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Corrida maluca

É como se fosse uma disputa em que vale tudo. Amarrar o cadarço do vizinho, colocar o pé para o outro tropeçar, puxar a camiseta. Às vezes, a rotina profissional lembra uma corrida maluca. O importante é vencer, não importa como. Era com uma sensação assim que a administradora Juliana Nunes acordava para ir trabalhar. A competitividade de seus superiores, em duas empresas, dava-lhe dores de cabeça. “Em uma, a gerente tentou me forçar a dizer que havia feito coisas que não fiz”, diz a goiana, de 30 anos. “Na outra, um diretor vivia se gabando da sua vida profissional.”
Foi aí que, no fim de 2008, ela decidiu ter um ambiente mais tranquilo durante o horário comercial. Aceitou um estágio em uma empresa menor, de administração familiar. É onde trabalha até hoje. “É mais amigável. Os donos sabem quem sou e têm uma boa relação com a equipe”, diz. Segura, ela perdeu o temor de dar os próprios passos na profissão.
Mas Juliana não é a única pessoa que já passou conviveu com o sentimento de ter seu tapete puxado no escritório. Um estudo realizado pelo instituto de pesquisa americano Conference Board registrou, em 2010, a maior taxa de insatisfação com o trabalho desde o fim dos anos 1980, quando esse acompanhamento começou a ser feito. Mais da metade dos entrevistados disse estar incomodada com o emprego e o mesmo percentual alega ter problemas com o chefe e com os colegas. A sensação é que a empresa virou uma selva, onde cada um está por si mesmo.
O importante é colaborar
“Competição é algo saudável. O problema é quando ela se torna predatória”, afirma Ana Cristina Limongi-França, diretora do Núcleo de Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho da Universidade de São Paulo. Ou seja: quando, dentro da mesma empresa, em vez de mirar nas concorrentes, a energia competitiva dissipa-se dentro da própria equipe – e, aí, todos perdem. Dividindo um ambiente hostil, os funcionários sentem-se ameaçados e o trabalho rende menos. “Quando isso acontece, a competição vira conflito, e, se a política interna não dá conta de gerenciar esse problema, cria-se um inferno”, diz Ana Cristina.
A designer mineira Ana Vizeu, de 31 anos, percebeu na prática que o ambiente competitivo faz a energia criativa virar fumaça. Por isso, ela decidiu dar o exemplo e cooperar. Na agência de publicidade onde trabalha, Ana é a pessoa que mostra ao colega novo onde está a máquina de café e está sempre disponível para ajudar. “Eu costumo até intervir quando vejo alguém em um aperto”, conta. “Ter uma relação de troca de ideias, para quem trabalha com criação, é fundamental.” Para ela, a equação é simples. “Busco fazer o melhor no trabalho por satisfação pessoal. Não para desbancar o outro”, afirma.
Dividir seu conhecimento no escritório, porém, não é sempre garantia de sossego. Muitas vezes, o funcionário colabora, mas a empresa insiste na competição. E isso pode provocar descompasso entre as ambições pessoais e as da companhia. “No modelo em que a equipe é incentivada a competir entre si, em vez de ter um chefe que dá ordens, você começa a receber ordens de todo mundo, até dos colegas”, afirma Roberto Heloani, professor na área de comportamento humano da Fundação Getulio Vargas e na Universidade Estadual de Campinas. Quando isso acontece, o trabalho pode virar um ambiente de stress e afetar não só a produtividade, mas a saúde pessoal. Os excessos na competição são ruins para todos – no fim das contas, a concorrência levada ao extremo resulta em falta de ética no trabalho e nas relações.
Valorizar o que há de bom
Essa atitude de acirrar os ânimos entre as equipes é um comportamento recente. Começou na década de 80, nos Tigres Asiáticos (Hong Kong, Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan), caminhou para a Europa e os Estados Unidos e, na década seguinte, alcançou os países em desenvolvimento. Mesmo assim, houve quem percebesse que é possível um equilíbrio entre a competição e a colaboração. Algumas empresas se deram conta de que todos ganham quando se valoriza mais a capacidade coletiva do que a individual. Foi o que descobriu o gerente de recursos humanos Marcos Nakatsugawa, de 45 anos. Há três anos e meio atuando em uma multinacional em São Paulo, ele aprendeu a trabalhar com seus colegas, sem concorrência. “Seguimos a lógica de que o sucesso vem do trabalho de equipe, não de um super-homem que vai fazer tudo”, comenta.
Na sua empresa, essa ideia sai do papel com um planejamento estratégico, feito anualmente. Cada funcionário tem seu papel definido e sabe quais metas serão afetadas caso não cumpra sua parte. Sabendo o que tem de fazer, não há embate: o colega não tenta – nem precisa – invadir o espaço do outro. “Hoje, eu percebo o valor disso para a empresa e para o funcionário”, diz Marcos. “O reconhecimento é coletivo, como no futebol: não adianta ter um jogador excepcional se o time todo não estiver afinado e participando.”


















































