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editorial

De mudança

Texto: Roberta Faria // Ilustração: Rebeca Luciani
De mudança
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Hoje completo 29 anos. Tempos atrás, o Dilson, editor da Sorria, escreveu aqui que aniversários são como um Ano-Novo particular. É a minha definição preferida: um tempo de balanço. De pesar o que passou, o que há, o que está por vir. Dias de inferno astral pra rever as mudanças vencidas e escolher as próximas a enfrentar. Só então vêm os fogos, daí sim merecidos.

Neste ano, não fiz festa. Dias antes, ao montar a minha lista de feitos e por fazer, fiquei mal. É uma confissão doída porque isso faz com que me sinta ingrata. Há coisas incríveis a comemorar, e das principais alegrias da vida – amor, saúde, trabalho – tenho muito.
Parece pequeno reclamar do resto.

Mas (e tenho de ser sincera, ainda que soe tola) fiquei desolada ao ver que a tabela do que falta é quase a mesma dos anos anteriores. Desejos e promessas que, passa o tempo, eu não cumpro. Mais um ano sem conseguir, e neste pareceu que, se até agora não deu, nunca vai dar: não adianta, não mudo.

São miudezas e pendências como sair cedo do trabalho, visitar mais minha família, praticar um esporte religiosamente, conviver mais com os amigos, não deixar nada pra última hora, pintar a parede da sala que está descascando, passear com os cachorros, pagar as contas na data, parar de roer as unhas. Tudo simples, cotidiano, quase bobo. Por isso mesmo – porque só depende de mim – tão difíceis de mudar.

Todos os dias (inclusive na Sorria) ouvimos histórias de conquista e superação, das mais grandiosas às mais triviais. Você pode inventar um negócio na garagem e virar a pessoa mais rica do mundo. Ter gêmeos e estar com barriga de tanquinho dois meses depois. Sair do nada e se tornar presidente. Adoramos, porque nos dão esperança: então eu também posso fazer isso.
 
Mas numa segunda-feira chuvosa de balanço, essas sagas me fazem sentir um pouco incompetente. Fico querendo saber das outras. As histórias do inevitável, do imutável, das tentativas falhas, das rotinas exaustivas. Não para me resignar com meus pequenos fracassos do cotidiano, mas para me confortar – e me sentir menos culpada e solitária neles.

Gosto de acreditar que tudo é possível. ‘Não dá’ é uma expressão que dificilmente sai da minha boca: me sinto como se estivesse antecipando um fracasso, condenando a um final infeliz. Não quero me conformar com o que desagrada. Mas, ao mesmo tempo, essa impressão de que todo desafio pode ser superado nem sempre ajuda. Pois se nem dos menores dou conta... Nessas histórias, feito conto de fadas, não se considera o custo da conquista. Parece que é só querer.

Vou dizer: o que eu queria de verdade hoje, no meu aniversário, era comemorar não as conquistas, mas meus  limites. Pra abandonar essa angústia de achar que não ser tudo aquilo, não realizar todas aquelas coisas, é um sinal de fracasso. Pensando bem, talvez a maior mudança que eu precise fazer em mim mesma seja a do olhar.

Daí, quem sabe, consigo entender, sem frustração, que há mudanças impossíveis. Outras têm seu próprio tempo: não cabem agora, mas um dia acontecerão. E há muitas para as quais o desejo é só um pequeno começo: é preciso muito mais esforço e paciência, e ainda assim talvez não funcione de saída. E tudo bem. Dá pra tentar de novo mais ali na frente, de outro jeito. (De qualquer forma, nenhuma mudança ou resignação acontece de uma vez só, nem termina em si mesma: manter é tão ou mais difícil quanto começar.)

Nesta edição, ouvimos histórias comoventes de gente que transformou a própria vida. E mais bonito é ver que às vezes a maior mudança é simplesmente aceitar as coisas como elas estão. Espero que elas inspirem você também.

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Comentários:
A Sorria só faz aumentar minha paixão pelo ser humano e sua capacidade de inovar e se reinventar. Espero que um dia tenhamos a Sorria e suas pautas como uma coisa comum, que encontramos em qualquer esquina, ligando qualquer canal. Parabéns!
Denison Ferreira Vieira
Olá Denison. Ficamos muito felizes com a mensagem! Obrigada por acompanhar o nosso trabalho. Abraços!
Tissiane Vicentin
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