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Cidade de cara nova

Viadutos cinzentos podem virar parques. Prédios abandonados, centros culturais. Ocupações irregulares, exemplos de preservação. A revitalização melhora não só a paisagem da rua como a autoestima de quem nela vive
Texto: Jeanne Callegari // Ilustração: Adriana Komura
Cidade de cara nova
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Veja as duas fotos ao lado. Na primeira, um cenário cinzento: um viaduto corre sobre uma avenida, e automóveis passam na altura das janelas dos prédios, despejando monóxido de carbono na casa das pessoas. Só de olhar, dá quase para sentir o cheiro da fumaça e o calor do asfalto. Agora, veja a segunda imagem. Rio limpo, vegetação, gente passeando, uma convidativa paisagem colorida. Dá para imaginar que se trata do mesmo lugar?

Acredite se puder: as imagens mostram o passado e o presente do rio Cheong-gyecheon, em Seul, a capital da Coreia do Sul. Nos anos 1970, ele foi coberto de asfalto para dar passagem aos carros. Alguns anos depois, ergueu-se um viaduto sobre o local. Em 2003, o prefeito Lee Myung Bak resolveu demolir o elevado, quebrar o asfalto sobre o rio e fazer o tratamento da água, que àquela altura não passava de um fiozinho tímido e sujo.

As obras duraram dois anos. Ao final, a orla do rio virou um parque linear, onde os casais namoram, os mais velhos descansam, as crianças brincam com os pés na água limpa. Com investimentos no transporte público, o trânsito não sentiu falta da antiga via – quem seguiu andando de carro descobriu caminhos alternativos. A população gostou tanto que o prefeito foi eleito presidente do país. E Seul virou um exemplo mundial de que é possível, sim, melhorar radicalmente as cidades onde vivemos.

A fábrica que virou praia


Deste lado do mundo também há iniciativas bem-sucedidas de revitalização urbana. A Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, é uma prova de que nem sempre é preciso derrubar o que se degradou para tornar o ambiente mais agradável e útil. O prédio, que fica à beira do Guaíba – o rio mais emblemático da cidade –, era uma usina termelétrica, inaugurada em 1928. Ela funcionou por quase 50 anos, ficou abandonada por muito tempo, e o governo decidiu por sua demolição.

Foi aí que a população mostrou sua força, protestando contra a destruição. Afinal, o edifício era um símbolo da cidade. Diante da mobilização, a prefeitura recuou. Em 1989, o prédio virou centro cultural, e seus 18 mil metros quadrados se abriram à população.

A segunda grande reforma da usina viria em 2005. “Percebemos que o local funcionava como centro de eventos, mas não tinha nenhuma atividade permanente”, diz Caco Coelho, diretor da Usina do Gasômetro. Para suprir essa falta, foi criado o projeto Gestação Cultural Usina das Artes, que começou com o convite a algumas companhias teatrais  para que se instalassem no local. Com elas, vieram também novas parcerias.

Os porto-alegrenses passaram a frequentar cada vez mais a Usina, e também seu entorno. “A população se reaproximou do rio Guaíba por causa da reforma”, diz Caco. Embora não seja lugar para banhos, a região mudou do clima de porto degradado para o de praia bacana. Hoje, o Gasômetro recebe cerca de 1 milhão de visitantes por ano, atraídos pelas 2 mil atividades culturais realizadas anualmente, pela beleza do prédio restaurado e pela vista privilegiada para o famoso pôr do sol da cidade.

Poesia nos galpões

A Usina do Gasômetro pertence ao governo. Mas a iniciativa privada também tem um papel importante na hora de revitalizar espaços. Em São Paulo, um dos casos mais exemplares é o do Sesc Pompeia, inaugurado em 1977. Onde antes funcionava uma fábrica de embalagens metálicas, a arquiteta Lina Bo Bardi, a convite do Serviço Social do Comércio, concebeu um centro de lazer e cultura. O projeto funcionou tão bem que arquitetos do mundo todo vêm conhecer.

Ao visitar o edifício em um fim de semana, antes de começar o desenho, Lina deparou com uma situação inusitada. Apesar da estrutura caindo aos pedaços, a fábrica estava cheia de vida. Na falta de outro espaço de lazer no bairro, jovens jogavam bola, mães preparavam sanduíches. Tinha até teatrinho de bonecos. “Pensei: isso tudo deve continuar assim, com toda essa alegria”, escreveu a arquiteta sobre a visita. O raciocínio orientou o desenho do projeto, que, assim como no Gasômetro de Porto Alegre, manteve boa parte da estrutura original, adaptando-a ao uso cultural.

