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Chefia: o Y da questão

Às 10h45, o telefone toca na casa do ex-jogador de futebol e ídolo flamenguista Júnior. A esposa do craque avisa que ele está na praia, como faz quase todas as manhãs. E emenda: “Ele está jogando. Liga um pouco mais tarde”.
Júnior ama ter a bola nos pés, o poder de decisão na ponta das chuteiras. Tanto que adiou ao máximo o momento de se afastar da bola: ficou em campo até os 38 anos. E assim que deixou os gramados, em 1993, encarou uma nova empreitada. Como muitos ex-jogadores, virou técnico. “Mas é difícil lidar com a burocracia, o jogo de interesses, orientar os jogadores e também administrar. Não me sentia confortável naquela posição”, diz o meio-campista.
Júnior assumiu o posto de treinador três vezes – duas pelo Flamengo e a última pelo Corinthians, em 2003 – mas enfim decidiu que não queria saber do cargo. Logo após a despedida dos gramados, Júnior havia se lançado no futebol de areia. E resolveu centrar seus esforços no que sabia fazer: jogar. Redefiniu as regras e as dimensões de campo e arquitetou a arbitragem. Tornou-se um dos maiores jogadores de futebol de praia do mundo.
Esse desconforto na posição de comandante de um time é constante para quem vive as atribuições de chefe na profissão, mas não se sente à vontade. “Sou mais eu com a chuteira nos pés”, diverte-se Júnior, que, quando não está jogando, é comentarista esportivo. Ele sabe que, para quem prefere fazer, mais que mandar fazer, a oportunidade de chefiar pode ser um suplício.
“A pessoa é especialista no que faz e ama seu cargo. Então, surge uma promoção irrecusável para um cargo de chefia. Mas, ao aceitar, o profissional sente que gostaria de continuar a fazer o que sempre fez”, diz Gilberto Guimarães, professor de liderança da Business School de São Paulo. E os motivos pelo desconforto podem ser vários. Às vezes, o que incomoda são as responsabilidades, a burocracia ou a agenda estressante de reuniões. Há quem se sinta mal apenas em ser chamado de chefe.
Entre dois caminhos
A sorte dessas pessoas é que, desde a metade dos anos 1960, surgiram as funções especializadas: postos que exigem técnicas aprimoradas, e não a gestão de pessoas. Ou seja, tornou-se possível crescer na profissão sem virar chefe. Essa escolha pela especialização ganhou o nome de carreira em Y. A letra simboliza a bifurcação entre a área técnica e a administrativa e o crescimento de ambas em paralelo. E, aí, quem caminhar em Y pode evoluir na carreira sem ter de passar pela chefia. “Um maestro não precisa ganhar mais do que um virtuose no violino em uma orquestra”, afirma Guimarães. “Como um jogador de futebol, que pode ter um salário bem maior que o de seu técnico.”
Nos últimos anos, esse tipo de carreira apareceu em multinacionais de grande porte, principalmente nas áreas de inovação e tecnologia. Nessas empresas, há técnicos em posições (e salários) equivalentes às das áreas administrativas. Para alcançar esse patamar, eles foram atrás de cursos e pós-graduações. Mas, para quem não está em empresas assim, o caminho para não ser chefe pode ser tortuoso.
Será que não consigo?
“Cheguei a pensar que eu era incompetente”, afirma Felipe Cavalcanti, assistente de gestão de políticas públicas da prefeitura de São Paulo. Convidado a desempenhar uma função executiva, ele começou gerenciando três pessoas. Dois anos e meio mais tarde, eram vinte profissionais. “As coisas que eu mais gostava de fazer, como as análises, eu delegava aos outros. Passava o dia em reuniões”, conta. Insatisfeito, ele pediu exoneração do cargo que exercia e retomou a função de analista. “Deixar o posto foi o momento mais delicado da minha carreira”, diz Felipe. Afinal, ele abriu mão de um cargo de poder.
"Especialistas gostam de ensinar
e abrem novos caminhos no trabalho"
Mas, vivenciando um lado desconhecido da profissão, Felipe entendeu o que mais gostava de fazer. No caminho entre ser ou não chefe, é esse autoconhecimento o principal fator para descobrir para onde ir. É preciso reconhecer seus limites e aceitar que o cargo de chefia exige características próprias. “Ser um bom ouvinte e comunicador é importante para um chefe”, comenta Joel Souza Dutra, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (Fea-Usp).?Outras qualidades são a capacidade de delegar responsabilidades e ser coerente com suas demandas, além de acompanhar resultados e saber cobrar. “Não guardar rancor também é necessário, já que um gestor deve reconhecer e apontar falhas, resolver o problema e partir para o próximo desafio”, diz Dutra.
Para quem não se sente à vontade com esses atributos, existem possibilidades que não incluem ser chefe. “Quem é especialista no que faz costuma ter prazer em ensinar. E pode tentar abrir caminhos nas empresas, demonstrando o valor do que faz por meio de resultados”, afirma Dutra. Ou seja, usar a experiência para se reinventar. O mais importante é sentir-se feliz com o cargo que exerce, descartando os estereótipos. Afinal, avisam os especialistas, é mais difícil lidar com a insatisfação profissional que com o preconceito externo. Há pessoas que não sentem o coração pulsar em postos elevados, e sim pondo a mão na massa. E tudo bem.

















































