Droga Raia

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Conversa afiada

Créditos: Karina Sérgio Gomes // Fotos: Frankie Freitas
Conversa afiada
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"Na volta pra casa, o companheiro de viagem ficou mudo. O radinho sem bateria liberou meus ouvidos, e foi então que comecei a descobrir outros sons no vagão do trem. “É chego, não chegado!”, disse o filho. “Claro que não, é chegado”, retrucou a mãe. “O que eu queria mesmo era uma mulher que me deixasse ficar com a mão engordurada”, zangou o homem com a namorada. “Mas ele não é casado?”, desconfiou uma moça. “É, mas quando a gente não conhece a esposa, não conta”, esclareceu a amiga. “Eu não acredito nisso de lagarta virar borboleta”, revelou o menino para o irmão. Que retrucou, malvado: “Então, espera até saber como se faz um ovo de galinha!”.Capturadas aos pedaços, fora do contexto, elas soam absurdas. Mas ouvir conversas alheias, mais do que hábito de gente metida, é um exercício antropológico: ensina-nos sobre a natureza humana, estimula a imaginação, rende risadas e reflexões. Às vezes, é uma palavra dita de outro jeito, como a mulher que citou o medo de um tal “ET de Vargínia”, ou o senhor que confidenciou: “Quando bebo, sinto dor no figo”. Adoro também um mistério repentino. “Você ouviu a última declaração do Cachaça?”, pesquei outro dia, e lá fui eu criar uma história imensa na cabeça sobre a figura. Bom mesmo é quando o improvável toma a gente no meio da rua. “O cara não tem certeza, mas dá pra saber que aquela Capitu é uma safada só pelo olhar!”, escutei de um adolescente revoltado. Que belo resumo de Machado de Assis! E, mesmo na falta de conversa, sempre se pode tentar a leitura labial, ou até a livre interpretação de uma língua desconhecida. Vendo um casal de surdos-mudos conversar outro dia, os gestos me deram a impressão de um papo assim. Ele: “Sim, separou. Não tá sabendo?”. Ela: “É, e foi com uma faca bem afiada”. E pensar que essa arte de ouvir anda ameaçada pelos fones de ouvido e celulares. Pois, quando a bateria acaba, a gente descobre que é destapando as orelhas que ouve o que interessa: a vida dos outros encontrando a nossa."

 

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Comentários:
Muito boa a edição de junho. A reportagem sobre a conversa promove uma reflexão sobre essa importante arma que temos. Adorei a coluna da Roberta Faria, especialmente a parte que ela retrata as conversas mais difíceis: as que não temos. Realmente é mais dolorido engolir o silêncio da ausência do diálogo do que ouvir as verdades indesejadas. Uma pena que a conversa sempre envolve outra(s) pessoa(s) e esta(s) nem sempre estão dispostas ao diálogo como estamos. Mas a mensagem do editorial me fez muito bem.
Luiz Schery
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