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Com quantas profissões se faz uma carreira

Fabíola Medeiros tinha 32 anos e trabalhava como relações-públicas na única multinacional de Alfenas, em Minas Gerais. Casada e com dois filhos, era exemplo de mulher de sucesso. Gustavo Brusca, aos 47 anos, era gerente de produtos de uma indústria têxtil de São Paulo, ditava tendências desenvolvendo tecidos, estampas e fios e ganhava um salário de alto padrão. Em comum, também tinham a certeza de que estavam insatisfeitos com sua profissão. Caminhavam a passos largos, mas não para onde queriam. Era preciso parar e recomeçar a trilha – em novo rumo.
Há cinco anos, Fabíola largou a carreira empresarial dos últimos quinze para se tornar fotógrafa autônoma. Ela tinha certeza de que era o que queria e de que tudo daria certo – ao contrário da vizinhança de Alfenas. “Fui tachada de louca. Diziam ‘por que uma mulher com dois filhos larga um bom emprego pela fotografia?’”, relembra. Oras, porque queria mais tempo com as crianças, menos burocracia, mais criatividade e voltar a aprender – coisas que não tinha naquela vida. Gustavo também deixou o design, há pouco mais de um ano, para abrir o próprio bistrô. Ganha quatro vezes menos, trabalha quatro horas a mais por dia, mas está bem mais feliz do que com o emprego anterior.
Histórias como essas já não são meras exceções. Cada vez mais gente busca uma carreira mais condizente com seus valores e vontades, mesmo que só descubra qual é ela no meio de uma vida profissional já estabilizada e aparentemente bem-sucedida. Se, há poucas décadas, a regra era trabalhar a vida inteira na mesma empresa até se aposentar, hoje o conceito perde adeptos. Uma pesquisa entre homens norte-americanos mostrou que, em 1983, eles ficavam, em média, até quinze anos no mesmo emprego. Hoje, esse tempo não passa de dez anos, segundo o Ministério do Trabalho dos EUA. “A estabilidade e a segurança perderam a importância que tinham antigamente”, explica o professor de sociologia da Universidade de São Paulo Álvaro Comin. “No atual modelo, a gente tem mais insegurança, mas também mais espaço para a individualidade.”
Fabíola e Gustavo largaram o emprego estável e arriscaram tudo em
novas profissões. Ele trabalha mais e ganha menos. Ela demorou
anos para recuperar o padrão de vida. Mas estão, enfim, felizes
Qualidade de vida e liberdade ganharam espaço entre critérios tradicionais como status, dinheiro e estabilidade na hora de escolher uma carreira. Trata-se de passar a desejar um emprego que permita mais satisfação, diversão, tempo livre ou flexível, ou até a possibilidade de viajar e morar onde quiser.
O peso da frustração
Gustavo, depois de abrir seu restaurante e tornar-se empreendedor, deu fim a trinta anos de frustração como gerente de indústria. Mesmo trabalhando mais, faz isso vibrando. E jura que mal vê a hora passar. “As pessoas tendem a achar que só trabalhando menos é possível ser mais feliz. Mas não é o tempo que define se você vai ficar estressado”, diz Gustavo. “A felicidade e o trabalho têm de andar juntos. Em dezessete anos de clínica, vejo que não há outra solução”, diz o psicoterapeuta e consultor profissional Leonardo Fraiman. “Se você está insatisfeito e acha que é difícil mudar, pense em como é não mudar. Garanto que é muito mais difícil”, diz.
A idéia é a seguinte: se fazer uma reviravolta na vida profissional é complexo, envolve riscos financeiros, incertezas e medos, não se pode deixar de colocar na balança a energia despendida para continuar a viver frustrado. Quem disse que ser infeliz é mais fácil? Fora que o esforço para se conformar com o que não faz bem acaba embaçando a visão na busca por novos caminhos.
No caso de Fabíola, que vivia insatisfeita e já gostava de fotografar desde que começou a clicar o primeiro filho, a clareza demorou nove anos para chegar. Foi o tempo necessário até que ela descobrisse e assumisse que era nos flashes que estava seu prazer. “Achei que essa satisfação viria de longe. Me distraí e não percebi que estava esse tempo todo ao meu lado”, afirma. Quando ela viu, precisou ter coragem para fazer os ajustes que a nova jornada exigia. Vendeu carro, móveis e tudo o que conseguiu para custear a mudança da casa de 450 m² para um apartamento de um quarto, com sala e cozinha conjugadas, em Ribeirão Preto, onde tinha família. Levou os dois filhos, mas o casamento não agüentou a transformação.
Nada se perde...
Aos poucos, as coisas foram voltando aos eixos. Um ano depois, Fabíola reatou com o marido. Mais outro ano – depois de rodar o país divulgando seu trabalho e montando uma rede de contatos e clientes – e ela já estava conseguindo pagar as contas, sem precisar mais viver da rescisão contratual. “Consegui me dar bem rápido porque usei as armas que sempre tive, como a capacidade de aglutinar pessoas e a criatividade.” Se nos tempos de relações- públicas ela organizava eventos e comandava equipes, hoje organiza palestras e seminários para fotógrafos que buscam estilo próprio. E consegue sucesso em sua atividade preferida, que é mesmo fotografar gente para books e editoriais, criando e dirigindo as cenas.