Hoje, conhecido por sua vasta programação de shows, exposições, torneios esportivos e cursos, além de várias outras atividades, o Sesc Pompeia é um centro de referência de revitalização na capital paulista. “Obras como essas têm um poder de contágio grande. Elas contaminam toda a população”, afirma o arquiteto Marcelo Ferraz, que colaborou com Lina no projeto.

Ecologia no mangue

Em alguns casos, é a população que toma as rédeas da situação e provoca as melhorias no local onde mora. O pessoal de Vila Esperança, em Cubatão (SP), que o diga. Surgido há 30 anos, com a  ocupação irregular de uma área de mangue, o bairro hoje vive um equilibrado processo de desenvolvimento urbano e preservação ambiental. E boa parte dessa transformação se deve à atuação de um de seus moradores: Sebastião Ribeiro, o Zumbi de Cubatão.

O sexto morador a chegar à vila, Zumbi acompanhou desde o início seu crescimento desordenado, marcado por um conflito que parecia sem solução. De um lado havia a prefeitura, querendo parar com as invasões; de outro, os moradores, exigindo redes de água e luz.

Em 1999, Zumbi – que só aprendeu a ler aos 13 anos – fundou, com outros moradores, a associação Cubatão de Bem com o Mangue, que tem por objetivo educar os moradores para preservar o lugar. No primeiro mutirão de limpeza que organizou, apenas quatro vizinhos se ofereceram como voluntários. No segundo, em 2000, apareceram 300, que retiraram 75 toneladas de lixo.

Para proteger a área verde que ainda não havia sido ocupada, ele construiu uma cerca em volta dos 16 quilômetros do bairro que beiram o mangue. Assim surgiu um acordo com o Ministério Público: os moradores não invadem a área preservada, enquanto a prefeitura se responsabiliza por levar a infraestrutura à parte já ocupada.

Na luta pelo progresso sustentável, a associação também oferece cursos aos moradores, como os de capoeira e inglês. “Fácil não é”, diz Zumbi. “Mas a gente acredita no poder da educação.” E, assim, com o trabalho conjunto, a Vila Esperança evolui, combinando cada vez mais com o nome que tem.

Tem de ser para todos

A revitalização da Vila Esperança, do Sesc Pompeia e do Gasômetro é especialmente interessante porque fica evidente que toda a população se beneficia das transformações feitas na região. Mas nem sempre isso ocorre. “Em alguns casos, o que se dá é o enobrecimento de uma área, com o afastamento das pessoas mais pobres”, diz Abilio Guerra, professor de história da arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Segundo ele, quando o objetivo é esse, o uso da palavra “revitalização” é inadequada.

Para que isso não aconteça, é necessário tomar alguns cuidados. Em primeiro lugar, a população deve estar sempre envolvida no processo. Além disso,
é preciso fornecer algum tipo de subsídio para que os moradores originais possam continuar no local. “Muita gente herda a casa dos pais e mora em um bairro por décadas. Quando finalmente as melhorias começam a ocorrer, as pessoas não têm como pagar os impostos mais altos –
e aí precisam se mudar”, comenta Guerra.

Quando se dá de forma justa, a revitalização se revela muito mais do que uma obra. Aumenta a autoestima das pessoas e torna o convívio mais agradável, além de provar que, se todos se empenharem em fazer de sua cidade um lugar melhor, vão conseguir.
 

O bairro em suas mãos

Sua cidade precisa de um processo de revitalização? Veja o que você pode fazer para ajudá-la

Conhece um lugar degradado que poderia ser revitalizado? Chame outros moradores e apresente sua ideia à prefeitura. Um vizinho engenheiro ou arquiteto pode ajudá-lo no desenho. Um empresário pode investir financeiramente. Além disso, movimentos organizados têm mais chance de influenciar os governantes.

Em algumas cidades é possível “adotar” praças ou outros lugares públicos. Informe-se na prefeitura.

Se conhecer um prédio bacana que pode ser tombado como patrimônio histórico, procure o órgão responsável. Informe-se na Secretaria de Cultura de seu município ou estado. 

 

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