A aventura ficou registrada em um blog (www.guynameddave.com) e no recém-lançado livro The 100 Thing Challenge (“O Desafio das 100 Coisas”, inédito no Brasil).

Dave conta que a ideia da experiência surgiu a partir da sua insatisfação com o consumismo. “Minha casa já estava cheia de bugigangas, e as vitrines e os anúncios queriam me vender ainda mais. Reparei que nós criamos um mundo que só funciona se comprarmos, comprarmos e comprarmos. E quis provar que é possível viver com bem menos coisas do que julgamos necessário”, diz.

Sua intenção é levar as pessoas a refletir sobre a real necessidade de adquirir novos artigos. Antes que a liberdade de compra acabe conduzindo ao seu próprio fim: “Não duvido de que no futuro tenhamos cotas de consumo. Se não mudarmos nosso estilo de vida espontaneamente, teremos de apelar a absurdos como esse”.

Dave não estabeleceu nenhuma limitação quanto ao número de roupas que poderiam entrar na lista. Essa ideia, que tanto assustou Bia, foi inspirada em outro movimento, também surgido nos Estados Unidos e relatado em um blog, o “Seis itens ou menos” (www.sixitemsorless.com). A campanha lança a quem se interessar o desafio de passar um mês usando no máximo seis vestimentas (na conta não entram roupas de ginástica, sapatos, acessórios nem peças íntimas). A motivação não é necessariamente uma crítica ao consumismo. “Você decide o significado. Estamos só propondo um desafio e vendo como as pessoas reagem”, dizem os idealizadores, no site.



“A experiência começaria dentro de poucos dias, e era preciso definir logo os 100 objetos. Fiz uma varredura completa em casa e pus sobre a cama tudo o que considerava indispensável. Então, eu comecei a repensar os objetos um a um. O sapato de salto, por exemplo, acabou ficando de lado. Poderia tranquilamente passar um mês só com dois pares de sapatilha.

Quando tomei coragem para contar os itens selecionados, veio a surpresa: 82! (E olha que eu precisei incluir alguns em dobro, como travesseiro e cobertor, porque às vezes durmo na casa do meu namorado.) Se eu quisesse, ainda poderia resgatar 18 peças! Mas decidi o seguinte: se no decorrer do mês eu sentisse falta de algo, incluiria na lista. Se não, cumpriria o desafio com uma bela folga!

Quando contei ao pessoal da Sorria, eles adoraram. Aí eu aproveitei para dar a má notícia: dez peças de roupa para um mês inteiro, toda mulher há de convir, é impossível. Com muito esforço, havia chegado a 36, incluindo acessórios. Conversamos e concordamos que meu bom desempenho geral compensava essa falha específica. Assim, a regra das 10 roupas – ufa! – foi cancelada.

Resolvida essa questão, a lista estava fechada. Eu só sentiria falta de duas coisas ausentes no rol original: óculos de sol (com a respectiva caixinha) e ventilador. Na verdade, dois ventiladores – um para a minha casa e outro para a do meu namorado. Assim, a relação final ficou com 86 objetos:
 

BIA, VERSÃO LIGHT
Veja a relação completa dos objetos com os quais ela viveu um mês

• bolsa • carteira • 3 chaves • celular • carregador de bateria de celular • relógio • guarda-chuva • óculos de sol • caixinha de óculos • pente • secador de cabelo • escova de cabelos • 2 escovas de dentes • bolsa de maquiagem • rímel • batom • corretivo para olhos • lixa de unha • cortador de unha • chinelo • duas sapatilhas • 3 calças • short • bermuda • 2 camisas • 6 blusas • blusa de frio • 2 vestidos • 2 pijamas • 6 roupas íntimas • biquíni • 3 lenços • 2 colares • um par de brincos • um par de presilhas de cabelos • elástico de cabelo • caroo • mala de viagem • caderno • 2 canetas • lápis • borracha • agenda • computador • carregador de bateria de computador • pen-drive • fone de ouvido • porta-marmita • cartão de ponto • 2 camas • 2 colchões • 2 lençóis • 2 cobertores • 2 toalhas • 2 ventiladores.

 
Vi que quase toda a minha vida cabia numa mala não muito grande, que serviu para manter separados os itens que eu poderia usar. No primeiro dia do desafio, foi a ela, e não ao guarda-roupa, que eu me dirigi após acordar, para me arrumar. E aí eu vi que a privação me traria uma ótima vantagem: 30 minutos a mais de sono pela manhã. É que, com menos opções de roupa entre as quais escolher, eu passei a me vestir em poucos instantes, em vez da meia hora que costumava gastar diante do armário completo.

Mas também enfrentei uns apertos. Um dia, reparei que havia esquecido os dois únicos sapatos da lista na casa do meu namorado. Estava só com um par de chinelinhos simples! Não teve outro jeito: fui trabalhar com eles. Ainda bem que todo mundo na editora estava sabendo do desafio. No fim das contas, acabei dando risada da situação.”



