movimentar
Cometa um deslize

Quando uma criança diZ: “Mamãe, vem escorregar comigo!”, ninguém duvida de que é um convite para uma bela farra. Subir as escadinhas, sentar-se no alto e empurrar o corpo para baixo no escorregador, rumo à caixa de areia, é memória feliz de qualquer infância. Já na adolescência, a coisa começa a mudar. Escorregar na classe durante uma apresentação ou desequilibrar no meio da pista de dança na frente daquela paixonite é o terror da puberdade. E quando somos adultos... Vira pejorativo. “Se fulano escorregar de novo, aposto que demitem ele”, ouve-se. Como foi que uma diversão fundamental ganhou um sentido tão pesado? Escorregar é errar, é isso? Na verdade, deslizar por aí tem mais a ver com experimentar a emoção de estar no limite entre a estabilidade e a queda. É sentir-se livre, mas seguro. E, apesar do que se diz, muitas pessoas vêem essa sutileza. E cometem, sim, vários (deliciosos) deslizes. Conheça algumas dessas histórias e deixe-se levar.
Coisa de louco
Seu Nelson Flores acorda às 6 da manhã. Toma café, veste sua melhor combinação de short e camiseta e ruma para o Sesc Itaquera, a 40 minutos de ônibus de onde mora, em São Mateus, na periferia de São Paulo. Chega antes mesmo de os portões se abrirem, às 9. “Gosto de ser o primeiro”, diz. Em tudo, diga-se. Aos 70 anos, bem vividos, seu Nelson é um assíduo praticante de qualquer esporte que for convidado a jogar. Isso talvez explique o entusiasmo extra com que chega ao Sesc nessa época, férias de verão da neta Jéssica, de 11. Com ela, seu Nelson tem boa desculpa para praticar a atividade de que mais gosta: despencar no toboágua de 7 metros de altura do parque aquático do Sesc. “Eu gosto de emoção. Deslizar me dá uma felicidade rara”, diz, como quem precisa se justificar. É que a família pega no pé, o médico receitou pílulas para a pressão alta... E o velho ainda vai se meter em atividades estressantes? Mas é do prazer da adrenalina que ele fala. “As pessoas dizem que sou metido. Azar delas! Mal sabem como é bom gritar de lá de cima e fingir que a gente é um pouco louco de vez em quando.”

Mães sobre rodas
Só de pensar em seu mais novo companheiro, um par de patins pretos, a professora Sandra Graciano já se empolga. Aos 44 anos, faz só um que ela começou as aulas de patinação artística. Por muito tempo, apenas assistiu, com água na boca, aos três filhos adolescentes deslizarem pelo clube Palmeiras, em São Paulo. Tinha medo de arriscar: achava-se velha demais. Mas aquele olhar pidão comoveu o treinador da criançada, que a convidou para experimentar as rodinhas. “Não desci mais dos patins”, diz Sandra. “Parece exagero, mas eles deram mais sentido à minha vida”, conta. “De quebra, fiquei mais durinha”, ri. Entre piruetas e manobras simples, como deslizar para trás, Sandra encontrou aquela satisfação de quem começa a fazer algo por si, quebrando o ciclo de só cuidar dos outros. O treino é toda semana. E quem a vê em ação, animadíssima, nem repara na idade. A não ser os filhos: é só ver a mãe toda feliz que um deles dispara: “Mãe, você fica ridícula com esse cadarço cor-de-rosa”. E daí? Combina com a cotoveleira, as joelheiras e o capacete. “Na nossa idade...”, suspira. A graça de deslizar é perder um pouco do controle – desde que bem protegida.

Escorrego, o esporte
Rafael Krieger, de 24 anos, é um amador. Mas poderia ser criador e craque de um novo esporte: o “escorrego”. Sua habilidade é deslizar sobre tudo quanto é piso – e também por superfícies variadas, como corrimão de escada. Como instrumentos, sapatos de sola lisa, meias sem medo de encardir, água e sabão, o próprio corpo – as regras são flexíveis e dependem da oportunidade. A prática começou ainda criança, em Florianópolis, quando o skate era meio de transporte da sala para a cozinha. Mais velho, Rafael descobriu o deleite das dunas na praia. Ali, deslizando areia abaixo, o escorrego era praticado com os pés descalços, sobre pedaços de papelão, de bunda. Então ele se mudou para São Paulo, a terra da garoa. E a chuva virou o meio “lubrificante”. Com tempo feio, ele sai às ruas de olho no chão mais molhado. Já mapeou as melhores pistas: o piso de azulejo na entrada do prédio é ótimo. Nele, “patina” de tênis mesmo, imaginando trilhas sonoras para sua apresentação. Se já caiu? Até criou calo. Mas bom mesmo é o escorrego na piscina. Funciona assim: de férias na casa da mãe, lá no Sul, esvazia a piscina de plástico dos irmãos menores e a estica na grama. “Daí molho com a mangueira, ponho bastante sabão, saio correndo e me jogo na lona lisinha.” Se o escorrego fosse esporte, ninguém mais reclamava da educação física.

Ladeira abaixo
A especialidade de Digiácomo Dias, de 27 anos, é despencar ladeira abaixo o equivalente a um prédio de 11 andares, numa piscada de 15 segundos. Entre ele e o chão, só uma prancha de fibra de vidro. Digi, como é conhecido pelos amigos, é tricampeão mundial de sandboard, um surfe em dunas de areia que surgiu na década de 80, na Califórnia. O caminho entre o “esquibunda” e o esporte profissional foi feito de muitas subidas e descidas, pranchas quebradas, braços e pernas lanhados, quilos de areia até dentro das orelhas. Paulista de São Bernardo do Campo, Digi se encantou com as dunas aos 11 anos, quando a família se mudou para Florianópolis, em Santa Catarina. O sandboard acabava de começar naquelas bandas. Na adolescência, o sobe-e-desce nas dunas ocupava tardes inteiras, e alguém da turma até chegou a dizer: “Um dia, você será campeão”. “Três vezes por semana, subíamos e descíamos as dunas da Praia da Joaquina quarenta vezes, sem técnico”, lembra Digi. Um amigo cuidava de ajudar o outro a melhorar a performance. Até hoje é assim. “Quando o vento norte, que levanta menos areia, chega na praia, coloco os óculos e curto os segundos da descida.” Se muita gente pensa em subir na vida, Digiácomo aprendeu que, primeiro, é preciso descer – e bem rapidinho – para conseguir saltar e ir mais longe.


















































