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Com a corda toda

Dar a corda no primeiro brinquedo, aprender a amarrar o cadarço, dominar um nó de escoteiro, tricotar, fazer o laço do presente ou, com magia, amarrar a pessoa amada. Há também o nó cego, aquele impossível de desatar e que, por isso, virou gíria para o menino que não tem jeito. Estamos tão envolvidos em cordas que falar delas vai além de barbantes e linhas: evocam lembranças, partes da nossa vida. Por seus fios, viajamos pela história. Essas tramas acompanham tecnologias utilizadas pelo homem em muitas civilizações, produzidas com vários materiais - couro de animais, crina do cavalo, fibras de plantas -, até chegar aos plásticos resistentes de hoje. Foi por meio das cordas que pudemos domesticar animais e levantar blocos e toras de madeira. Sem elas, os egípcios não teriam construído as pirâmides, nem os romanos, o Coliseu. E Cabral não teria chegado aqui... haja corda para içar as velas daquelas embarcações! Isso sem falar nas mil utilidades cotidianas: amarrar sapatos, espartilhos, encomendas. Fora que não dá para pensar em algumas profissões sem as cordas: o que seria do vaqueiro sem seu laço? Resistentes ou elásticas, de qualquer formato ou espessura, elas ainda são motivo para mexer o corpo e experimentar o desconhecido. Entrelaçados em cordas, podemos escalar montanhas, atravessar abismos, capturar desafios, rodar brinquedos, nos balançar no vazio. É que, como comprovam as histórias a seguir, são elas que nos dão a segurança para perder o equilíbrio sem cair.

Foto: Rodrigo Braga
Arquiteto do equilíbrio
A origem é circense. Mas, quando a corda bamba sai do picadeiro, ganha outro nome: slackline. O esporte consiste em andar sobre uma fita de náilon, geralmente a 10 centímetros do chão, sem cair. Esticada entre árvores, postes ou pilares, a corda costuma ter entre 2,5 e 8 metros de extensão. Mesmo quase tocando o solo, a tarefa é digna de equilibristas. “O começo é difícil, mas foi justamente o desafio que me motivou”, diz Vinícius Gomes, 32 anos, de São Paulo. O arquiteto conheceu o slackline em um festival de música há um ano e meio, quando viu crianças brincando. Experimentou, cambaleou e decidiu dedicar-se a treinos semanais. A dificuldade em arrumar equipamentos levou-o a montar a própria linha de acessórios. Foi assim que largou a arquitetura para viver na corda bamba. “Com o slackline, eu fico ao ar livre 24 horas: nas cordas e nas viagens para divulgar o esporte”, conta. Entre as manobras radicais que se pode fazer na fita, estão andar com um pé só, percorrer distâncias de centenas de metros, caminhar sobre rios ou mares. Quando a altura alcança quilômetros, na travessia de cânions, por exemplo, uma rede de proteção garante a segurança. Para Vinícius, é emoção que dá um baile em qualquer exercício. “É o esforço físico da aeróbica com o bem-estar da ioga.”

Foto: Karina Lopes e Jefferson Rocha/Estúdio Arte de Fotografar
Um amor nas alturas
O amor de Walace Carvalho por Gleyce Hoffmann levou-a às alturas. Mais precisamente ao topo do Morro do Moreno, em Vila Velha, no Espírito Santo, onde ele a pediu em casamento em maio deste ano. Pendurada a 184 metros do chão, com o vestido de noiva entre as cordas de rapel, Gleyce disse “sim”, provando que o amor faz mesmo a gente flutuar. Juntos desde 2010, foi a segunda vez que o casal comemorou a aliança que virá. No começo do ano, em Vitória, o mecânico Walace, de 27 anos, já havia pedido oficialmente a mão de Gleyce, credenciadora de planos de saúde, de 28 anos. Mas o noivo resolveu ir mais longe. “Brincando, perguntei se ela tinha medo de altura. Como ela respondeu que não, resolvi fazer um novo pedido no topo do morro, onde estaríamos só nós dois.” Walace é adepto de esportes radicais, como o rapel - uma espécie de escalada ao contrário, em que o objetivo não é subir, e, sim, descer paredões com a ajuda de cordas. Já Gleyce nunca tinha subido tão alto - e a aventura toda foi uma surpresa. Quando entrou no carro vestida para se casar, achava que iriam para uma sessão de fotos de noivado. “Sabia que ele havia preparado algo diferente. Só não imaginava que fosse tão especial!”, conta. Pois com a ajuda de fotógrafos e de uma equipe de escalada, Walace montou os equipamentos para reiterar seu pedido longe do chão. “Nunca tinha feito rapel e tive medo”, confessa a noiva. “Mas o Walace me tranquilizou, e, ao lado de quem amo, foi mais fácil.” Por segurança, a troca de alianças só aconteceu depois que o casal colocou os pés no chão. Sobre a cerimônia de casamento, no ano que vem, Walace mantém o mistério. “Farei alguma surpresa. Só ainda não sei qual exatamente...” Prepare-se, Gleyce.

Foto: Guilherme Gomes
Iô-iô desde pequeno
Brincando, Anselmo Gomes tornou-se um profissional. De ioiô. No início, ele foi só acompanhar os dois irmãos mais velhos em um campeonato. Eles ganharam os prêmios da campanha de refrigerante, que distribuía o brinquedo, e começaram a praticar. “Depois, eles desistiram... e eu não parei nunca mais”, conta o paulistano, hoje com 40 anos. Era 1985, e, a partir de então, Anselmo já viajou com seu brinquedo pelo Brasil e laçou prêmios. Há 10 anos, ele criou com outros adeptos a Associação Brasileira de Ioiô. É com ela que consegue patrocínio para equipes competidoras do país. Não satisfeito, começou a organizar campeonatos e a treinar os novatos de graça, em encontros nos parques da cidade. São nessas apresentações, combinadas no site da associação, que aparecem os novos talentos. “Tem uma criançada que sabe todas as manobras e inventa outras dificílimas, melhorando cada dia mais. Surpreendem até nós, que jogamos há 30 anos!”, orgulha-se. E o que começou como brincadeira hoje é terapia e meio de vida. Além de praticar em casa e ensinar a meninada, ele realiza oficinas abertas para difundir a prática. Algumas são organizadas por prefeituras e bibliotecas, que o remuneram para mostrar os segredos de sua arte. “Nos últimos tempos, tenho vivido em prol do ioiô”, comemora ele - que, antes de conquistar essa, digamos, independência profissional, foi jornalista, fotógrafo e assistente gráfico. A vontade agora é mesmo cultivar herdeiros: os sobrinhos são presenteados com ioiôs e aulas de manobra. A última alegria foi quando a namorada, espontaneamente, se interessou pelo jogo. “Adoro ver o ioiô no ar, fazer e refazer as manobras que sei e ter tudo isso como uma prática em minha vida - mesmo que sejam apenas alguns minutos diários.”
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Clique aqui e confira as acrobacias que o grupo Pé de Mola realiza com uma corda nas mãos.


















































