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Cidadania digital

Parecia um blecaute. Em 27 de março deste ano, as casas de 58 mil brasileiros de todas as regiões do país e as sedes de mais de 4,5 mil instituições, entre empresas, ONGs, governos e escolas, tiveram suas luzes desligadas por 60 minutos. O mesmo ocorreu em várias outras partes do mundo. A Hora do Planeta, como se chamou a campanha, foi organizada pela ONG WWF com o objetivo de alertar a humanidade para as questões ambientais. Como foi possível conseguir a adesão de tanta gente? Usando o meio de comunicação mais completo e democrático já criado pelo homem: a internet.
Mobilizações políticas organizadas na rede de computadores são cada vez mais comuns. Iniciativas como a Hora do Planeta mostram quanto a internet é capaz de agregar pessoas com os mesmos ideais. Outros projetos levam esse potencial ainda mais adiante, aproximando os cidadãos dos governantes e transformando discussões virtuais em melhorias reais.
O estudante Luiz Ballas, de 15 anos, é um exemplo de quem está fazendo isso acontecer. Adepto da bicicleta como meio de transporte, ele acha que faltam ciclovias em Jundiaí (SP), onde mora. Em agosto do ano passado, Luiz conheceu o site Cidade Democrática, que visa a estimular o diálogo entre cidadãos, empresas, entidades e governantes. Fez o cadastro, que é gratuito, e clicou na opção “Aponte um problema”, em que expôs sua opinião.
O post gerou mais de uma centena de comentários e ganhou o apoio de diversos usuários. Movimentos como o Bicicletadas, voltado para o cicloativismo, e o Voto Consciente, que desde 1987 estimula a conscientização política no país, aderiram à causa. No total, sete entidades se uniram, formando o Comitê Cidade Democrática de Jundiaí, que levou à prefeitura 12 propostas, incluindo a implantação de ciclovias.
O deputado estadual Pedro Bigardi, também usuário do Cidade Democrática, tomou conhecimento do comitê e decidiu apoiá-lo, aprovando uma emenda de 250 mil reais. Em julho deste ano, a prefeitura de Jundiaí apresentou um novo plano diretor, que prevê a construção de 25 quilômetros de ciclovias nos próximos cinco anos. Ao ver sua ideia próxima de se concretizar, Luiz se sente ainda mais motivado a continuar discutindo melhorias para sua cidade. “Aprendi com os meus pais a não me acomodar com o que é imposto”, diz.
“O site surgiu para nos ajudar a sair do discurso pobre de apenas criticar os políticos, sem fazer nada para colaborar”, afirma Rodrigo Bandeira, de 39 anos, criador do Cidade Democrática. Ex-assessor na Casa Civil do Estado de São Paulo, ele teve a ideia de desenvolver o site ao perceber que a comunicação entre o governo e a população costuma ser ineficiente. Hoje, há 3,5 mil pessoas cadastradas na plataforma. Rodrigo quer chegar nos 2 milhões. “Tudo vai depender da divulgação dos próprios usuários e da vontade de fazer diferente”, diz.
Mandato virtual
Melhorar o canal de informações entre cidadãos e políticos também é o mote do Vote na Web. Criado pela empresa Webcitizen, o site apresenta em linguagem simples e direta os projetos que estão tramitando no Congresso Nacional. E os usuários podem dizer se aprovam ou não.
Na segunda semana de setembro, enquanto elaborávamos esta reportagem, um dos projetos em destaque no site, do deputado federal Ronaldo Caiado, propunha a inclusão de noções de ciência política no ensino médio. Até então, 95% dos usuários eram a favor. A data de apreciação no Congresso estava ainda indefinida.
Quando os projetos são votados pelos parlamentares, o resultado oficial é publicado no site, ao lado da enquete virtual. Então, percebe-se quanto os políticos podem divergir da opinião pública. Uma proposta do senador Marco Maciel, por exemplo, que proíbe a prisão de candidatos no período de 15 dias antes das eleições, exceto em flagrantes, foi rejeitada por 100% dos usuários do site, mas aprovada por unanimidade pelos parlamentares, em agosto deste ano.
O Vote na Web também permite ao cadastrado avaliar sua afinidade com os políticos, partidos e demais usuários, por meio do histórico de votos de cada um. Ao usar essa ferramenta, o estudante de direito Cleyton Abreu, de 23 anos, de São Paulo, ficou surpreso: “O partido que vota mais parecido comigo, segundo o site, eu mal conhecia. E o que eu mais admiro ficou em sexto lugar!”, diz.
O site também estimula os usuários a debater e divulgar a pauta do Congresso em outras redes sociais, como o Twitter e o Facebook. Assim, mais gente pode apoiar as propostas com as quais concorda e criticar as que repudia. O que você acha, por exemplo, do projeto do deputado federal Edigar Mão Branca, que quer instituir o Dia Nacional do Sexo em 14 de janeiro, data do aniversário do próprio Edigar? Acesse http://migre.me/1hfNu para dar sua opinião.
Sites como o Cidade Democrática e o Vote na Web mostram que a internet é uma valiosa aliada para nos aproximar das decisões do país. E nos alertam para uma característica fundamental da consciência política: mais forte ela fica se for exercida diariamente, e não apenas no ano ou no dia das eleições.
Clique aqui e confira uma lista com mais alguns sites cidadãos.

















































