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De pés no chão

Você se lembra de quando aprendeu a andar? Provavelmente, não. Então, deixe-me ajudá-lo: foi difícil pra caramba. Ganhar equilíbrio, sustentar-se nas duas pernas, coordenar os passos – primeiro um, depois o outro, olhando firmemente para os pés errantes. Mas você conseguiu. Hoje, o que foi um excitante desafio transformou-se em atividade automática. O que não é tão bom assim. Talvez pela facilidade que temos em andar, nos esquecemos de como esse exercício pode fazer bem para nosso humor e nossa saúde.
Para algumas pessoas, porém, a andança nunca perde a graça. A pesquisadora Aide Torres, por exemplo, há 45 anos perambula feliz por aí. Moradora de São Paulo, ela tem desde muito cedo o hábito de caminhar para qualquer lugar. Ao trabalho, ao parque, ao médico, à feira, à casa das amigas – mesmo que o destino esteja a uma dezena de quilômetros. “É costume. Sempre escuto que me viram andando em algum lugar”, diz.
Segundo Aide, a disposição é herança genética. Seu pai, que morava em Foz do Iguaçu (PR), andava pelo menos três vezes por semana até o Paraguai para comprar jornal e chipa, um biscoito tradicional da cultura guarani. “E viveu até os 92 anos, sempre com o mesmo peso”, conta a filha.
Nenhum especialista duvida de que o hábito possa ter contribuído para a longevidade de seu Guillermo. “A caminhada melhora a circulação do sangue, desenferruja articulações, previne contra o glaucoma, reduz o risco de fraturas e de câncer de mama e libera endorfina, hormônio que nos dá aquela sensação de bem-estar”, afirma Paulo Roberto Correia, coordenador do Laboratório de Fisiologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A atividade é indicada sobretudo para quem já passou dos 30 anos, idade em que a construção fisiológica do corpo se encerra. A partir de então, é preciso manter o organismo ativo para garantir o bom funcionamento da respiração e dos músculos, incluindo o coração.
Tanta vantagem, porém, ainda não foi capaz de convencer as amigas de Aide a adotar seu hábito. “Elas sempre inventam alguma desculpa quando as convido. Acostumaram-se com o carro e se esqueceram de como é bom ver a cidade com olhos de pedestre”, diz. Para ela, cada caminhada traz suas surpresas. “Uma vez conheci um rapaz que estava tirando ervas daninhas do canteiro de uma avenida e fui ajudá-lo na limpeza. Foi divertido. E os vendedores de flores na frente do cemitério já me conhecem, volta e meia me dão um arranjo.” Ela também não deixa de se conceder presentes: dependendo do percurso, Aide se programa para tomar um café na lanchonete preferida, passear numa livraria, dar uma paradinha no parque. “Caminhar me ajuda a descarregar as energias e a me manter saudável. É raro me ver doente”, afirma.
Meditar pelo caminho
Ao contrário de Aide, a carioca Letícia Ferreira Braga aprendeu a caminhar regularmente há apenas alguns anos. No caso dela, a atividade é um tanto diferente. Viúva e com uma filha pequena, aos 26 anos Letícia pegou tuberculose e se viu obrigada a cuidar melhor da saúde. Orientada pelo médico, procurou um centro budista onde encontraria bons exercícios para treinar sua respiração. Hoje, aos 38 anos, Letícia pratica semanalmente o que os budistas chamam de caminhada meditativa.
Segundo o monge Thich Nhat Hanh, autor do livro Meditação Andando, todos nós precisamos aprender a andar de novo – “devagar, com alegria e naturalidade”. E, para isso, o trabalho mental que realizamos enquanto caminhamos é fundamental. “Meditar é concentrar-se no momento presente, afastando os pensamentos e preocupações do dia a dia referentes ao passado e ao futuro”, diz Herbert Sato, coordenador do grupo de caminhada Zen no Parque, de Curitiba. Ele explica que muita gente que quer aprender a meditar começa tentando enquanto caminha, por ser mais fácil. “Concentrar-se nos movimentos do corpo nos ajuda a parar de pensar no trabalho, nos problemas”, diz.
O exercício da concentração deve ser constante. “Vou sozinha ao Jardim Botânico e saio andando aleatoriamente. Tento focar nos movimentos dos braços, das pernas, conto o meu tempo de respiração. E, quando percebo que estou pensando em outra coisa, digo a mim mesma: ‘Esses passos não valeram’”, explica Letícia, que volta de onde parou e começa de novo. “Termino a caminhada uma, duas horas depois, com o coração bem mais leve. É uma terapia”, conta. Para tornar o momento ainda mais especial, o monge Thich Nhat Hanh sugere que se entoe palavras positivas, que evoquem bons sentimentos.
Seja para o corpo, seja para a mente, andar é um exercício tão eficiente quanto fácil. Quanto você acha que precisa caminhar por semana para começar a sentir os benefícios? Pasme: segundo os médicos, apenas uma hora semanal já é um bom começo. E o melhor é não fazer tudo de uma vez, mas dividir a atividade entre os dias. Somando pequenos trajetos, como ir de casa até a padaria, ou até o cinema do domingo, você fecha a conta com facilidade. Logo, vai querer aumentar o ritmo. Aí, siga os conselhos do fisiologista Paulo Correia: “Faça uma consulta médica, coloque um calçado confortável, uma roupa não muito justa e regule-se pela respiração – se estiver ofegante, diminua a velocidade e continue andando”. Experimente. Seus caminhos – e sua saúde – nunca mais serão os mesmos.


















































