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De olho no lixo

Cresci vendo o caminhão da coleta seletiva tocando seu jingle rua afora, em Curitiba. Ainda garotinha, eu fui para Florianópolis, e minha família seguiu separando os resíduos orgânicos dos recicláveis. Quando me mudei para São Paulo, mantive o hábito. Assim, sempre me senti segura em relação ao destino do meu lixo. Mas nunca tinha parado para pensar com cuidado sobre todos os tipos de dejeto que produzo nem investigado onde realmente eles vão parar – e qual seria o descarte mais sustentável. Esse foi o desafio que aceitei ao topar fazer esta reportagem para a Sorria.
Comecei pesquisando alguns dados. Um gráfico da prefeitura de São Paulo deixou-me bastante surpresa: das 13 mil toneladas de lixo recolhidas por dia na cidade, menos de 1% provém da coleta seletiva. Só então me dei conta: nunca vi um caminhão recolher lixo reciclável no meu prédio. O zelador confirmou a suspeita – realmente não existe esse tipo de coleta em minha rua. O lixo limpo é levado por algum funcionário do condomínio até o supermercado mais próximo, que funciona como um Ponto de Entrega Voluntária (PEV).
PEVs são instituições que se dispõem a receber o lixo das pessoas, que dali é encaminhado a centros de triagem (descubra o PEV mais perto da sua casa em www.rotadareciclagem.com.br). Uma iniciativa muito bacana. Mas eu ainda estava inconformada com o fato de não haver coleta em minha casa, algo com que estive acostumada desde criança. Telefonei para a prefeitura e descobri que há uma concessionária responsável por recolher os recicláveis na região em que moro. Liguei para lá e eis o que me disseram: não há para onde levar todo o lixo reciclável separado na cidade. É demais para o número de entidades que recebem e reciclam esses produtos. E, como não é função da concessionária armazenar o que coleta, ela simplesmente não tem recolhido.
Isso me pareceu muito absurdo para estar dentro da lei. Mas está: as resoluções que dispõem sobre a separação do lixo determinam que ela não precisa ser realizada caso não haja viabilidade econômica. Bem, mas eu havia lido no jornal, em agosto, que uma nova lei nacional sobre resíduos sólidos havia sido aprovada, e que um de seus pontos – ainda a ser regulamentados – estimularia a reciclagem. Não estaria aí a solução? Falei com a gestora ambiental Thais Felippe de Melo, que não foi nada otimista: “Não existe na nova política a indicação de que esse serviço deva ser obrigatório”. Ou seja, a exigência de coleta de recicláveis porta a porta ainda é um sonho.
Ainda havia, porém, uma pequena vitória a ser comemorada: pelo menos o meu lixo reciclável é, de fato, aproveitado. Será? Fui à cooperativa para onde os resíduos coletados pelo supermercado perto de casa são levados. Ela recolhe 100 toneladas de lixo por mês e está operando na capacidade máxima. O óleo de cozinha (não jogue o seu pelo ralo, pois pode contaminar os rios: leve ao PEV mais próximo!) e o papel branco são facilmente vendidos a empresas que reciclam. Mas o grosso do lixo é repassado a atravessadores. E aí o que não é rentável não tem saída. Nesse momento descobri que de nada adianta eu colocar no lixo limpo um monte de coisas feitas de plástico, metal, vidro ou papel. Embalagens muito leves, principalmente quando estão sujas, como bandejinhas de isopor utilizadas para embalar carne, tubos de pasta de dentes e pacotes de salgadinho, não passam na triagem. O mesmo acontece com itens feitos de material misto e que precisariam ser desmontados, como isqueiros e aparelhos de barbear descartáveis: vão para o lixo comum.

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Hóspedes famintas
Ainda assimilando essas informações, eu voltei para casa. Depois do lixo reciclável, era hora de refletir sobre o orgânico. Para diminuir a quantidade de resíduos desse tipo, lembrei-me de minha mãe, que usava restos de vegetais para adubar o quintal. Adaptando a técnica ao apartamento em que moro, resolvi comprar um minhocário. Decidida a superar o asco que sinto desses animaizinhos, encomendei pela internet o modelito PP, que comporta meio litro de orgânicos por dia. Os preços variam entre 150 e 400 reais, dependendo do tamanho.
Somente quando o equipamento chegou, no dia seguinte, foi que eu entendi exatamente como ele funciona. Com 44 centímetros de altura, 35 de largura e 43 de comprimento, o minhocário é composto de três gavetas empilhadas, que se comunicam entre si por meio de furinhos. Na do meio enterra-se o lixo: restos de frutas, legumes e verduras, pão velho, erva de chá (com saquinho e tudo), pó e filtros de café e guardanapos usados. Depois cobre-se com folhas secas ou serragem e deixa-se o trabalho para as minhocas: elas transformam o material em húmus e num poderoso fertilizante líquido. Esse último escorre para a gaveta de baixo, na qual há uma torneira. Depois, recomeça-se o processo na gaveta de cima, para a qual as minhocas migrarão. A primeira remessa de húmus e fertilizante é produzida em 50 dias.
