movimentar
Dê um pulinho aqui

Quando sai o gol. Quando a gente passa no vestibular. Quando aquele telefone finalmente toca (depois de horas e horas de espera angustiada). Uma comemoração só é legítima quando damos pulos de alegria.
Pular é um prazer que aprendemos quando criança, e adoramos. E que, com o tempo, vamos sufocando aos poucos. Porque o corpo envelhece, porque a gente esquece como é bom, ou porque ninguém mais quer pular junto. Dar um salto é uma maneira essencial de expressar a felicidade. Bastam dedos, pés, pernas e impulso. É de graça. E faz bem. “Pular melhora o ritmo, a coordenação, a força, o equilíbrio e a resistência aeróbica e anaeróbica”, diz Ana Sato, professora de educação física da Moventis, Cento de Educação pelo Movimento. Não importa se você era ruim no elástico ou tropeçava quando a velocidade da corda chegava no “foguinho”. Nem se era pesado demais para o salto em distância da escola ou se sua mãe não o deixava pular na cama. Pular está no sangue. E não só diante da boa notícia.
Conheça histórias de gente que, sim, sempre obedece quando alguém pede: “Dá um pulinho aqui?”
Folia elástica
A artista plástica Sônia Telles, de 57 anos, não é uma mulher qualquer. Separada e dona de seu nariz, dança zouk (um tipo de lambada), tem três pit bulls, não quer saber de cozinhar e mantém em sua casa da Serra da Cantareira, em São Paulo, uma cama elástica de 15 por 3 metros. Ali ela pode saltar sem parar, com as pernas em espacate e pés de bailarina: “Eu sei fazer pontinha, ó”. A história começou por acaso. Há oito anos, ela precisou de uma rede protetora entre o mezanino aberto e a parede de vidro da casa. O serviço foi feito com uma rede elástica, por engano. Ela e os cinco netos, de 7 a 11 anos, amaram. Quando vêm muitos amiguinhos deles para dormir, ela veste cada um com um pijama colorido de sua coleção, bota todos de cobertor e travesseiro aninhados na cama elástica e conta uma história. Deita-se junto, eles adormecem e, então, ela sai de fininho para sua cama. Sônia pode não ser uma mulher qualquer, mas também precisa poupar as costas.

Pular é viver
O sobe-e-desce de Sandra Mautner, de 38 anos, é acelerado. A mãe de quatro filhos descobriu que 2 metros de náilon são quase uma terapia. Sandra salta devagar com os pés juntos, rápido com os pés separados, mas salta, porque, além de bom para o corpo, pular corda faz bem pra sua auto-estima e concentração. “Estou mais segura, mais focada, gosto mais do meu corpo”, conta, com um sorriso tímido. A paixão começou na infância, ainda com pouca habilidade. “Salada, saladinha, bem temperadinha, com sal, pimenta, fogo, foguinho.” A cada estrofe da música infantil, a velocidade aumentava, e Sandra nunca ganhava, esbarrando na corda antes das amigas. Foi na academia, há um ano e meio, que ela redescobriu o prazer. Os filhos e o marido que o digam: hoje ela pula com até duas cordas juntas, em ritmos diferentes. “O barulho dela no chão incentiva a dar o próximo salto”, garante. Ela ainda não sabe qual é o próximo salto de sua vida. Mas já se sente preparada.

O sonho que se mede em metros
Renato Benhur tem 14 anos e 1,75 metro de altura. Seu sonho exige que ele persiga mais 2,32 metros, no mínimo. Nada a ver com ser o homem mais alto do mundo. Os metros almejados estão à frente, na marcação da pista de areia. São o que separa o jovem atleta do recordista panamenho de salto em distância, Irving Saladino, ouro em Pequim (com a marca de 8,34 metros). Renato sabe que há um longo caminho até lá. Mas disso ele entende. Todos os dias, depois da escola, atravessa São Paulo em três horas e duas conduções, da Cidade Tiradentes, na periferia do extremo leste, ao centro olímpico da prefeitura, na Zonal Sul. Só de ida. “Se eu pudesse ir saltando, seria mais fácil”, garante. Suas pernas treinam salto em altura e distância três horas ao dia e, nos fins de semana, competem. “Ele tem potencial, técnica e iniciativa, sempre leva medalha”, diz o treinador Victor Fernandes. Renato vê o esforço como profissão, mesmo não remunerada: “Pular já me levou a lugares e pessoas diferentes, vai me levar à Olimpíada”, diz. E, se o 1,75 metro de altura não parar por aí, melhor. Para Renato, medidas de comprimento são assunto sério.

Salto alto
Foi o salto mais vertiginoso de minha vida. Três mil metros de vazio entre meus pés e a terra firme. “Você já sabe o que fazer?”, gritou o instrutor de pára-quedismo – a porta do monomotor aberta. Repeti a lição: empurrar a barriga para a frente, segurar a mochila, jogar as pernas para trás. Íamos para o abismo quando ele disse: “Esqueceu o principal”. Como assim? Perdi algum detalhe, eu me distraí? “Sorria e divirta-se, do resto cuido eu”. Caímos eu, ele e o fotógrafo, em meio a nuvenzinhas brancas como picolé de coco, a 200 quilômetros por hora. Um jato de ar tão forte que fez cada canto da minha boca alcançar as orelhas. Era impossível fechar os braços, com o atrito dos 50 segundos da queda livre. Uma nevasca revirava meu estômago. Então senti o instrutor se movimentar – por milésimos, esqueci que ele estava em cima de mim –, anunciando que abriria o pára-quedas. Um tranco acabou com a melhor sensação do mundo. Então apareceram o pasto, as vaquinhas, a estrada, todos em tamanho de maquete. E eu, que sempre sonho estar voando, dormia de olhos abertos. Se pudesse, ficava lá em cima para sempre.

















