O exemplo mostra que mudar de emprego não é jogar fora nem ver como tempo perdido o trabalho anterior. Longe disso. “É a mudança de paradigma que estamos vivendo no mercado. Antes, pessoas com 50 anos numa mesma empresa valiam mais. Hoje, aquelas que circularam mais e com características pessoais condizentes com a função são muito valorizadas”, explica Comin, que pesquisa a relação entre diploma e área de atuação. Seus estudos mostram que o mercado aprova profissionais que transitam por várias áreas, mudam de empresa e mesmo de profissão. “Não há mais o peso de ter uma carreira cumulativa como uma escada. Há carreiras que são intercaladas, com mudanças de direção. Isso hoje é mais possível e até obrigatório”, completa.
Usando o que sabia e correndo atrás da mudança, Fabíola retomou seu padrão de vida, mas agora com tardes de folga ao lado dos filhos. Ela fotografa de manhã e no fim do dia, quando a luz está suave, como ela gosta. “A relação de trabalho está mais informal, o que gera mais insegurança em relação a 13º salário e férias, mas traz alguns benefícios. As mulheres, por exemplo, conseguem ajustar a agenda à das crianças. O trabalho ficou mais adaptável à vida privada”, diz Comin.
...tudo de se planeja
Outro mito relacionado à troca de profissão é o de que quem muda o faz por impulso, loucura ou por pouca responsabilidade. Mas a verdade é que dá para planejar cuidadosamente a mudança. Fabíola e Gustavo, por exemplo, começaram a atacar a nova carreira pelas beiradas. Ela usava os fins de semana para estudar com fotógrafos de renome, fazer leituras, enquanto investia em equipamentos. Seu filho era clicado cada vez com mais propriedade. Ele, também estimulado pelo nascimento do filho, há quinze anos, começou a aprofundar o gosto pela culinária fazendo cursos. Quando chegou a hora de mudar de direção, os dois já possuíam uma bagagem para partir em suas viagens. É o que Fraiman chama de transição lateral: começar estudos novos, fazer reservas financeiras e buscar informação para mudar.
Cameron Hood, 37 anos, já trabalhou em lanchonete,
mineradora, administrou hotel, teve construtora e hoje
ensina inglês: “Prefiro o que é bom no momento”, diz
Planejamento e mudança: assim tem sido a vida de Cameron Hood, de 37 anos. Nascido na Austrália, ele já trabalhou em lanchonete, em uma mineradora, administrou um hotel no Japão, teve uma empresa de construção e, nos últimos quatro anos, é professor de inglês no Brasil. “Não quero algo para o resto da vida. Prefiro o que é bom e interessante no momento”, garante.
Morando fora de seu país há cerca de dez anos, agora ele pensa em voltar para casa e para o mercado de turismo. Sem deixar outras janelas abertas para enxergar bem o horizonte – pode investir na bolsa ou encontrar outras oportunidades inesperadas por lá. Para estar sempre pronto, Cameron tem uma estratégia: faz cursos que aparentemente nada têm a ver com a profissão do momento, vive sem grandes luxos para economizar e mantém investimentos, incluindo uma poupança, que acumula desde que começou a trabalhar. Assim, financia suas escolhas, agüenta as vacas magras e ganha espaço para manobrar o barco de sua vida profissional.
A hora do camaleão
Espaço para mudanças é o que não falta em nosso mundo, cada vez mais acostumado a transições. Trocamos com mais velocidade desde os modelos do celular até as atitudes e o vocabulário diante de situações iguais. Para Comin, esse contexto é um convite para que as pessoas sejam menos sedentárias e fujam da estagnação. “Estamos inseridos em uma cultura da mudança. Desde que nascemos, nós aprendemos que tudo o que fazemos é provisório e vai desaparecer”, completa.
No mercado de trabalho, isso foi ajudado pelo número de profissões criadas nos últimos dez anos. Em 1996 havia 130 carreiras em universidades do Brasil. Pouco mais de dez anos depois, já são 569 cursos, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Há opções tão diversas que deixariam um jovem colegial de 1950 de cabelo em pé: cosmetologia, automação de escritórios, naturologia...
A armadilha desse modelo “camaleão” de sociedade é a gente confundir liberdade de escolha com incapacidade de persistir. “Às vezes, o que é tedioso e complexo tende a ser abandonado. Sem cobrança por acertos nem superação de dificuldades, largamos as coisas no primeiro desgosto”, diz Fraiman. Por isso é importante avaliar se você quer mudar a direção ou apenas trocar os ladrilhos do caminho. O problema não é só o chefe chato, a empresa inerte ou a função entediante. Conhecer áreas diferentes na mesma profissão, atualizar-se e ser criativo pode render mudanças bem estimulantes.
E, se for o caso mesmo de seguir outro lado da bússola, vá. “Satisfação costuma ser sinônimo até de dinheiro no bolso”, diz Fraiman, citando um estudo da Universidade de Maryland, nos EUA, que entrevistou 200 executivos com carreira bem-sucedida de mais de vinte anos. “Um dos fatores comuns entre eles foi que o trabalho tinha um sentido. Ninguém investe em uma carreira se não for feliz nela”, afirma.
Ainda falta coragem? “A gente superestima os efeitos da mudança e subestima os da satisfação. É também preciso coragem para se olhar no espelho todo dia sabendo que está infeliz”, completa. Saber que se caminha para o lado certo, mesmo com buracos e tropeços, pode ser bem mais gratificante do que andar de carruagem sem saber para onde ela vai.

















