Cheiro ruim, só quando se levanta a tampa. Durante o dia, eu juntava os restos de comida num potinho na pia. De noite, eu e minha filha de 10 anos servíamos o banquete aos animaizinhos, hospedados na área de serviço. Eu consegui passar a primeira semana inteira sem enxergar nenhuma minhoca. Mas eis que um dia levanto a tampa do chão e vejo uma sair correndo pela casa. Sim, elas são rápidas! A partir daí, eu me acostumei a forrar bem o chão com jornal.
Incidentes à parte, o minhocário realmente diminuiu nosso lixo. O cestinho fica só com os restos de comida que são proibidos na dieta dos bichinhos: sobras de carne, que atraem moscas, e cascas de frutas cítricas, cuja acidez prejudica o ecossistema. Agora não chego a encher um saco de orgânicos por dia.
O melhor saco
No banheiro não descobri nenhuma novidade que permitisse um destino mais sustentável ao lixo. Com o papel higiênico, por exemplo, não há o que fazer, senão depositá-lo no lixo comum. Em alguns meses, ele será naturalmente decomposto. Jogá-lo no vaso, segundo o professor de pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), Pedro Jacobi, não é nada aconselhável, pois o tipo de encanamento utilizado no Brasil pode facilmente entupir. Para lenços umedecidos, absorventes e fraldas também só resta o cestinho.
Se produzir lixo não reciclável é inevitável, pelo menos nós podemos dar uma mãozinha à natureza na hora de embalá-lo. Sempre usei sacolas de supermercado, mas já ouvira falar dos sacos bio e oxibiodegradáveis, anunciados como mais sustentáveis. Decidi testá-los.
Não foi tão fácil. No mercado popular, na mercearia, na casa de embalagens e até na quitanda de orgânicos, eu encontrei apenas sacos comuns. Minha busca só teve êxito nos supermercados grandes. Mesmo assim, havia apenas uma marca de embalagem biodegradável. E de oxibio só encontrei minissaquinhos aromatizados para recolher cocô de cachorro da calçada. Comprei os dois.
O oxibiodegradável, além de pequeno, não é nada resistente: rasgou logo quando tentei encaixá-lo na lixeirinha do lavabo. E descobri que ele não é tão amigo do ambiente: ao se degradar, transforma-se em inúmeras partículas que podem contaminar os cursos de água.
O biodegradável saiu-se melhor. Comparando com sacolinhas de mercado, ele não deve muito em resistência. Perde em qualidade para os sacos comuns, e custa mais que o triplo do preço desses, mas tem bons argumentos para compensar: decompõe-se em dois anos, pela ação de microrganismos, enquanto o plástico comum demora quase meio século para desaparecer. Para quem pode gastar um pouco mais, é uma boa opção. Uma alternativa mais barata é, sempre que possível, embalar o lixo em papel ou papelão, que se decompõem ainda mais rapidamente.
Não tem remédio
O último capítulo dessa novela foi descobrir o que fazer com remédios vencidos e termômetros velhos. Jogar no lixo, nem pensar: os termômetros, por conter mercúrio, podem causar intoxicação e contaminar o solo. E os medicamentos podem ser consumidos indevidamente – pensando nisso, alguns especialistas da área de farmácia recomendam despejá-los na pia, na falta de destino melhor.
Como os postos de saúde e hospitais são obrigados a descartar esse tipo de lixo de forma correta (o que pode envolver incineração, descontaminação ou encaminhamento a aterros específicos), eu decidi ligar para alguns e pedir ajuda. Fui em geral atendida com surpresa, e recebi respostas bem estranhas. O pessoal de um pronto-socorro referência na cidade sugeriu que eu procurasse a solução no Google. No outro disseram que algumas ONGs que cuidam de cachorros poderiam receber os remédios vencidos! Dois postos de saúde, porém, acabaram aceitando meus medicamentos. Já para os termômetros não houve solução. Vão ter de continuar na gaveta de casa.
Esse episódio e outras descobertas que fiz no decorrer da apuração me revelaram que a questão do lixo ainda é um grande problema. Com a nova lei, muito pode melhorar. Por exemplo: os fabricantes de produtos como óleos lubrificantes, pilhas, pneus, lâmpadas fluorescentes e eletroeletrônicos terão responsabilidade no recolhimento e na destinação dos resíduos remanescentes após o uso. Mas caberá aos consumidores efetuar sua devolução. Ou seja: tudo sempre começa na consciência de cada um. E, para a minha – espero que para a sua também –, foi muito estimulante passar estas três semanas de olho no lixo.


















































