Droga Raia

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editorial

Devagar e sempre

Por Roberta Faria, editora-chefe
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Nunca fui muito boa em esportes. Minha turma da escola, ao contrário, era ótima – vários amigos foram de times juvenis da cidade e representaram o estado. Não raro, eram brilhantes em qualquer modalidade que resolvessem praticar.

Enquanto isso, eu precisava me esforçar loucamente para acompanhá-los. Treinava dez vezes mais em aulas extras ou no quintal para chegar ao que eles faziam de improviso num pé só. Por esse empenho, vá lá, cheguei à reserva de vários times e ganhei umas medalhas. Mas nunca deixei de ser a café-com-leite.

Foi aos 16 anos, em uma piscina, que me encontrei. A natação era um opcional da educação física. Como já sabia o básico, reaprender os movimentos foi rápido. Logo passei para a turma de treinamento, formada por potenciais competidores. E aí... o mesmo de sempre: garotos de 11 anos eram mais rápidos, corridas de 50 metros me deixavam sem ar, o cronômetro só marcava o último lugar.

Até que, numa tarde pouco inspirada para competir, pedi à professora que me deixasse nadar em paz. Ela consentiu com a folga, e comecei as braçadas. Primeiro, afobada: velho costume de estar sempre competindo. Quando me notei fora do jogo, desacelerei, rumo ao meu próprio ritmo. Livre da pressão, me distraí com o silêncio da água, o desenho dos azulejos, umas conversas imaginárias. Os movimentos ficaram automáticos e perdi a conta das voltas.

Quando a professora me chamou, uma hora mais tarde, a aula acabara, e eu tinha nadado 2,5 mil metros sem colocar os pés no chão. Não era uma marca olímpica mas, ainda assim, uma medida impressionante para o lugar, e aqueles garotinhos que me ultrapassavam fácil todos os dias ficaram chocados.

Dali em diante, fomos descobrindo que esse era o meu talento. Eu já devia saber – era quase um resumo da minha história. Eu não sou a mais forte. Não sou a mais rápida. Nunca serei, não importa quanto tente. Mas tenho resistência. Ao contrário dos meus amigos naturalmente talentosos, preciso me esforçar muito. E se isso não me tornou especial, ao menos me ensinou a aguentar, a insistir, a tentar outras mil vezes. O que não serviu para o vôlei, mas na natação...

Meses depois, houve uma espécie de maratona entre academias, e um dos objetivos era ver quem nadava mais – em distância, não importava a velocidade. Entrei na piscina cedo. Ao longo das horas seguintes, muitos competidores passaram por mim a toda, respingando água na minha cara, com jeito de quem achava que eu, a garota gordinha e devagar, era causa perdida. Eu ria soltando bolhas.

Outro dia me contaram: mais de dez anos depois, meu recorde daquela tarde ainda não foi batido. Eles eram mais rápidos. Mas eu sou incansável.

Todo mundo é bom em alguma coisa. Todo mundo pode chegar onde quer – ou ao menos muito perto. Mas não se descobre isso sem persistir. Mesmo quando as coisas andam devagar, mesmo quando dão errado. É de esforço – muito mais do que de talento ou sorte – que se constroem nossos grandes feitos. É o que me dizem as histórias incríveis desta edição. Espero que inspirem você a tentar mais também.
 

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