“Divertimento, novas percepções e até conclusões mais originais sobre os problemas que precisamos resolver na nossa vida”. Estas são algumas recompensas que podemos ter ao questionar a lógica cega do acúmulo de bens. Quem afirma é a estudiosa do assunto Juliet Schor, professora de sociologia do Boston College, nos Estados Unidos. “Acabamos achando que comprar resolve algo, mas, pouco tempo depois, já precisamos de mais coisas. Quando não seguimos essa regra, experimentamos novas descobertas, que podem ser divertidas”, afirma.




Bia e os objetos com os quais viveu durante um mês: selecionar os itens e enfrentar a privação foi mais fácil do que ela pensava.



“Passei o mês inteiro sem comprar nenhum bem durável. Moro ao lado de um shopping, e sempre que estou de bobeira vou lá tomar um sorvete. Muitas vezes, claro, acabo levando algo mais. Durante o desafio, eu até poderia comprar alguma coisa, porque, afinal, tinha 14 itens de crédito. Mas me controlei, porque vi que realmente não precisava.

Além de questionar os hábitos de compra, a experiência me levou a conhecer um lugar bem bacana: o bazar Desapego, aqui em São Paulo. Funciona assim: você leva roupas das quais quer se desfazer e troca por fichas, com as quais pode adquirir outras peças. Levei uma saia, uma regata, uma blusa e uma calça. Troquei por um blusinha e guardei o resto das fichas para usar outro dia.”



Não faltam dados que comprovem a necessidade de mudarmos nossos hábitos de compra. A humanidade já consome 30% a mais do que a Terra consegue repor, segundo dados divulgados no ano passado pelo centro de pesquisas norte-americano Worldwatch Institute.

A saída é aprendermos a comprar menos e melhor, de acordo com Estanislau Freitas Jr., coordenador de comunicação do Instituto Akatu, voltado para a promoção do consumo consciente. Ou seja, adquirir só o que for mesmo necessário, usar o produto enquanto for possível e depois encaminhá-lo à reciclagem. “Não se trata de ser contra o consumo. Nós precisamos consumir para sobreviver. Mas é necessário repensar a maneira como fazemos isso. E logo.”




“Quando a experiência terminou, a primeira coisa que fiz foi procurar um vestido florido, que já estava com saudade de usar. E aí percebi que estava encarando meu guarda-roupa com outros olhos. O fato de ter passado um mês afastada dele, sem que isso resultasse em nenhum drama, finalmente me libertou do apego que eu tinha por peças ali guardadas que eu não usava havia muito tempo. Juntei calças, blusas, sapatos, biquínis mil e dei à moça que trabalha na casa de minha avó. Ficamos as duas felizes.

Como o desafio acabou em 10 de dezembro, as lições que aprendi logo passariam por um grande teste: as compras de Natal. Pois me saí bem. Só dei presentes que eu sabia que seriam utilizados de verdade, e não esquecidos num canto.

Comprar é muito mais que satisfazer um capricho pessoal. É tomar para si uma parte do planeta, que depois voltará à natureza em forma de lixo. E estamos fazendo isso num ritmo que a Terra não aguenta. Passar por essa expe­riência de um mês me ajudou a entender minha responsabilidade nesse processo. Daqui para a frente, quero exercê-la da forma mais consciente possível.

 

CURIOSIDADES
Você sabia que...

• As reservas do mineral índio, usado em TVs, podem se esgotar em 2028. E as de cobre, utilizado em fios elétricos, em 2044.

• Se todo mundo consumisse como os norte-americanos, seriam necessárias mais de quatro Terras para suprir a demanda.

• A humanidade já consome 30% a mais do que a Terra consegue repor. Será preciso criar limites de compra por pessoa?

• Para cada roupa nova que você compra, doe uma velha. Você faz alguém feliz e ainda libera espaço no armário.

• Em vez de coisas, prefira comprar experiências, como viagens. Imateriais, elas duram para sempre em nossa memória.

• Melhor que comprar pode ser trocar. Procure bazares desse tipo, ou sites como aquitrocatudo.com.br ou tomaladaca.com.br.

 

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Comentários:
Esta matéria veio de encontro ao consumismo que impera na atualidade. Para viver bem, bastam alguns objetos e muitas ideias. Certa vez, quando minha vida passou por uma reforma passei 1 mês na casa da minha mãe com uma mala de bordo. Vivi meu dia a dia tranquilamente com apenas algumas roupas, dois pares de sapatos, um chinelo e um tênis. A partir daquele instante mudei meus conceitos sobre o consumo. Para ser feliz não é necessário "ter", mas "ser". Espero que com esta ótima reportagem as pessoas reavaleim seus conceitos.
Lígia Maura Sparapani
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