Droga Raia

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Do baralho

Texto: Dilson Branco // Foto: Yumiko Kinoshita / Getty Images
Do baralho
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Quando me dei por gente, aqueles dois baralhos já existiam. Lembro-me bem do emaranhado em branco e vermelho atrás de cada carta, da textura desgastada pelo atrito com o assoalho, do cheiro de papel guardado. No verão, eles saíam da gaveta. Em geral, só um bastava, e eu passava a tarde roubando montes da minha irmã. Quando os dois eram embaralhados juntos, sinal de grande alegria: tínhamos companhia. A família reunida brincando comigo, o que poderia ser melhor? Pife, burro, mau-mau, canastra, mico, burro tisnado (ou dorminhoco, ou porco,  e dê-lhe rolha queimada na testa!), detetive (matando de mentirinha com uma piscada) ou só paciência mesmo.

Alguns jogos exigem raciocínio rápido, muitos pedem sorte.  No mais, basta o baralho e os amigos. Na faculdade, a graça era descobrir as regras de truco que cada um trazia de sua terra. Uma vez, acampados, improvisamos um baralho usando 54 santinhos de Santo Expedito. Heresia? Nada! Pedimos, e no outro dia nosso padroeiro nos brindou com o sol que tanto esperávamos. Recentemente, redescobri o prazer de fazer combinações de números e naipes. É sagrado, toda quarta-feira. Um dia não pude ir e soube que disseram: “Pôquer sem o Dilson não é a mesma coisa”. Ouvir isso é melhor do que limpar a mesa.
 

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