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Colecionadora de histórias

Karen Worcman sempre foi apaixonada por histórias. Ainda criança, devorava incontáveis livros de tramas fantásticas e permanecia sempre muito atenta às narrativas de vida contadas pela família. Quando ia à praia, a pequena carioca era capaz de ficar horas e horas sozinha, só escutando a conversa alheia e imaginando como seria a vida daqueles desconhecidos. Viajava pelo mundo, pelos dramas e pela felicidade humana a partir do olhar do outro.
Na faculdade, naturalmente, decidiu cursar História. Aí notou que os relatos pessoais podem fazer muito mais do que entreter. Percebeu seu imenso valor social, sua capacidade de transformar quem conta e quem ouve, de mudar o jeito de pensar a memória não só de uma pessoa, mas de uma comunidade, de uma cidade, de um país, da humanidade inteira. Essa percepção definiu o que faria pelas décadas seguintes.
Em 1991, já em São Paulo, ela criou um museu diferente de qualquer outro já visto. O Museu da Pessoa não tem salas de exposição nem acervo palpável. Não é preciso ir lá para apreciar suas obras – basta acessar a internet. E qualquer um pode mandar sua história, na velocidade de um clique. Mais de 12 mil relatos já foram coletados. Cada um abre uma porta para uma época, um lugar, uma visão de mundo. Na entrevista a seguir, Karen, hoje com 47 anos, mostra de onde surgiu essa ideia e explica como contar e ouvir relatos de vida pode ser uma experiência engrandecedora.
Qual o sentido de existir um museu que coleciona histórias de vida?
Karen – A ideia de criar o Museu da Pessoa surgiu com base em dois conceitos: um muito antigo e outro contemporâneo. O antigo é a necessidade que o homem tem, como indivíduo e como grupo, de deixar sua marca no mundo. Desde os tempos das cavernas, o homem se empenha nisso, seja fazendo filhos, criando a linguagem, desenvolvendo a medicina. No campo da cultura, essa necessidade se apresenta por meio de quadros, livros, monumentos... E museus – que surgiram entre os séculos XVII e XIX para reunir objetos de pessoas da elite.
E o conceito mais atual?
Karen – Trata-se da percepção de que a permanência não precisa estar calcada apenas nos objetos físicos ou nos documentos oficiais de pessoas da elite. Todos nós podemos contribuir para a história da humanidade. E isso também pode ser feito a partir de coletâneas de memórias. Assim, a vida de qualquer pessoa é um potencial objeto de museu.
Qualquer um pode ir até o museu e registrar sua história?
Karen – Sim, basta agendar um horário ou mandar seu depoimento em texto, vídeo ou áudio pela internet. Pode ser a história da vida inteira ou apenas um episódio. Não importa se é uma história grande ou pequena, de rico ou de pobre, de jovem ou de velho, bem ou mal contada. Não precisa nem ser a própria história: pode ser um relato ouvido de um parente ou amigo.
Quem vai ao museu é só quem já tem o hábito de cultivar suas memórias?
Karen – Não. Muita gente conta sua história aqui pela primeira vez. E isso tem um grande impacto. A gente fez uma pesquisa com 2 mil pessoas que compartilharam seus relatos. A maior parte explicou que a intenção de contar sua história era dividi-la com a família ou a sociedade em si. Outra pergunta foi sobre o resultado que a experiência teve sobre os próprios depoentes. Em primeiro lugar ficaram as respostas referentes a autoconhecimento e reflexão, como “Foi como uma viagem por mim mesmo, que me proporcionou novas descobertas”. Em seguida, vieram frases do tipo: “Tirei alguma coisa de mim, foi como um alívio”.
Quer dizer que contar a própria história pode ser um ritual transformador.
Karen – Sim. Ao fazer isso, a pessoa é capaz de parar para entender a maneira como organizou sua existência. É diferente de consultar um terapeuta ou de manter um diário, porque não é o registro do dia a dia nem a análise de problemas específicos, mas a revisão da própria história de vida. E isso tem um imenso poder libertador, valorizador e de descoberta das responsabilidades no decorrer da vida – além do prazer de ser ouvido
e de se sentir parte de um coletivo de relatos que formam uma história maior.
Entre as histórias que você já coletou para o museu, qual te impactou mais?
Karen – Foi uma vez em que entrevistei um pastor religioso. No início, fiquei pensando que era do tipo que só quer ganhar dinheiro à custa dos outros. Mas aí comecei a entrevistá-lo e vivi um dos dias mais impactantes da minha vida. Uma história é poderosa quando ela te quebra um preconceito, e foi o que aconteceu.
Como era a história?
Karen – Ele era migrante, chegou a São Paulo e percebeu que ganhar dinheiro não seria tão fácil. Aí fez uma promessa: se Deus o ajudasse a conseguir o emprego que ele queria, ia se dedicar a ajudar os outros. Tempos depois, foi contratado como metalúrgico. E passou a distribuir café e cobertores aos mendigos. Um dia, um morador de rua lhe disse: “Você é um hipócrita. Me ajuda, mas depois volta pra sua casa e eu fico aqui no frio!”. Resultado: quando fizemos a entrevista, o pastor tinha 40 pessoas abrigadas na residência dele. Aí eu quebrei meu preconceito. Ele me mostrou, da maneira mais forte, que saber até onde ir só depende da gente.
Então, ouvir uma história pode ser tão impactante quanto contá-la...
Karen – Com certeza. Você não se transforma quando assiste a um bom filme ou lê um livro incrível? Viajar na vida de alguém é uma possibilidade de ver o mundo com outros olhos – o que nos permite aprender, crescer, nos transformar.
Para conhecer histórias de vida ou contar a sua, acesse www.museudapessoa.net.


















































